Manifesto

Quem somos? Este tipo de definição parece sempre guardar uma exclusão fundamental que negará todas as nossas possibilidades de sermos qualquer outra coisa. Corre-se o risco de que uma resposta a esta pergunta nos empurre à cristalização de um único objetivo, um único fim que pode reduzir este experimento coletivo a uma resposta simplória. Mas, sem cair em uma divagação eterna sobre a instabilidade de nossas imagens, é importante admitirmos que procuramos aqui fornecer uma fotografia, datada, sobre alguns impulsos que nos levaram a construir essa revista. 

A inquietude diante do mundo é um deles, com certeza. Talvez a busca por perguntas, e não respostas, também o seja. Mas, como diversas epistemologias contemporâneas chamaram a atenção, é fundamental admitirmos nosso contexto, nossa história, nossa condição geográfica, nossa faixa etária, ou tudo o que conforme e impulsione nosso modo de pensar. Somos jovens pesquisadoras do século XXI, ansiadas por interrogar o mundo, em meio à pandemia do coronavírus, diante do capitalismo e suas formas modernas, com aquecimento global e os desastres que o sucedem, e, também, com uma crise da política parlamentar em solo brasileiro que se arrasta lentamente. 

Por ação dos comedores de terra, espalhadores de uma fumaça de veneno mortal, talvez já vivamos num mundo onde o céu tenha caído, como chama atenção Davi Kopenawa (e Bruce Albert). O xamã Yanomami aprofunda a percepção da agonia contemporânea. Ele e sua obra são inspirações fundamentais para a estética de nossa revista e para a reflexão sobre o mundo em que vivemos. “Ouro Canibal”, um dos capítulos da obra “A Queda do Céu” é a metáfora – e materialidade – da destruição das entranhas da terra-mãe pelo homem branco capitalista. Nossa luta é anticapitalista, antirracista, feminista e anticolonial.

Esta revista é fruto de um engajamento coletivo que procura democratizar as escrituras e tessituras cotidianas, para além do espaço acadêmico, podendo se tornar um canal de expressão das mais diversas artes, palavras, ideias e afins. Nos propomos a deixar os pensamentos e discussões que não cabem dentro dos padrões da academia, mas, que de forma alguma são menos importantes, aflorarem e renderem proposições que se conectem com as realidades vividas. Acreditamos na importância da produção acadêmica, científica, mas, também, em todas aquelas que acontecem fora dela.

Um lugar aberto, possível de ser acessado de todos os lugares, por diversas pessoas, seguindo a programação da internet. Um lugar com intenção. Intenção de provocar discussões que perpassam desde as visões mais positivas (sim, elas devem existir) sobre o mundo, até aquelas que falam sobre o fim dele.

Convidamos a todas/os a participarem desse experimento conosco. 

Revista Ouro Canibal