Manifesto Revista Ouro Canibal

Quem somos? Este tipo de definição parece sempre guardar uma exclusão fundamental que negará todas as nossas possibilidades de sermos qualquer outra coisa. Parece como se qualquer resposta a esta pergunta cristalizará um objetivo e um fim a esse experimento coletivo que nos reduzirá a este texto. Mas, sem cair em uma divagação eterna sobre a instabilidade de nossas imagens, é importante admitirmos que procuramos aqui, fornecer uma fotografia, datada, sobre alguns impulsos que nos levaram a construir essa revista. A inquietude diante do mundo é um deles, com certeza. Talvez a busca por perguntas, e não respostas, também o seja. Mas, como diversas epistemologias contemporâneas chamaram a atenção, é fundamental admitirmos nosso contexto, nossa história, nossa condição geográfica, nossa faixa etária, ou tudo o que conforme e impulsione nossa forma de pensar. Somos jovens pesquisadoras, no século XXI, ansiadas por interrogar o mundo, em meio à pandemia do coronavírus, diante do capitalismo e suas formas modernas, com aquecimento global e os desastres que o sucedem, e também com uma crise da política parlamentar em solo brasileiro que se arrasta lentamente. Por ação dos comedores de terra espalhadores de uma fumaça de veneno mortal, talvez já vivamos num mundo onde o céu tenha quedado, como chama atenção Davi Kopenawa. O xamã Yanomami aprofunda a percepção da agonia contemporânea, que anseia pelo seu fim. Este envenenamento coletivo nos fez pensar nas urgências do momento presente, o que ilustra o nome da revista, o Ouro Canibal. Assim, mesmo que não possamos nos definir de forma não excludente, é preciso que nos posicionemos politicamente. ‘’Isto’’, é um coletivo que procura democratizar as escrituras e tessituras cotidianas, para além do espaço acadêmico, podendo se tornar um canal de expressão das mais diversas artes, palavras, ideias e afins. Deste modo, se pudermos nos definir, ainda que de forma momentânea, poderíamos nos posicionar em relação ao que somos contra, e isto faz parte dos nossos impulsos, e, mais ainda, adicionaríamos este ímpeto pela palavra e pelas perguntas, que podem nos mover em meio ao presente.

Editoras.