O longínquo ano de 2019

Luan Prado Piovani

E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz. (CAMUS, Albert, p. 291, 2013)

Nos tempos atuais, tenho me confrontado com memórias de um passado distante, um tempo, de certa forma, idealizado: o ano longínquo e estranhamente próximo de 2019. Essa época pré-pandêmica foi marcada pela “normalidade” (termo este, a meu ver, equivocado e vago, pois a vida nunca foi normal. Ela sempre foi marcada pelos desafios e contradições inerentes a realidade, mas, se comparado a este momento adverso, o mundo “antigo” parece um paraíso perdido). Neste mundo, antes da peste, ainda havia contatos diretos, cumprimentos calorosos e possibilidades de novas experiências.

Porém, em dezembro de 2019, notícias consternantes chegavam do gigante asiático. Um novo vírus, altamente contagioso, surge (importante destacar: SEM UM TRATAMENTO PRECOCE), as autoridades internacionais e entidades de saúde passam a estudar e implementar medidas sanitárias para conter o vírus. Alguns governantes tomam esta grave situação de maneira séria, implementando medidas energéticas para conter o impacto desta doença; outros preferiram minimizar o atual contexto, chamando um vírus letal de “gripezinha”1, condenando a morte indiretamente (ou diretamente) extensos segmentos da população, um país criado com genocídios acaba se mantendo fiel às suas origens.

Geralmente os anos terminam no final de dezembro, no calendário da “normalidade”, também conhecido como gregoriano. Para mim, o ano de 2019 terminou em março de 2020, quando a vida foi suspensa e deixamos de viver para passar a sobreviver. A angústia e os temores, que sempre estiveram presentes, se intensificaram. Passamos a viver em um mundo de constante tensão e onde somos confrontados com a mortalidade incessantemente. Ao sair de casa, sempre nos deparamos com a expressão latina: Memento mori (lembre-se da morte).

O extenso ano de 2020 ainda não acabou, mas já é possível observar os países desenvolvidos paulatinamente celebrando o seu ano novo, voltando à “normalidade”, reconstruindo um mundo novo nos escombros do antigo. Esse quadro, mesmo sendo uma prévia que a peste está passando, evidencia a extensão da desigualdade entre as nações, pois os países subdesenvolvidos terminam ficando para trás em suas taxas de imunização, por não possuírem os recursos e/ou as tecnologias necessárias para produção em massa de imunizantes.

O Brasil apresenta características similares com Orã, na situação imaginada pelo escritor franco-argelino, Albert Camus, no livro “A Peste”, por terminar isolada do mundo. A rotina é rompida e perde o pouco sentido que tinha, como simular a normalidade em um mundo marcado pela morte? As famílias, as amizades e os amores, que antes faziam parte do cotidiano, agora são obrigados a viver afastados. E a peste que nos acomete não é apenas física, é também moral. Como coloca Jean Tarrou2, ela se faz presente na indiferença humana, que permite as inúmeras atrocidades e injustiças que nos acomete no dia-a-dia. Temos personagens reais que enriquecem com essa crise humanitária, seja por meio de narrativas falsas que desmentem o número de mortes3 ou por meio de compra de vacinas superfaturadas4.

A indiferença patológica leva a ignorância. Os terraplanistas anticientíficos mudaram seus discursos, passando a serem médicos e epidemiologistas formados pela famosa “Universidade do Zapzap”. Não faltaram “prescrições” para ivermectina, azitromicina e cloroquina, causando um aumento no número de pacientes com hepatite medicamentosa, devido a tratamento com medicamentos sem eficácia comprovada5. Ademais, o presente momento, marcado pela anormalidade, apresenta um grupo de indivíduos muito peculiares, os sommeliers de vacina, que se sentem no direito de escolher qual vacina tomar num período marcado pela escassez e pela pandemia, ignorando dados que comprovam a eficácia de todas as vacinas que foram aprovadas para aplicação no território nacional.

Vivemos em tempos difíceis para otimismos, estamos inseridos em um contexto marcado por um combo de crises: humanitária, social, econômica e política. A jovem democracia brasileira sofre ameaças constantes, com um presidente que exalta o passado ditatorial e ameaça não reconhecer o processo eleitoral de 2022 (modelo este seguido por seu ídolo proto-fascista, Donald Trump, que perdeu as eleições em 2020).

No entanto, cabe dizer que este não é o fim da história. Como coloca Erich Fromm (1975): “Estamos bem no meio da crise do homem moderno. Não nos resta muito tempo. Se não começarmos agora, talvez seja tarde demais. Mas há esperança […]”. Esta expectativa por dias melhores é o que deve nos guiar durante a tormenta, as utopias movem o mundo. Temos que reconstruir as nossas relações, já pensando no pós-pandemia. Mas também não devemos ficar presos na expectativa de reconstruir o mundo antigo, que ousemos superá-lo e traçar novos caminhos.

Nossos Hermanos chilenos, bolivianos e peruanos já nos mostram o caminho. Desde 2019 já era visível o intenso movimento de luta dos povos por uma sociedade mais justa, democrática e igualitária, sendo estas movimentações históricas. Essa ameaça aos que se beneficiam do status quo foi sentida pelos membros do atual governo, que intimidaram com uma possível reedição do horrendo AI-5 caso a luta legitima dos povos se estendesse para o Brasil6.

Já estamos voltando às ruas, e que isso seja apenas o começo! Tenho esperança em tempos melhores, espero que tenhamos forças para construir uma sociedade justa, igual e plenamente democrática. Temos que destruir essas distopias em que estamos inseridos, que vai muito além da pandemia. Se faz necessário a construção de um julgamento de Nurembeng à brasileira, para fazer justiça aos mais de 500 mil mortos pela COVID-19. É preciso se prender nesse fio de otimismo e lembrar que a noite é mais escura antes do amanhecer. Seguimos com o canto de Chico na cabeça: Amanhã vai ser outro dia…

O Amanhã um dia chega, para alegria de uns e desespero de outros.

Texto enviado em 11-07-2021

  1. 2 momentos em que Bolsonaro chamou covid-19 de ‘gripezinha’, o que agora nega. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-55107536>. Data de Acesso: 02/07/2021.
  2. Personagem de “A Peste”.
  3. TCU desmente declaração de Bolsonaro sobre número de mortos pela Covid. Disponível em: <https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2021/06/07/tcu-desmente-declaracao-de-bolsonaro-sobre-numero-de-mortos-pela-covid.ghtml>. Data de Acesso: 02/07/2021.
  4. EXCLUSIVO: Governo Bolsonaro pediu propina de US$ 1 por dose, diz vendedor de vacina. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2021/06/exclusivo-governo-bolsonaro-pediu-propina-de-us-1-por-dose-diz-vendedor-de-vacina.shtml>. Data de Acesso: 02/07/2021.
  5. Ozônio, ivermectina, azitromicina e cloroquina para Covid-19: o que diz a ciência? Disponível em: <https://rdsaudeemdia.com.br/ozonio-ivermectina-cloroquina-e-azitromicina-para-covid-19/&gt;. Data de Acesso: 09/07/2021
  6. O que significou o AI-5 para o Brasil, segundo o historiador Carlos Fico. Disponível em: < https://brasil.elpais.com/brasil/2019/11/26/politica/1574785901_729738.html&gt;. Data de Acesso: 09/07/2021.

Referências Bibliográficas:

FROMM, Erich. A Revolução da Esperança. Editora Zahar, Rio de Janeiro, 1975.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s