Minha homenagem a Jesús Martín-Barbero

*Bruno Santos Dias

**Colagem de destaque: agrossosmodos

No sábado 12 de junho de 2021, em Cali, na Colômbia, morreu o escritor, semiólogo, antropólogo e filósofo colombiano Jesús Martín-Barbero, um dos mais importantes teóricos da comunicação na América Latina. Foram inúmeras as manifestações de pesar, vindas de diferentes partes do mundo, lamentando sua partida e ressaltando a importância do seu pensamento para a Comunicação, os Estudos Culturais e as Ciências Sociais em geral. Nomes de peso, como Néstor Garcia Canclini, Carlos Scolari, Nick Couldry e até o badalado Mark Deuze, prestaram sua homenagem. Intelectuais com muita propriedade no que falam. No entanto, ouso deixar também, na forma do presente texto, meu humilde par de flores. E, ciente de minhas limitações, faço-o não na perspectiva pragmática de um pretenso acadêmico, mas especialmente através da experiência de alguém que se conectou com o pensamento, a reflexão e a escrita de Martín-Barbero, e que pôde, por meio dela, atribuir sentido a própria caminhada.

O tempo e as circunstâncias, definitivamente não foram aliados na minha desencontrada relação com Jesús Martín-Barbero. A primeira vez que ouvi seu nome foi, não tenho dúvida, no curso de jornalismo da Universidade Federal Fluminense, lá pelos idos de 2007, 2008, quem sabe 2009. Não recordo exatamente a circunstância, mas seu nome já não me era estranho quando da primeira lembrança mais consistente que tenho: há apenas 10 anos, ao prestar o concurso para o Mestrado em Mídia e Cotidiano da mesma UFF. Seu já clássico Dos meios às mediações era uma das bibliografias indicadas para a prova escrita. Pedi, então, a um amigo estudante da UERJ que me conseguisse o livro na biblioteca da sua universidade. Foi a primeira vez que o li, naquela tradução ao português da editora UFRJ, até onde sei, ainda hoje, a única.

Não fui aprovado naquele processo. Não me encantei pelo livro, nem pelas ideias que ele propunha. Ao menos o autor já não era apenas um nome distante, havia lido seu mais emblemático trabalho e pensava saber do que se tratava.

Três anos depois estive por uns dias em Bogotá. Era 2014 e eu já morava em Quito desde 2013. Por casualidade, acontecia na cidade uma gigantesca feira de livro. Foi então que pensei: Colômbia, livro… o que mais posso buscar além de Gabriel García Marquez? Porque não Jesús Martín-Barbero? Dos poucos registros que eu guardava do autor, sabia que era colombiano. Mas terminei comprando apenas um livro do García Marquez mesmo. 

Mais um ano, início de 2015, outra vez Martín-Barbero cruzou meu caminho: vi um anúncio de que estaria em Quito para receber uma homenagem no Centro Internacional de Estudios Superiores de Comunicación para América Latina (CIESPAL). Era uma medalha de ouro, a condecoração máxima daquele organismo. A entrada era gratuita e considerei ir. Mas não fui. Simplesmente perdi a data. E acho que aquela foi sua última visita à capital equatoriana.

Em 2017 tivemos mais uma oportunidade. Martín-Barbero ministraria a conferência de abertura do Congresso da Internacional Association for Media and Communication Research (IAMCR) que aconteceu em Cartagena, na Colômbia e teve, no primeiro dia, uma homenagem aos 30 anos de publicação de Dos Meios às Mediações. Naquela ocasião eu já era um estudante de mestrado, já havia retornado às leituras de seus textos, já o identificava como uma importante e fundamental referência teórica, o que só tornava aquele encontro mais significativo. Mas também não foi daquela vez. Por problemas de saúde ele sequer compareceu e a conferência de abertura foi genialmente ministrada pelo performático Omar Rincón, numa apresentação que, a propósito, fiz questão de legendar e disponibilizar em português.

A iluminação profana

Nos últimos anos Martín-Barbero se distanciou dos encontros da vida acadêmica e não mais apareceu em eventos, apesar de ter continuado a pensar e a escrever. Eu, por outro lado, pude me aproximar ainda mais do seu pensamento: tive o prazer de ser aluno de José (Pepe) Laso, amigo antigo de Martín-Barbero e que, em suas aulas, nos fez quase uma leitura explicada da obra-prima de Jesús. Este e outros de seus textos foram fundamentais na minha dissertação. Pude também participar de uma série de eventos realizados por ocasião das três décadas de seu livro mais importante. Conheci a Omar Rincón, que preside a cátedra que leva o nome de Martín-Barbero na Ciespal e organizou alguns seminários sobre seu trabalho em Quito. Também a professora Amparo Marroquín, amiga, aluna, aprendiz e quase uma “arqueóloga” da obra do autor. 

Com estes professores acessei um outro lado de Martín-Barbero, a pessoa para além do teórico curioso, esquemático e obcecado pelos mapas explicativos dos processos culturais e comunicacionais. Com o perdão do trocadilho incidental, Laso, Rincón e a Professora Marroquín foram os e a mediadora não apenas do pensamento de Martín-Barbero, mas também de sua humanidade, muito maior, mais complexa e que o próprio autor expressou em textos menos conhecidos e encontros informais e descontraídos. 

Em um desses textos, talvez o mais pessoal, a introdução do livro Ofício de Cartógrafo, uma espécie de autobiografia intelectual, Martín-Barbero identifica-se como um sujeito desubicado (deslocado), alguém fora do lugar. Na avaliação de sua trajetória, justifica essa percepção por ser um acadêmico da Filosofia que se envereda pelas Ciências Sociais reivindicando a centralidade da comunicação e que, por isso, conseguiu incomodar filósofos, sociólogos e comunicólogos. Também por, como investigador, demonstrar interesse não pelo objeto, mas pelo processo. Além disso, enquanto cientista social, preocupou-se com o papel dos dominados, não dos dominadores no processo de dominação. E, por fim, para a comunicação, propôs questionar não os meios, as mensagens, ou os públicos, mas o que está ali, quase invisível nas “brechas” do processo: as mediações culturais.

Mas Martín-Barbero era deslocado também porque se constituiu fora de lugar em aspectos não tão metafóricos. Imigrante, cresceu na Espanha, estudou na Bélgica e na França e construiu sua vida profissional, familiar e intelectual na Colômbia. Nasceu europeu, em plena guerra civil espanhola, se fez latino-americano em meio a ditaduras e repressão. Tornou também o fazer acadêmico, esse espaço hegemônico de explicações para o mundo, um lugar para entender a si mesmo. Num momento em que a cultura de massas irrompia como a banalização do erudito e a destruição do tradicional, propôs que, na América Latina subdesenvolvida e de um proletariado minoritário e empobrecido, o popular estava também no massivo. Havia inventividade, criatividade e agência nos modos de uso que as classes populares faziam dos produtos massivos. Ao expressar publicamente estas ideias, num congresso com o tema Comunicación y poder, em Lima, no início dos anos 1980, um dos participantes questionou o porquê de sua “obsessão” pelo popular. A resposta pouco convencional e certamente inesperada foi que talvez, o que ele estivesse fazendo quando em sua pesquisa valorizava tão intensamente o popular, era render uma secreta homenagem a sua mãe1. É nesse mesmo trecho que Martín-Barbero relembra um dito atribuído a Gramsci, de que só investigamos aquilo que nos afeta, e que afetar vem de afeto.

Mas o episódio mais transformador para minha admiração é um que o próprio Martín-Barbero registrou em um texto de 2009 intitulado Los labirintos del gusto2. A primeira versão conheci pela professora Marroquín, mas existe também uma outra, contada pelo próprio, em um vídeo perdido no Youtube, com pouco mais de 70 visualizações, mas que é simplesmente uma preciosidade. Martín-Barbero, recém-chegado a Cali, foi com professores companheiros da Universidade ao cinema para ver um filme que, lhe haviam dito, estava em cartaz a seis meses, numa época em que mesmo as produções bem-sucedidas alcançavam, no máximo, quatro semanas. Era quinta-feira de tarde e a sala estava lotada, a grande maioria de homens. Passados poucos minutos do início do filme, Martín-Barbero e seus colegas não podiam conter as gargalhadas. Segundo narra, apenas como comédia era possível apreciar aquele dramalhão de roteiro pobre e estética duvidosa. O filme, contudo, era acompanhado pelo restante do público com atenção e silêncio assombrosos. Logo, alguns sujeitos da plateia se aproximaram e foram taxativos: “ou se calam, ou tiramos vocês daqui!”. Martín-Barbero conta que afundado de vergonha em sua poltrona, dedicou-se a contemplar não a tela, mas o público, que acompanhava a obra fixamente e com extrema emoção. Então, como numa espécie de “iluminação profana”, começou a se perguntar: o que tem a ver o filme que eu estou vendo com o que eles veem? Como estabelecer uma relação entre a apaixonada atenção dos outros espectadores e o nosso distanciado tédio? O que eles veem que eu não posso ou não sei ver? “Então, das duas uma: ou me dedicava a proclamar não só a alienação, mas o atraso mental irremediável daquela pobre gente, ou começava a aceitar que ali, na cidade de Cali, a umas poucas quadras de onde eu morava, habitavam indígenas de outra cultura, completamente outra (…) E se era isso, para quem e para que serviam minhas cuidadosas análises semióticas e leituras ideológicas? E então, se todo meu pomposo trabalho desalienante e “conscientizador” não serviria a essas pessoas comuns, essas que sofriam a opressão e alienação, para quem eu estava trabalhando?”3

O maior de todos os tempos

Infelizmente, à exceção da Espanha, a academia euroestadounidense não lhe deu o devido valor. Apesar de ter sido sempre lembrado e muito respeitosamente referenciado em trabalhos de investigadores importantes, como Roger Silverstone e David Morley, seu pensamento foi pouco explorado pelas universidades do norte. Os motivos são muitos, e vão do puro desconhecimento à rejeição deliberada, não poucas vezes, reduzindo suas ideias ao contexto latino-americano. Essa indiferença não me surpreende, mas devo confessar que conviver com ela “ao vivo” tem sido no mínimo frustrante. Contudo, as palavras talvez mais potentes, até por seu valor simbólico, vieram justamente de lá, proferidas pelo professor da London School of Economics and Political Science, Nick Couldry, um dos mais respeitados investigadores da Comunicação atualmente. Lamentando o pouco interesse pelo trabalho de Martín-Barbero na pesquisa de língua inglesa em comunicação, Couldry afirmou não ter dúvidas de que ele foi o maior pensador e pesquisador de todos os tempos nesse campo.

Martín-Barbero dizia de si mesmo um cartógrafo mestiço, título cunhado e atribuído pela Professora Rossana Reguillo em referência aos seus muitos mapas explicativos e diversos deslocamentos: geográficos, teóricos, epistemológicos. Fez da pragmática vida acadêmica sua paixão, porque a utilizava para aproximar-se do outro, para olhar para dentro. “a única maneira hoje de fazer com que as pessoas sintam que tem algum valor o que você diz, é a convicção, a paixão. A paixão é contagiosa, não se deve pedir desculpas pela paixão”, disse, em 2009 numa entrevista para a Revista Pesquisa, da Fapesp. Foi um entusiasta da esperança, das “formas populares da esperança”, “porque pesquisar para me tornar mais triste, mais pessimista, não serve para ninguém. Temos que pesquisar não só o que permite denunciar, mas o que permite transformar, mesmo que seja numa medida muito pequena”.

Senti sua partida como a de alguém muito próximo. Martín-Barbero é mais que um autor que admiro, é um sujeito com quem me identifico em muitas camadas, de diferentes maneiras.  Um pensador cujas ideias e reflexões sintonizam com uma série de inquietações e questões que emergem de minha própria trajetória de vida. Deixo, portanto, registrado nesse texto, minha homenagem e meu profundo agradecimento a esse grandiosíssimo mestre. E encerro com as palavras do Ismar Costa Filho, Professor de Jornalismo, da Universidade Federal do Ceará, outro dos muitos admiradores de Martín-Barbero, que disse melhor do que eu poderia, aquilo que sua vida significou:

Infelizmente, perdemos um dos mais brilhantes pensadores da comunicação e da cultura. Fica a lacuna de um pensamento que sempre nos deslocou de nossas zonas de conforto cognitivo, dos meios para as mediações, dos objetos para os caminhos, dos textos para os contextos… Agora, da vida para história.

Descanse em paz, genial mestre!

[1] Martín-Barbero, J. (2004). Ofício de cartógrafo. Edições Loyola.

[2] Martín-Barbero, J. (2009). Los laberintos del gusto. DeSignis, (14), 0165-177.

[3] Ibid. pp. 165 e 166.

*Doutorando em Ciências da Comunicação pela Universidade de Coimbra (Portugal), mestre em Comunicação com Menção em Estudos de Recepção Midiática pela Universidade Andina Simón Bolívar, sede Equador. Graduado em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (Brasil) com especialização em Marketing Empresarial pela mesma universidade. Integra o núcleo Yllanay de pesquisa da comunicação, associado à Rede AMLAT (Rede Temática de Cooperação Científica, Comunicação, Cidadania, Educação e Integração para a América Latina).

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