Por favor, não me convide para o apocalipse: uma tréplica

* Rodolfo Rorato Londero

** Imagem em destaque: Chris Skinner

“Doutor, acho que alguém está misturando algum produto 

na minha comida para me deixar paranoico”

(Eu estou vivo e vocês estão mortos:

 a vida de Philip K. Dick, de Emmanuel Carrère)

Este não é o melhor dos tempos para convidar alguém para o apocalipse. E não porque ele parece bater em nossas portas, como alguns pensam. Entender o que está acontecendo como apocalipse é um equívoco perigoso, enraizado em mitologias, justamente quando o fundamentalismo religioso e o conspiracionismo sustentam (mais uma vez) políticas genocidas. E o maior dos perigos não é tanto flertar com o fim do mundo, mas acreditar na promessa de um mundo novo renascendo das cinzas do antigo. Porque o mito do apocalipse não é apenas um mito sobre o fim, mas principalmente um mito sobre o recomeço.

Em texto publicado nesta Ouro Canibal, Felipe Melhado critica o uso pejorativo que eu faço dessa palavra, “apocalipse”. E reproduzindo um estilo retórico bastante desgastado, mas ainda efetivo na arena acadêmica – a virada desconstrucionista –, ele mostra como meu ponto de vista é limitado por não perceber a potência dessa palavra. Quando o truque funciona bem, o resultado é esse que vemos em seu texto: cobrança por posicionamento crítico e comprometimento com a causa da liberdade dos afetos e da “resistência afetiva”. É engraçado que eu seja cobrado por isso, mesmo depois de encarar temas pesados como suicídio, depressão, sofrimento psíquico, solidão, entre outros, em diversos artigos e orientações (nem entrarei no mérito de uma possível leitura equivocada de Umberto Eco; deixarei o julgamento para meus alunos de teorias da comunicação).

Acontece que, em nenhuma de minhas investigações sobre esses temas, eu conduzi a crítica almejando os nobres objetivos elencados por Melhado. E não o fiz porque não sou apocalíptico. Já não sou idealista (ou ingênuo) para acreditar que a crítica é capaz de destruir o velho mundo e recriar o novo. Entendo a crítica como um conhecimento emancipador, e a emancipação neste mundo dificilmente nos leva a salões e festas, êxtases e nirvanas. Emancipar-se hoje é reconhecer uma responsabilidade dolorosa, que Zizek chamou acertadamente de “coragem da desesperança”:

A verdadeira coragem não é imaginar uma alternativa, mas aceitar as consequências do fato de que não há alternativa claramente discernível: o sonho de uma alternativa é um sinal de covardia teórica, funcionado como um fetiche que nos impede de considerar até o fim o beco sem saída do nosso dilema. Em resumo, a verdadeira coragem é admitir que a luz no fim do túnel é provavelmente o farol de um trem vindo de encontro a nós (ZIZEK, 2019, p. 10).

Os apocalípticos querem acreditar que realmente consideram “o beco sem saída do nosso dilema”, mas, na verdade, eles continuam sonhando com alternativas: neste caso, o próprio fim é a alternativa. Por isso é “um sinal de covardia teórica”, pois, ainda que nos falem sobre as consequências dos algoritmos, sobre a instrumentalização dos  afetos, esses dilemas são apenas pretextos para continuarem sonhando com liberdade e resistência (portanto, sem jamais enfrentar os próprios dilemas). Em suma, o mito do apocalipse impede de enxergar a catástrofe, a ruína, a derrota.

Se o pensamento catastrófico (e não apocalíptico) que acompanha esta tréplica possa surpreender Melhado, por acreditar que fiz uma crítica branda aos algoritmos, então é porque ele não leu cuidadosamente o texto. Esse pensamento já estava lá, inclusive próximo das ideias de Melhado, porém mais radical. Pois se Melhado nos fala da instrumentalização dos afetos, eu digo que essa vontade de verdade, essa razão que está “pouco se lixando para os detalhes das teorias dos afetos”, funda uma nova ontologia: todos os afetos disciplinados são agora dados positivos da realidade. Entretanto, nós, pesquisadores, não podemos pouco nos lixar, e muito menos buscar dados duvidosos que confirmem essa realidade absurda, pois a “lucratividade”, assim como likes e visualizações, são os dados dessa nova ontologia. Se fizermos isso, caímos em um debate de fé, onde os princípios dogmáticos confirmam a existência de Deus, deuses e demais criaturas e milagres mitológicos. A piada da epígrafe, do ilustre escritor de ficção científica (e paranoico) Philip K. Dick, mostra esse double bind: podemos reconhecer uma realidade paranoica a partir de evidências paranoicas? Do mesmo modo, podemos reconhecer uma realidade absurda1 a partir de dados absurdos? Não podemos, mas nem por isso essa realidade deixa de existir.

No mais, não há porque continuar esta tréplica, pois ela própria é a prova do argumento original: em algum momento, aquelas palavras afetaram alguém. E esse afeto não é resultado de algum cálculo poderoso, mas de uma experiência. Contudo, devemos admitir, por mais doloroso que seja: já não percebemos as coisas assim. Nós perdemos.

[1] Não por acaso, Melhado evitou o único debate que eu e ele, pesquisadores, poderíamos conduzir sem apelar para dados duvidosos: a “teoria afetiva sartreana”. Sem remeter à antropologia de Le Breton, uma antropologia do corpo influenciada pela fenomenologia francesa, é preciso esclarecer que a citação de Sartre (2007, p. 27) não se dirige ao debate menor da “localização” das emoções (interior ou exterior): “não poderia vir de fora” se refere ao método da redução fenomenológica. Ou seja, antes de julgar, analisar, explicar as emoções a partir de conceitos e crenças prévias, devemos descrever os fenômenos a partir da experiência. Por meio desse método, a fenomenologia ainda é uma reflexão crítica valiosa contra qualquer ciência ou abordagem positivista; afinal, ela surge da crise do positivismo (HUSSERL, 2012).

Referências

CARRÈRE, Emmanuel. Eu estou vivo e vocês estão mortos: a vida de Philip K. Dick. São Paulo: Aleph, 2016.

HUSSERL, Edmund. A crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental: uma introdução à filosofia fenomenológica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.

LONDERO, Rodolfo Rorato. Fenomenologia (e ontologia) dos algoritmos. 2021. Disponível em: <https://revistaourocanibal.com/2021/05/18/fenomenologia-e-ontologia-dos-algoritmos/&gt;. Acesso em: 9 jun. 2021.

MELHADO, Felipe. Convite para o apocalipse: um chamado para a reinvenção dos afetos. 2021. Disponível em: <https://revistaourocanibal.com/2021/06/08/convite-para-o-apocalipse-um-chamado-para-a-reinvencao-dos-afetos/&gt;. Acesso em: 9 jun. 2021.

SARTRE, Jean-Paul. Esboço para uma teoria das emoções. Porto Alegre: L&PM, 2007.

ZIZEK, Slavoj. A coragem da desesperança: crônicas de um ano em que agimos perigosamente. Rio de Janeiro: Zahar, 2019.

___

* Doutor em Estudos Literários pela Universidade Federal de Santa Maria. Professor do Departamento de Comunicação e Membro Permanente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Estadual de Londrina.

Texto recebido em 09/06/2021

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s