Convite para o apocalipse: um chamado para a reinvenção dos afetos

*Felipe Melhado

**Obra em destaque: Sunrise by the ocean, de Vladimir Kush

“Um paranoico é alguém que entendeu um pouco do que está acontecendo”
– William S. Burroughs


É preciso ter cuidado ao taxar alguma ideia ou algum autor de “apocalíptico”. E isto não é só porque o apocalipse, como dizem, está se tornando cada vez mais imaginável. Mas principalmente porque esse termo pejorativo desfavorece a novidade do pensamento, interrompendo uma interlocução possível entre perspectivas dessemelhantes. 

Geralmente, e sobretudo no campo das Ciências da Comunicação, quando dizemos que certa teoria é “apocalíptica”, estamos querendo dizer que ela é delirante, exagerada, e às vezes quase que patologicamente paranoide. “Apocalíptico” é um diagnóstico que descarta automaticamente o objeto diagnosticado, assim como o diagnóstico do louco – Foucault nos mostrou – desautoriza todo discurso produzido pela loucura. Um “deslumbre apocalíptico” é portanto um diagnóstico grave para se colar em um autor, já que aponta o dedo para um deslize fatal: uma alucinação paranoica que embotou a verdade, e que por isso o endereça ao desonroso salão (ou seria ao hospício?) daqueles que não devem ser levados demasiadamente a sério.  

Nas Ciências da Comunicação, a pecha de “apocalíptico” tornou-se um lugar comum, e é provavelmente um abuso conceitual daquilo que Umberto Eco caracterizou em seu clássico Apocalípticos e Integrados (Eco, 1993).  Rotula-se de “apocalíptico” todos que adotam um tom de alarme mais estridente, de denúncia mais contundente, e que tiram consequências graves das tendências mais recentes das novas tecnologias da comunicação. Se você já foi chamado de apocalíptico, provavelmente é porque já se aventurou em algum pensamento arriscado, experimentando interpretações críticas sobre algum tema de contornos muitos moventes. Talvez por isso aqueles que fazem pesquisas empíricas, e que não enxergam além dos dados, costumem rotular alguns ensaístas e teóricos da mídia como demasiado catastrofistas. O que está em vias de acontecer – as tendências contemporâneas em estado de germe, os abalos ainda não mensuráveis – dificilmente podem ser captados por cientistas empíricos. Isto é trabalho para os delirantes “apocalípticos”. 

Certamente não é do ponto de vista de um pesquisador empírico que fala Rodolfo Rorato Londero em seu texto publicado nesta Ouro Canibal (Londero, 2021) – se fosse, dificilmente ele recorreria à teoria dos afetos de Jean-Paul Sartre. Por outro lado, os autores resenhados por ele (Souza, Avelino & Silveira, 2018), além de terem sido convidados para a inglória festa dos apocalípticos, foram chamados de “ingênuos” e tiveram seu pensamento comparado à ficção científica de Isaac Asimov. Em outros contextos, ingenuidade e inteligência especulativa poderiam até ser aplicadas como elogios. Mas não foi o caso. 

A crítica de Londero tem a ver principalmente com uma ferramenta de detecção emocional patenteada pela Samsung e descrita pelos autores em questão. Esse software da Samsung foi projetado para captar os afetos experimentados pelos usuários de seus aparelhos. Londero parece ter razão quando aponta para a falibilidade dessas ferramentas. Ao basear um processo de classificação emocional nos dados de atividade do usuário, elas cometem inúmeros erros conceituais. Embutida nessas ferramentas está uma concepção sobre a emoção que é altamente questionável, de matriz behaviorista, e que é participante do que ele chamou de “psicologia positivista”. 

No entanto, embora essas ferramentas executem diversos erros operacionais e estejam baseadas em ideias tacanhas sobre o afeto, isso não significa que elas não tenham consequências sobre a subjetividade e a “emocionalidade” dos usuários das redes. Podemos discordar da psicologia comportamental – mas se, por exemplo, frequentarmos um analista do comportamento, ainda assim seremos alterados pela aplicação prática de suas teorias. Um exemplo mais drástico: hoje sabemos que a teoria de Cesare Lombroso apresenta erros conceituais grosseiros – mas sua aplicação, seu uso pelos poderes, não deixou de ter consequências terríveis para aqueles que foram sujeitados a ela. 

Estamos em uma situação parecida. As noções que informam as ferramentas digitais de detecção afetiva são adaptações grosseiras, pragmáticas, de teorias psicológicas que por si mesmas já são altamente problemáticas do ponto de vista conceitual (para não dizer ético). Ainda assim, nossos afetos estão sendo submetidos e produzidos com base nessa vulgaridade teórica. Pelo menos, essa é a conclusão a que chegaram alguns estudiosos do tema. Ao pesquisar uma das ferramentas de detecção emocional mais populares nos dias de hoje, a Análise de Sentimentos (AS), Marc Andrejevic percebeu, por exemplo, que sua finalidade “está além do objetivo de representar ou estabelecer modelos acerca de uma população. A meta não é descrever, mas provocar afetos e efeitos – estimular o boca a boca, promover engajamento e, em alguns casos, impedi-lo” (Andrejevic, 2012, p. 12).

Em outras palavras: as ferramentas de detecção emocional utilizadas pelas plataformas não estão interessadas em desvendar a verdade dos afetos, tampouco em criar representações conceitualmente precisas a respeito deles. Seu objetivo é instrumentalizar os afetos, vigiá-los e produzi-los através de um método e de uma taxonomia que sejam úteis aos interesses das próprias plataformas. Nesse sentido, os criadores de algoritmos estão pouco se lixando para os detalhes das teorias dos afetos, mas se interessam sim pela lucratividade de sua aplicação cibernética. 

Eu poderia discordar da teoria afetiva sartreana que Londero trouxe à cena em seu texto, afinal, toda uma recente antropologia das emoções certamente se opõe à ideia de que o afeto é algo essencialmente interior ao sujeito (LeBreton, 2019). Mas não se trata disso. O que é mais urgente debatermos é o que as plataformas têm feito de nossa vida afetiva, como elas produzem nossas emoções e com que objetivos, e não propriamente a validade conceitual das teorias que as informam.  

Não me parece também que “criticar como os algoritmos são eficazes em modular nossos comportamentos e subjetividades é a prova que os capitalistas precisam para continuar usando intensivamente essas ferramentas” (Londero, 2021). Os capitalistas não precisam das críticas feitas pelas humanidades digitais para provar a eficácia de suas ferramentas. Eles têm um indicativo muito mais importante: a lucratividade dos algoritmos, o seu retorno financeiro exponencial. Acho interessante levarmos em conta que, eventualmente, as críticas de pesquisadores podem ser utilizadas pelos programadores para sofisticar suas ferramentas, e assim aumentar seu poder sobre nós. Precisamos nos organizar contra essa possibilidade. Mas abandonar a crítica em razão dessa possibilidade não parece ser a saída mais tática para este momento. 

Se abandonarmos o pensamento crítico, se deixarmos de contra-interpretar o funcionamento dos algoritmos, dificilmente poderemos criar formas de resistir à modulação, ao controle e a produção emocional que as plataformas de comunicação contemporâneas aplicam sobre nós com relativo sucesso. O que me parece realmente urgente para o presente é responder a perguntas como: quais práticas individuais e coletivas devemos iniciar para garantir um campo de liberdade para nossos afetos? Será que as próprias falhas conceituais e operacionais dos algoritmos de detecção emocional não são brechas para a resistência afetiva?

Enquanto o Facebook vende dados sobre nossas emoções aos seus parceiros comerciais (Levin, 2017), enquanto essa mesma plataforma inventa algoritmos para tentar impedir que sintamos tédio (Machado, 2019, p. 97) – justamente o tédio, essa emoção maldita, antessala da mudança –, me parece urgente mobilizar nosso pensamento e prática para a criação de uma vida afetiva mais livre e mais condizente com os problemas do presente. Por isso, este texto é também um convite – sem qualquer ironia, ele é um chamado para que Londero e os leitores interessados convoquem suas inteligências e sensibilidades contra a instrumentalização dos nossos afetos pelos poderes financeiros e políticos. O salão de festas dos apocalípticos é grande, parece que lá a companhia é boa, e o melhor: é permitido delirar! Quem sabe festejando juntos possamos adiar – mais este – fim de mundo.

 
Referências

Andrejevic, M. (2011). The work that affective economics does. Em: Cultural Studies, 25:4-5, 604-20. https://doi.org/1010.1080/09502386.2011.600551

Eco, U. (1993) Apocalípticos e Integrados. São Paulo: Perspectiva.

LeBreton, D. (2019). Antropologia das Emoções. Petrópolis: Vozes. 

Levin, S. (2017). Facebook Told Advertisers It Can Identify Teens Feeling ‘Insecure’ and ‘Worthless’ Guardian, 1 de maio de 2017. Retirado de: www.theguardian.com/technology/2017/may/01/facebook-advertising-data-insecure-teens

Londero, R. R. (2021) Fenomenologia (e ontologia) dos algoritmos. Em: Revista Ouro Canibal. https://revistaourocanibal.com/2021/05/18/fenomenologia-e-ontologia-dos-algoritmos/

Machado, D. (2019). Modulações Algorítmicas: uma análise das tecnologias de orientação de comportamento a partir das patentes do Facebook. Dissertação de mestrado. São Bernardo do Campo: Ufabc.

Souza, J.; Avelino, R.; Silveira, S. A. (2018). A sociedade de controle: manipulação e modulação nas redes digitais. São Paulo: Hedra.



*Felipe Melhado é doutorando em Ciências da Comunicação na Universidade do Minho e pesquisador do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS). É mestre em História Social pela Universidade Estadual de Londrina, com licenciatura em Comunicação Social pela mesma instituição. Atualmente, com financiamento da FCT, dedica-se a investigar a atuação de dispositivos tecnoafetivos e a imaginar possibilidades antropofágicas de contra-afecção. / E-mail: melhado.felipe@gmail.com 

Texto recebido em: 20/05/2021

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