O PAÍS DA NECESSIDADE

*Willian Casagrande Fusaro

A mercadoria é, antes de tudo, um objeto externo, uma coisa que, por meio de suas propriedades, satisfaz necessidades humanas de um tipo qualquer. A natureza dessas necessidades – se, por exemplo, elas provêm do estômago ou da imaginação – não altera em nada a questão

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I. Boitempo, 2013 

A primeira coisa que o indígena aprende é a colocar-se no seu lugar, não passar dos seus limites. Por isso, os seus sonhos são sonhos musculares, de ação, agressivos. Sonho que salto, que nado, que corro, que brinco. Sonho que estalo de riso, atravesso o rio de um salto, me perseguem muitas viaturas e nunca me alcançam. Durante a colonização, o colonizado não deixa de libertar-se entre as nove da noite e as seis da manhã.

FANON, Frantz. Os condenados da Terra. Disponível aqui. 1961

O pesquisador/estudante brasileiro que não usa os meios de pirataria para baixar livros está fadado a simplesmente não estudar. No país dos impostos em alta sobre livros – sob desculpa de que “só a elite lê”, então ela pode pagar por isso – é possível encontrar obras importantes para uma pesquisa (que no caso é a minha, também muito importante, ao menos pra mim) não reeditadas há anos pela bagatela de… R$ 780,00.

Se você não está acostumado com esse problema, que é uma constante na vida de um pesquisador, é isso mesmo que você leu: setecentos e oitenta reais por um punhado de mil folhas, numa brochura bonita, fora de circulação há 11 anos. Exatamente por isso, fora de cogitação para a maioria de nós, que estuda, trabalha e vive como se consegue viver.

Seria absurdo – como de fato é – contanto que isso não fosse um pormenor no cotidiano da grande maioria dos trabalhadores, a quem os pesquisadores pequeno-burgueses, em sua imensa maioria, veem como uma turba com necessidades rasteiras e confusas. Por que, afinal, essas pessoas morrem tanto, se aglomeram, não nos respeitam? 

Talvez seja necessário pensar nas necessidades, com o perdão do trocadilho. O livro em questão é quase oito vezes o valor de um botijão de gás. Dez vezes o quilo de uma carne de boa qualidade. Vinte vezes o preço de uma carne bovina razoável. Um aluguel numa casa de dois ou três quartos na periferia de Londrina. Metade do salário mínimo comercial no Paraná (R$ 1500,00). Quase duas vezes uma cesta básica (R$ 506,00, segundo dados de janeiro deste ano).

Diferente do que pode parecer, este pequeno texto, além de despretensioso (como todo “intelectual”, tenho tempo livre, que custa caro, para elucubrar despretensiosamente) está bem longe de estabelecer qualquer tipo de prioridades entre as necessidades do estômago e da imaginação. Porém, algumas vêm antes. É humanamente impossível – e quero acreditar que vivemos a “pré-história da humanidade”, a partir da qual toda discussão dessa natureza será, tomara, irrelevante – dizer que o saneamento básico é mais importante do que um filme, como já conseguiram, inclusive em um filme (o que é genial), nos fazer discutir.

Qualquer um sabe – e não é necessário muita imaginação – que um filme, por melhor que ele seja, não me dá forças para acordar todas as manhãs e pegar um ônibus lotado. Porém, eu não vivo sem imaginar. Tenho uma existência embrutecida, mesquinha e faminta sem imaginação. Os povos que imaginaram fizeram as melhores e também as piores descobertas até hoje. Os que não imaginaram, à reboque dos colonizadores pensantes, foram simplesmente um sintoma da modernização. Passando a imaginar, libertaram-se do “reboque da História”.

A elite brasileira e seus representantes – que não leem, mas também não têm problemas no estômago – carecem de uma boa imaginação. Para desespero geral, já está provado pela história (que não ensina nada, a não ser que ela própria não se repete) que nós, que não lemos e em grande maioria tampouco comemos, podemos imaginar ainda mais do que a caricatura que fazem de nós: um amontoado de corpos vilipendiados, infectados, com necessidades incumpríveis e basicamente mortos por dentro, ainda que muitos, diariamente, morram de vez por dentro e por fora.

No país das necessidades do corpo e do espírito (que são, no fundo, apenas corpo), temos tantas que elas ainda não podem ser nomeadas. Algumas mal conhecemos, mas sabemos que existem. Não conseguimos dormir sem sonhar com elas. Cabe a nós, juntos, nomeá-las, dar corpo a elas, sejam as do estômago ou da imaginação, da mente ou da boca.

*Willian Casagrande Fusaro é jornalista, músico e mestre em Comunicação pela UEL.

** Imagem de autoria desconhecida.

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