A REVOLUÇÃO RUSSA, BOLSHEVICHKI NEGRAS E REPRODUÇÃO SOCIAL

*Texto original: Bill V. Mullen

**Tradução: Lara Rossetto

Em seu livro de 1981 sobre a Revolução de Fevereiro, Tsuyhoshi Hasegawa inclui a história de uma jovem andando em direção às tropas cossacas que foram confrontar as manifestantes no Dia Internacional da Mulher. As mulheres tinham se unido para protestar contra a guerra em curso, contra os preços elevados de alimentos e a necessidade, segundo um slogan da época, de “pão para os trabalhadores!”. “De sob sua capa”, Hasegawa escreve sobre a garota, “ela tirou várias rosas vermelhas e as ofereceu ao oficial. Sua aceitação inesperada foi vista como um símbolo de paz e revolução”1. Para Jane McDermid e Anna Hillyar, autoras de Midwives of the Revolution: Female Bolsheviks and Women Workers in 1917 [em português: “Parteiras da Revolução: Mulheres Bolcheviques e Trabalhadoras em 1917”], o episódio mostra não apenas a centralidade das bolshevichki – mulheres bolcheviques – para o começo da Revolução, mas também seu programa de fundir demandas “econômicas” e “políticas”. Assim como Wendy Goldman escreveu sobre a Revolução, as bolshevichki argumentavam que “o capitalismo criou uma nova contradição, sentida mais dolorosamente pelas mulheres, entre as demandas do trabalho e as necessidades da família”2. A opressão das mulheres, elas diziam, estava localizada no trabalho realizado na chamada esfera “privada” do lar, um fardo pesado principalmente para as proletárias. Por sua vez, mulheres como Alexandra Kollontai repetidamente incentivaram Lenin e outros líderes bolcheviques a lutar pela socialização do trabalho doméstico e pelo “desaparecimento gradual da família” enquanto uma instituição de opressão burguesa3

Hoje em dia, nós entendemos a luta por “pão e rosas” na Revolução Russa como uma tentativa de preencher uma lacuna no empreendimento marxista de compreender a opressão da mulher sob o capitalismo. Um momento decisivo nessa compreensão foi o livro de Lise Vogel de 1983 intitulado Marxism and the Oppression of Women [em português: “Marxismo e a Opressão das Mulheres”]. O livro afirmava que a parte na qual Marx e Engels deixaram a desejar em suas análises da família foi na percepção da relação entre os chamados vida e trabalho “domésticos” e o local de trabalho, o “ponto de produção”. Especificamente, Vogel argumentava que sob o capitalismo as mulheres exerciam um papel chave na reprodução da “força de trabalho” necessária para a reprodução do sistema capitalista como um todo. Vogel escreve: 

A luta de classe sobre as condições de produção representa a dinâmica central do desenvolvimento social em sociedades caracterizadas pela exploração. Nessas sociedades, a mais valia é apropriada por uma classe dominante, e uma condição essencial para a produção é a… renovação de uma classe subordinada de produtores diretos submetidos ao processo de trabalho. Normalmente, a substituição geracional fornece a maior parte dos novos trabalhadores necessários para reabastecer essa classe, e desse modo, a capacidade da mulher de gerar filhos exerce um papel decisivo na sociedade de classes… Em classes proprietárias… a opressão da mulher deriva do seu papel na manutenção e na herança da propriedade… Em classes subordinadas… a opressão feminina… deriva do envolvimento das mulheres no processo que renova os produtores diretos, assim como de seu envolvimento na produção4.

De que modo, então, a teoria da reprodução social pode funcionar como base para analisar formas históricas específicas de prática política? Aqui eu uso como um estudo de caso o impacto da Revolução Russa nos radicais negros do século XX – especialmente as mulheres radicais negras – todos atraídos pelo seu exemplo político. Como a imagem abaixo sugere – o pôster de Paul Adams de 1971 para a União Nacional dos Profissionais da Saúde (ver imagem 1) –, os esforços para integrar e unir o local de trabalho e as lutas domésticas sob o capitalismo fazem parte da trajetória política negra radical durante o século XX. A seguir, eu analiso como comunistas negras nos EUA usaram a Revolução Russa como referência intelectual e política na sua luta por direitos trabalhistas das mulheres negras, por direitos das trabalhadoras domésticas e por direitos dentro da esfera privada do lar. De fato, sua atenção às trabalhadoras domésticas assalariadas nos EUA produziu insights previstos sobre a “contradição” entre “as demandas do trabalho e as necessidades da família”, pontuada por Goldman, que tanto havia atormentado as bolshevichki. Porque seu trabalho doméstico para brancos também era trabalho assalariado, as mulheres negras radicais produziram uma análise avançada sobre o papel fundamental do trabalho doméstico na reprodução do sistema capitalista: seus salários literalmente produziam e reproduziam as classes trabalhadoras negras, que eram suas próprias famílias. Na segunda parte deste texto, eu irei analisar outra parte dessa linha histórica e observar como ativistas membros ou associados ao Partido dos Panteras Negras igualmente utilizavam a Rússia de 1917 como modelo para a criação de programas de serviço social como creches e programas de café da manhã gratuitos. À reivindicação bolchevique por “terra, paz e pão”, por exemplo, os panteras adicionaram comida, roupa e educação – demandas complementares de assistência social. A teoria da reprodução social nos ajuda a entender sua compreensão necessária do modo desproporcional no qual a classe trabalhadora negra era reproduzida socialmente, do suporte estatal ausente e/ou pesadamente racializado e “generizado” para essa reprodução, e de como os radicais negros procuravam desafiar politicamente essa desigualdade capitalista, trabalhando na esfera de reprodução social e chamando atenção para suas funções vitais. 

Finalmente, mesmo que a teoria da reprodução social não fosse uma referência teórica desenvolvida disponível para as gerações mais antigas de radicais negros, discutidas aqui, seus projetos políticos concretos relacionados à reprodução social podem ser uma base para teóricos da reprodução social hoje. 

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Imagem 1: Paul Adams, pôster para a União Nacional dos Profissionais da Saúde, 1971.

Os fundamentos para uma análise integrada da opressão das mulheres sob o capitalismo foram cuidadosamente desenvolvidos por mulheres bolcheviques entre as revoluções de 1905 e 1917. Relembremos a formação dos clubes socialistas das mulheres em São Petersburgo em 1905, o primeiro Congresso Russo de Mulheres promovido pelos bolcheviques em 1908, a celebração inaugural do Dia Internacional da Mulher em 1913, assim como o lançamento, nesse mesmo ano, de Rabotnitsa, o jornal bolchevique para mulheres trabalhadoras5. Esses eventos refletiam a centralidade material do papel da mulher no proletariado russo – em 1914 metade dos trabalhadores fabris eram mulheres6 – e as intervenções políticas de líderes socialistas como Alexandra Kollontai. Kollontai se juntou aos bolcheviques em 1904 e foi eleita delegada da Soviete de Petrogrado em 1917. Na primavera de 1917, ela ajudou a coordenar um sindicato de lavadeiras de toda a cidade em São Petersburgo. Ao fazer isso, Kollontai buscava unir os objetivos políticos mais amplos do bolchevismo com a posição social das mulheres: “Às escolas, aos hospitais, à habitação, à maternidade e benefícios para crianças? Nada disso está acontecendo. O dinheiro das pessoas está sendo usado para financiar conflitos sangrentos.7” O sucesso da agitação bolshevichki dentro do partido é evidente no conhecido rol de conquistas da Revolução: creches diurnas, licença maternidade remunerada, divórcios à pedido, intervalos no trabalho para amamentar dos filhos e programas de alimentação para crianças. Uma conquista singular da Revolução, o Zhenotdel, o departamento de mulheres do partido, foi estabelecido pelo comitê central em 1919 para expandir a definição de “trabalhador” e incluir mulheres e camponeses. 

O ingresso de mulheres negras interessadas no Partido Comunista dos Estados Unidos depois da Revolução era devido, em parte, à inspiração do partido [CPUSA] nos bolcheviques.  Em 1929, o partido estabeleceu o Departamento de Mulheres do Comitê Central (o Zhenotdel americano) e iniciou a publicação do jornal The Working Woman, o Rabonitsa americano. Sua segunda edição contava com um artigo sobre os aluguéis exorbitantes em Harlem, destacando seus efeitos sobre as mulheres negras na esfera doméstica: “Essa pressão”, escreveu a repórter Grace Lamb, “afeta pesadamente as mães e esposas negras que devem, por necessidade, suplementar os parcos salários de seus esposos com seus ganhos a duras penas. Essas mulheres da classe trabalhadora têm suportado as dificuldades de viver em habitações insalubres.8” Em sua terceira edição havia uma carta de uma trabalhadora doméstica reclamando que uma carga-horária de 14 horas de trabalho por dia que, somada ao salário de seu marido, mal dava para alimentar seus 6 filhos.  Em resposta a sua indagação “Eu imagino o que pode ser feito para melhorar nossa condição”, em nota do editor foi respondida, “Organização é o único jeito de lutar efetivamente por melhores condições de trabalho, menos horas, e maiores salários. A exploração dos trabalhadores, negros e brancos, só pode ser abolida substituindo o governo capitalista atual por um governo dos trabalhadores como o da União Soviética.9

Esta primeira análise da esquerda comunista sobre a vida das mulheres negras trabalhadoras sob o capitalismo coincidiria com as condições das trabalhadoras domésticas negras. Aqui nós nos baseamos em significativas contribuições teóricas para o movimento comunista dos EUA, como as de Louise Thompson Patterson, Esther Cooper Jackson, e Claudia Jones. O texto de Patterson em abril de 1936 para o Working Woman, intitulado “Toward a Brighter Dawn” [em português: “Para um Amanhecer mais Iluminado”], pode ser considerado, em retrospecto, um texto pioneiro na análise do trabalho doméstico negro como um ponto nodal dentro do capitalismo. O texto de Patterson foi escrito com um relatório produzido a partir de uma “subseção das mulheres” especial do Comitê das Mulheres do Congresso Nacional Negro, uma frente unida formada pelo CPUSA em 1925, e outro eco da organização bolchevique. Patterson foi a primeira a usar a frase “exploração tripla” para descrever as condições das mulheres negras sob o capitalismo como “trabalhadoras, mulheres e negras”10. O que Patterson quis dizer com “exploração tripla” pode ser melhor compreendido a partir da ênfase da teoria da reprodução social nas esferas integradas dos ambientes de trabalho e doméstico. Patterson elaborou desse modo: 

A crise econômica testou mais severamente a mulher negra. Representando a maior proporção de trabalhadores desempregados no país, negros são discriminados por desassistência e falta de trabalho. Negros são obrigados a pagar um aluguel caro pelas piores residências em qualquer cidade. Os bairros negros segregados são invariavelmente deficientes em creches, parquinhos, postos de saúde, escolas. E em meio a condições tão adversas, as mulheres negras precisam manter e cuidar de suas famílias.11

Voltando para um insight de Lise Vogel, “[e]m classes proprietárias… a opressão da mulher deriva do seu papel na manutenção e herança da propriedade… Em classes subordinadas… a opressão feminina… deriva do envolvimento da mulher no processo que renova os produtores diretos, assim como de seu envolvimento na produção.” Para Patterson, as mulheres negras são membros de uma “classe subordinada” explorada no trabalho e oprimida em casa e, ainda assim, responsável pela “renovação” da força de trabalho dos produtores diretos sob o capitalismo: “mulheres negras precisam manter e cuidar de suas famílias.” Aqui o caminho traçado também está em conformidade com a análise de Vogel. O foco do Congresso Nacional Negro nas condições de trabalho das trabalhadoras domésticas negras, incluso no relatório de Patterson, demonstra o quanto essa condição possuía uma capacidade dialética de revelar a opressão simultânea de “classes proprietárias” (i.e. mulheres brancas burguesas) que ajudavam na “manutenção e herança da propriedade”, e mulheres negras que trabalhavam simultaneamente em dois âmbitos que reproduzem o sistema capitalista: o âmbito do trabalho doméstico, e o ambiente opressivo de uma esfera de reprodução social negra e desenraizada com poucas escolas, parquinhos, creches e lares. 

O ensaio seminal de Esther Cooper Jackson sobre o trabalho doméstico das mulheres negras se baseia diretamente na análise de Patterson. O estudo de Jackson sobre o trabalho doméstico foi sua tese de mestrado na Oberlin College em 1940. Assim como Patterson, seu foco nas mulheres da classe trabalhadora remetia diretamente à Revolução Russa. Jackson cita em seu estudo a Ordem Soviética das Trabalhadoras Domésticas de 1926 que regulava as condições de emprego para trabalhadoras domésticas e foi parte de sua inclusão nos sindicatos depois da Revolução12. O título do estudo de Jackson, “The Negro Woman Domestic Worker in Relation to Trade Unionism” [em português: “A Trabalhadora Doméstica Negra em relação ao Sindicalismo”] indica ainda mais a influência da Revolução. A análise de Jackson sobre as trabalhadoras domésticas negras apresenta diversos avanços na perspectiva da reprodução social. Em primeiro lugar, situa o trabalho doméstico negro da década de 1930, seu recorte temporal, dentro do fenômeno de proletarização do trabalho negro em geral depois da Grande Migração. Ciente de que as trabalhadoras domésticas negras eram excluídas dos programas sociais do New Deal como o auxílio desemprego, Jackson buscava inscrever as trabalhadoras domésticas assalariadas na categoria “trabalhador”13. Em segundo lugar, o texto insere o trabalho doméstico assalariado em uma trajetória histórica do capitalismo, variando de acordo com a oferta e procura, com a mecanização, e com a condição dos empregadores. Em terceiro lugar, a análise situa os empregadores brancos e os trabalhadores negros em uma compreensão unitária da exploração capitalista. A observação de Jackson de que os dispositivos para a economia de tempo no trabalho nas classes médias afetou a taxa de emprego doméstico negro, por exemplo, oferece uma perspectiva integrada na opressão funcional das mulheres sob o capitalismo através das linhas raciais e de classe.

O mais importante é que o apelo do texto à “sindicalização” das trabalhadoras domésticas tentava estabelecer solidariedade entre trabalhadores não apenas contra a propensão mercadológica de segregá-los por meio da competição, mas contra o mercado em si. Cooper situa o trabalho doméstico em uma política econômica instável da opressão da mulher na modernidade capitalista. Ela observa que, entre 1900 e 1914, a proporção de todas as mulheres negras empregadas no trabalho doméstico diminuiu por conta de uma: 

tendência à obtenção de casas menores para que as donas de casa pudessem realizar os afazeres domésticos sozinhas ou com apenas uma empregada doméstica. As padarias, lojas de roupa, lavanderias, lojas de laticínios, etc., começaram a fazer o trabalho que era tradicionalmente a função da trabalhadora doméstica.14

A crescente privatização do trabalho doméstico era, para Cooper, um indicador da constante expansão da integração da reprodução social nas relações sociais capitalistas. Nessa expansão, trabalhadoras negras eram ao mesmo tempo “canárias em uma mina de carvão15” e o que Marx chamou, ao falar da escravidão, “pivô” da indústria burguesa16.

De fato, foi a articulação de Claudia Jones das mulheres negras como “pivôs” que constituiu a sua principal contribuição para a análise da vida da classe trabalhadora negra, também fiel às raízes bolshevichki. Nós podemos abordar três textos de Jones publicados em 1949 e 1950, respectivamente, que cumprem esse papel. No seu ensaio de 1949 “An End to the Neglect of the Problems of Negro Women” [em português: “Um Fim à Negligência dos Problemas das Mulheres Negras”] publicado em Political Affairs, o jornal teórico principal do CPUSA, Jones argumenta que para o partido “é necessário ter uma abordagem especial para mulheres negras trabalhadoras que, muito mais do que as outras trabalhadoras, são o ganha-pão principal de suas famílias”17. Jones insiste que a proletarização das mulheres negras centraliza singularmente o fardo duplo de opressão e exploração nas esferas do local de trabalho e do ambiente doméstico, e os perigos da exploração sob o capitalismo do trabalho assalariado ou, eufemisticamente, do “ganha-pão”. Desse modo, em um texto complementar publicado no mesmo ano, “We Seek Full Equality for Women” [em português: “Nós Buscamos Igualdade Completa para Mulheres”], Jones argumentava que o “status de opressão tripla das mulheres negras” era um “termômetro18 do status de todas as mulheres (grifos meus) e que a luta pela completa igualdade econômica, política e social para as mulheres negras é de interesse vital das trabalhadoras brancas, de interesse vital na luta para conseguir a igualdade de todas as mulheres.19” Aqui Jones apresenta a análise da reprodução social como hermenêutica: a exploração das mulheres negras no local de trabalho pelo salário e a opressão doméstica como sendo reprodutoras da classe trabalhadora é uma base explicativa para diagnosticar e desafiar o capitalismo em sua totalidade. Sua posição deliberadamente ecoa uma das influências de Jones – Clara Zetkin – que argumentou em 1890 num discurso na fundação do Congresso da Segunda Internacional, “não é o trabalho das mulheres em si que, em competição com o trabalho dos homens, baixa os salários, mas a exploração do trabalho da mulher pelos capitalistas que se apropriam dele20”. Tanto Jones quanto Zetkin argumentam que a exploração e a apropriação do trabalho assalariado das mulheres pelo capital é um “termômetro” da exploração da classe trabalhadora como um todo. Como colocado por Jones, “a desigualdade da mulher provém da exploração da classe trabalhadora pela classe capitalista21”.

A influência de Zetkin e do feminismo bolshevichki é ainda mais clara no ensaio de Jones em 1950, “International Women’s Day and the Struggle for Peace” [em português: “Dia Internacional da Mulher e a Luta pela Paz”]. O texto foi escrito originalmente como um discurso para o Dia Internacional da Mulher, em 8 de março de 1950. Como já é bem conhecido, o Dia da Mulher foi celebrado pela primeira vez por mulheres americanas em 1908, mas só foi chamado de Dia “Internacional” da Mulher na Conferência Socialista Internacional em 1910, por iniciativa de Zetkin. Em seu texto, Jones “bolcheviza” as origens do DIM (IWD), apontando que Lenin estava presente no encontro da Conferência Socialista Internacional, e tinha argumentado em 1907 que a “questão da mulher fosse especificamente mencionada no programa socialista por conta dos problemas, necessidades e demandas especiais das mulheres trabalhadoras”. Jones ambiciosamente buscou utilizar o 8 de março para construir uma nova “frente unida” contra a guerra dos EUA e o imperialismo. O discurso celebra mais de 50 demonstrações nos EUA por “paz, liberdade e direitos da mulher”, um eco complementar do apelo bolchevique por “paz, terra e pão”. Assim como no 8 de março de 1917, mulheres, e agora mulheres negras, se tornaram a vanguarda dessa nova frente unida. Harriet Tuberman e Sojourner Truth são lembradas como “mulheres proletárias militantes dos trabalhadores têxteis”. “Mulheres trabalhadoras”, escreve Jones, “que são as mais oprimidas de todos os oprimidos, nunca estiveram indiferentes e não poderiam ficar indiferentes na grande marcha de emancipação.22” Elas “podem e devem se tornar… um exército regular da classe trabalhadora lutando lado a lado com o grande exército do proletariado23”. Aqui também há um eco de outras demandas contemporâneas pela autonomia das lutas da classe trabalhadora negra24. O mais importante para nosso propósito, a caracterização de Jones da mulher negra como “a mais oprimida dos oprimidos”, levou a uma generalizada experiência das mulheres negras de racismo e de machismo como sendo endêmica ao capitalismo enquanto sistema. Como Sue Ferguson escreveu: 

Enquanto Jones (assim como seus companheiros do Partido Comunista) via a luta por melhores salários e condições de vida como a chave para a emancipação das mulheres (negras), ela transcendeu ao argumentar que o trabalho não é apenas uma questão “econômica”. Como a classe trabalhadora americana é completamente racializada, não pode haver melhora para todos até que o racismo seja também confrontado e destruído. Essa é uma inovação radical e importante. Ela situa o trabalho assalariado das mulheres como intrinsecamente ligado não apenas com o machismo, mas também com o racismo, levantando o espectro de – se não completamente analisando – uma lógica sistêmica mais ampla25.

Uma retomada completa da ligação das comunistas negras com o pensamento bolshevichki vai muito além do âmbito deste artigo. O que pode ser dito aqui é que sua amplitude expande nosso universo de entendimento da linhagem política da análise da reprodução social do século XX. Para completar essa genealogia provisória, eu retornarei rapidamente às políticas de Black Power da década de 1960, particularmente às políticas do Partido dos Panteras Negras. Uma renascença saudável de estudos sobre as mulheres negras no PPN por acadêmicas como Bettye Collier-Thomas (Sisters in the Struggle), Robyn C. Spencer (The Revolution Has Come) e Donna Murch (Living for the City), combinados com histórias em primeira pessoa de panteras que sobreviveram, como Kathleen Cleaver e Ericka Huggings (objeto de uma futura biografia escrita por Mark Philips), começou a redesenhar as fronteiras de gênero do movimento da época26. Kiran Garcha, em um ensaio importante publicado em 2015 na Viewpoint, “Bringing the Vanguard Back Home: Revisiting the Black Panthers’ Sites of Class Struggle” [ em português: “Trazendo a Vanguarda de Volta pra Casa: Revisitando os Locais de Luta de Classe dos Panteras Negras”], segue uma linha de pensamento que garante um desenvolvimento posterior pelo exame da “unidade lar e família” como locais políticos dentro da prática do partido. Como Garcha expõe, “as políticas anticoloniais dos panteras eram frequentemente transmitidas para novas gerações não em escritórios do partido nem em centros comunitários, mas entre quatro paredes, nos espaços íntimos de salas de estar, cozinhas, e quintais27”.

Como meu próprio ponto de partida, vou destacar o décimo ponto do programa de dez pontos original dos panteras. É a demanda mais abrangente, uma verdadeira lista de palavras-chave da reprodução social: “Nós queremos terra, pão, habitação, educação, vestimenta, justiça e paz.” Nós podemos reconhecer novamente os ecos imediatos de 1917 – “terra, pão e paz” complementados pelas demandas adicionais da esfera “doméstica”: educação, vestimenta, habitação. Como estudos históricos recentes apontaram, os panteras estavam oferecendo uma versão dos programas “Great Society” de Lyndon Johnson28 realizados por meio de uma política de autonomia anticapitalista29. Alguns exemplos são: o bem conhecido Programa de Café da Manhã Gratuito dos panteras, o estabelecimento da Escola Comunitária de Oakland como uma alternativa para o que era visto como escolas racistas dominadas por brancos, e o estabelecimento das Clínicas Médicas Gratuitas do Povo. Como Alondra Nelson bem observou, o programa médico dos panteras foi um “movimento social da saúde” ou “política por outros meios.30

Eu argumentaria que os insights da teoria da reprodução social elucidam melhor as “políticas” e o “movimento social” mais abrangente que ela descreve. A maior parte dos integrantes do partido envolvidos no programa de saúde dos panteras eram mulheres. Além de testar para anemia falciforme, os serviços incluíam exames ginecológicos, Papanicolau, e testes de DSTs. Em 1971, mulheres no partido insistiram na expansão do controle da natalidade visto que ter que criar muitos filhos limitaria a participação política tanto de homens quanto de mulheres. Em 1972, num documento de posição do PPN, Audrea Jones recomendou que homens e mulheres frequentassem aulas sobre controle da natalidade. Também em 1972, o Comitê Central do PPN recomendou estabelecer um programa de “Paternidade Programada” na organização; em 1974, a liderança do partido instituiu uma diretriz que os membros deveriam usar métodos contraceptivos31. A ênfase no que pode ser chamado de justiça reprodutiva e sexual para mulheres negras é um indicador político a que Dorothy Roberts se refere como o “assassinato” dos corpos negros sob o capitalismo32, assim como a centralidade da capacidade reprodutiva compulsória – e a responsabilidade – de mulheres da classe trabalhadora para regenerar o sistema. Justiça reprodutiva e de reprodução social, em outras palavras, era para os panteras um problema específico da classe trabalhadora, parte da análise mais abrangente e “anti-pobreza” do partido, e um indício do fardo duplo das mulheres negras da classe trabalhadora como reprodutoras da força de trabalho sob um sistema capitalista com poucas válvulas de escape. 

Uma ilustração final das políticas de reprodução social anticapitalistas dos panteras fica clara na icônica ilustração de 1972 de Emory Douglas, “Vote na Sobrevivência.” “Vote for survival’’ (Imagem 2) A imagem mostra uma mulher negra do “lumpen” como a corporificação da consciência de classe no apoio aos panteras. O cartaz na sua mão, “Vote na Sobrevivência”, aponta não apenas para a virada eleitoral do partido naquele ano, mas para a “Conferência de Sobrevivência da Comunidade Negra” dos panteras em 1972, que incluiu, literalmente, um “frango em cada sacola” e um formulário para o registro eleitoral para todos os que atenderam o evento. Em seu bolso, a mulher também carrega um par de botas infantis com uma etiqueta que diz “David Hilliard, Programa de Calçados Gratuitos”. A imagem sugere que o caminho para a consciência revolucionária passa pelo ambiente familiar, e que as demandas por “pão e calçados” estruturam as demandas do “econômico” para o “político”. Nesse retrato de um novo tipo de revolucionário, os panteras propagam uma crítica abrangente ao sistema – mesmo que reformista – anticapitalista, bem como um novo símbolo de vanguarda. 

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Imagem 2: Emory Douglas, “Vote na Sobrevivência”, 1972.

Susan Ferguson e David McNally falam da capacidade da teoria da reprodução social de iluminar movimentos sociais que demandam “o fim da degradação desigual da vida humana, acesso comunitário total aos meios de subsistência, controle sobre nossos próprios corpos humanos.33” A narrativa que eu esquematizei, desde São Petesburgo de 1905, até Oakland de 1972, a “longa” era da reprodução social, como ela foi, também nos ajuda a entender como e por que o próprio capitalismo tem identificado a feminilidade negra como uma ameaça às tentativas do estado capitalista de administrar as relações de classe. Apesar dos esforços das bolshevichki, dos comunistas negros, e dos Panteras Negras, a tendência geral do capital de impor fraudulentamente os custos das reformas sociais para os pobres e trabalhadores produziu como inimigo mais frequente a figura da mulher negra. A “rainha do bem-estar social34” de Ronald Reagan é, na perspectiva da reprodução social, a bolshevichki no portão35. Os ataques recorrentes do neoliberalismo e do reaganismo, no que foi uma vez conhecido como o “estado de bem-estar social”, repetidamente produziu uma linguagem tristemente familiar de dominação de classe. “Não é… coincidência”, escrevem Salar Mohandesi e Emma Teitelman:

que o ataque ao bem-estar social utilizava uma linguagem racista e machista. Mães negras foram demonizadas como desonestas, irresponsáveis, e promíscuas; pessoas negras e latinas foram vilanizadas como criminosas e abusadoras indolentes. A esperança era convencer outros trabalhadores, como os homens brancos pobres e desempregados, a culparem a “rainha do bem-estar social negra” ou o “racismo reverso” por suas próprias condições, ao invés dos capitalistas. Desse modo, a batalha pela reprodução social cumpriu um papel inigualável em colocar os diversos setores da classe trabalhadora uns contra os outros36.

Nós conhecemos essa história tão bem que não ousamos repeti-la. O que deveríamos repetir neste centésimo aniversário de 1917 é o desafio político inscrito nos moldes explicativos pelos quais conhecemos o passado e o presente. Nossas batalhas contemporâneas contra o trumpismo, contra a “alt-right”, contra a misoginia e o racismo virais de nosso tempo, contra o fascismo à espreita, teriam mais sucesso com mais e não menos bolcheviquismo, se quisermos curar o que nos aflige. Não tem nada de ultrapassado no apelo de quase 70 anos de Claudia Jones: “Pelo domínio bem sucedido da nossa teoria sobre a questão da mulher, pela organização de massa das mulheres americanas, e focando a atenção principalmente nos problemas e nas necessidades da classe das mulheres trabalhadoras”, nós podemos renovar as demandas de reprodução social por “terra, pão e paz”, e forjar o que Louise Patterson chamou, há quase um século atrás, de “um amanhecer mais iluminado”. 

A autora gostaria de agradecer Tithi Bhattacharya, Susan Ferguson e Charlie Post por seus comentários num primeiro rascunho deste ensaio.

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*Texto original: Bill V. Mullen – disponível em: https://viewpointmag.com/2017/12/14/russian-revolution-black-bolshevichki-social-reproduction/?fbclid=IwAR1nXkQFDBThVW43NBJYutNHmnOe-6E8ui1hzLo5SBeWBC6XcU9TP16x63U

**Lara Rosseto é graduanda em Ciências Sociais na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e pesquisadora do Grupo de Estudos de Política da América Latina (GEPAL).

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[1] HASEGAWA, Tsuyoshi. The February Revolution: Petrograd, 1917. Seattle: University of Washington Press, 1980, p. 154.

[2] GOLDMAN, Wendy. Women, the State, and Revolution: Soviet Family Policy and Social Life, 1917-1936.  Cambridge: Cambridge University Press, 1993,p. 2.

[3] Ibid., p.12.

[4] VOGEL, Lise. Marxism and the Oppression of Women: Toward a Unitary Theory. Londres: Pluto Press, 1983, p. 129.

[5] Ver: GOLDMAN, Wendy. Women at the Gates: Gender and Industry in Stalin’s Russia. Cambridge: Cambridge University Press, 2002, p. 1-37 e MCDERMID Jane; HILLYAR, Anna.  Midwives of the Revolution: Female Bolsheviks and Women Workers in 1917. Londres: University College London, 1999, p. 147.

[6] GOLDMAN, Women at the Gates, p. 34.

[7] CLEMENTS, Barbara E.  Bolshevik Women. Cambridge: Cambridge University Press, 1997, p. 127.

[8] LAMB, Grace. “High Rents, Vile Houses in Negro’s Lot in Harlem,” Working Woman, Vol. 1, No. 2 (maio, 1929): p. 10.

[9] “Negro Domestic Worker Slaves 14 Hours a Day,” Working Woman, Vol. 1, No. 3, (dez. 1929).

[10] PATTERSON, Louise T. “Toward a Brighter Dawn (1936),” Viewpoint, 31 out. 2015.

[11]  Ibid.

[12]  JACKSON, Esther C. “The Negro Domestic Worker in Relation to Trade Union Production (1940),” Viewpoint, 31 out. 2015.

[13] MOHANDESI, Salar; TEITELMAN, Emma. “Without Reserves”. In: Social Reproduction Theory: Remapping Class, Recentering Oppression, ed. Tithi Bhattacharya. Londres: Pluto Press, 2017, p. 56.

[14] JACKSON, Cooper. “The Negro Domestic Worker in Relation to Trade Union Production.”

[15] [N.T.] No século XIX, era comum entre trabalhadores das minas de carvão a prática de monitorar o nível de gases tóxicos utilizando canários. Caso houvesse gases como metano ou monóxido de carbono em excesso, o canário (mais sensível aos gases perigosos) morreria antes que os mineiros sofressem ameaça às suas vidas. O canário servia, portanto, como alerta para o perigo. Enquanto estivesse cantando, os mineiros estariam seguros, e seu silêncio sinalizava a necessidade de fuga imediata.

[16]  MARX, Karl. “The Poverty of Philosophy,” 1847. 

[17] JONES, Claudia. “An End to the Neglect of Problems of Negro Women,” In: MULLEN, Bill V. UnAmerican: W.E.B. Du Bois and the Century of World Revolution. Philadelphia: Temple University Press, 2015, p. 154.

[18] [N.T.] A palavra “barometer”, utilizada no texto original em inglês com sentido de diagnosticar, verificar ou apontar tendências; de “medir” o funcionamento de um fenômeno social, costuma ser expressa em português, com idêntico significado, pela palavra “termômetro”, que consta desta tradução.

[19] Ibid., 166.

[20] GOLDMAN, Women, The State, Revolution, p.41.

[21] JONES, Claudia. “We Seek Full Equality for Women (1949),” Viewpoint, 21 fev. 2015.

[22] JONES, Claudia. “International Women’s Day and the Struggle for Peace,” In: MULLEN, p. 168.

[23] Ibid.

[24] Aqui tenho em mente o argumento de C.L.R. James que a classe trabalhadora negra tem “uma vitalidade e validade próprias” que “tem uma grande contribuição a fazer para o desenvolvimento do proletariado nos Estados Unidos”. JAMES,  C.L.R. “The Revolutionary Answer to the Negro Problem in US,” Fourth International, Vol.9 No.8 (Dez. 1948): p. 242-251.

[25] FERGUSON, Susan. “Feminist Theory: Labor,” em breve no Bloomsbury Handbook of Twenty-first Century Feminist Theory, ed. Robin Truth Goodman (New York: Routledge, 2017).

[26] Ver: COLLIER-THOMAS, Bettye.  Sisters in the Struggle: African American Women in the Civil Rights-Black Power Movement. New York: NYU Press, 2001; SPENCER, Robyn C. The Revolution Has Come: Black Power, Gender, and the Black Panther Party in Oakland. Durham: Duke University Press, 2016; MURCH, Donna. Living for the City: Migration, Education, and the Rise of the Black Panther Party in Oakland, California. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2010.

[27] Ver: GARCHA, Kiran. “Bringing the Vanguard Home: Revisiting the Black Panther Party Sites of Class Struggle,” Viewpoint, 31 out. 2015.

[28] [N.T.] “Great Society” foi uma série de programas de assistência social nos Estados Unidos lançados pelo presidente do partido democrata Lyndon B. Johnson em 1964-1965. Segundo Keeanga-Yamahtta Taylor, “Enquanto o New Deal excluiu, na maior parte, Afro-Americanos” os programas de Johnson “eram em grande parte uma resposta às diferentes fases do movimento negro”. “A administração de Lyndon Johnson criou novas leis para tentar controlar os crescentes protestos e a ‘desobediência civil’. O jeito mais óbvio de fazer isso era expandindo o estado de bem-estar social americano. […] [O]s programas “Great Society” de Johnson incluíam formação para o trabalho, habitação, vale-refeição, e outras formas de assistência” (TAYLOR, 2016, tradução nossa). Ver: TAYLOR, Keeanga-Yamahtta. From Black Lives Matter to Black Liberation. Chicago: Haymarket Books, 2016.

[29] MOHANDESI; TEITELMAN. “Without Reserves,” p. 59.

[30] NELSON, Alondra. Body and Soul: The Black Panther Party and the Fight Against Medical Discrmination. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2013, p. 1. Ver também: SELF, Robert.  American Babylon: Race and the Struggle for Postwar Oakland. Princeton: Princeton University Press, 2003.

[31] LEBLANC-ERNEST, Angela D. ‘The Most Qualified Person to Handle the Job’: Black Panther Party Women, 1966-1982,” In: The Black Panther Party Reconsidered, ed. Charles Jones. Baltimore: Black Classic Press, 1998, 319-320.

[32] Ver: ROBERTS, Dorothy. Killing the Black Body: Race, Reproduction, and the Meaning of Liberty. New York: Vintage, 1998.

[33] FERGUSON; MCNALLY. “Social Reproduction Beyond Intersectionality,” Viewpoint.

[34] [N.T.]Termo utilizado ironicamente pelo republicano Ronald Reagan em sua campanha eleitoral, tentando passar a ideia de que o estado de bem-estar social estaria falido. Para comprovar seu argumento, o ex-presidente dos EUA falava da “rainha do bem-estar social”, que, segundo ele, havia “atingido o recorde” de benefícios acumulados desonestamente, utilizando “80 nomes, 30 endereços, e 15 números de telefone [diferentes]” e atingindo uma renda líquida de “$150.000 por ano” (TAYLOR, 2016, tradução nossa). Segundo Keeanga Yamahtta Taylor, apostar na imagem de pessoas negras preguiçosas vivendo às custas dos impostos pagos pelos trabalhadores (“de bem”) era uma “isca racista comum” para cativar o “eleitorado conservador branco”. Ver: TAYLOR, Keeanga-Yamahtta. From Black Lives Matter to Black Liberation. Chicago: Haymarket Books, 2016.

[35] [N.T.] O movimento negro foi a luta que “mais se aproximou de um movimento socialista nos Estados Unidos” (HAIDER, 2019, p.41). Após a Segunda Guerra, além da disputa direta entre os Estados Unidos e a União Soviética, as revoluções de libertação nacional eclodiram nos países de terceiro mundo, com destaque às revoluções cubana e argelina, que “estavam comprometidas não apenas a uma forma de socialismo em casa, mas também a exportar a insurgência anticolonial” e “ofereceram apoio prático e ideológico para uma geração de ativistas negros dos Estados Unidos”. (MALLOY, 2017, p.22, tradução nossa). Enquanto o novo governo revolucionário cubano “ativamente cultivou ligações com a luta de libertação negra dos Estados Unidos durante a primeira metade de 1960”, desde “a visita dramática de Castro ao Harlem em setembro de 1960 […] até a hospedagem de diversos dissidentes afro-americanos e exilados”; a revolução argelina “acabou produzindo talvez a declaração mais importante sobre raça, identidade e descolonização do século vinte” com a teorização de Frantz Fanon e sua obra mais influente, “Os Condenados da Terra”, que “ficou conhecid[a] como a ‘bíblia negra’ entre os militantes afro-americanos”. (Ibid., p.23-24, tradução nossa). Assim como Cuba e Argélia, a China foi uma grande influência revolucionária que se opunha diretamente aos EUA: “Mao não era simplesmente o autor do “Pequeno Livro Vermelho”, mas também o líder de uma nação não-branca grande, poderosa e (após 1964) armada nuclearmente e disposta a arriscar um confronto com os Estados Unidos e seus aliados em apoio ao anticolonialismo e antirracismo. Isso incluía não apenas ajuda ao terceiro mundo mas contato direto com os afro-americanos. Em resposta ao pedido de Robert F. Williams, em agosto de 1963, Mao fez uma declaração relacionando o ‘sistema maligno do colonialismo e imperialismo’ com o advento do tráfico de escravos e oferecendo a solidariedade chinesa com a luta de libertação negra nos Estados Unidos” (Ibid., p.24-25, tradução nossa). Portanto, ao declarar, em 1969, que o Partido dos Panteras Negras era “a maior ameaça à segurança interna do país” (Ibid., p.2, tradução nossa), o diretor do FBI J. Edgar Hoover não estava exagerando: de fato, o movimento negro foi historicamente a “ameaça bolchevique” no seio do Império Norte-Americano, abrindo o “portão” dos Estados Unidos ao “espectro do comunismo”. Ver: HAIDER, Asad. Armadilha da Identidade: Raça e Classe nos Dias de Hoje. São Paulo: Veneta, 2019; e MALLOY, Sean L. Out of Oakland: Black Panther Party internationalism during the Cold War. Ithaca: Cornell University Press, 2017. 

[36]  MOHANDESI; TEITELMAN. Social Reproduction, p. 64.

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