Tentativa de suicídio social

Autor anônimo*

Para você, leitor, não importa saber como eu cheguei à situação que descreverei adiante (por outro lado, para minha terapeuta, seria bastante útil). Você precisa apenas saber que vivo com depressão há uns três anos ou mais (prefiro dizer desse modo, ao invés de “sofro de depressão”). Apesar da medicação, que vem funcionando muito bem, a depressão não quer me abandonar, talvez porque eu ainda precise aprender algumas coisas. Uma delas é o que eu chamo de suicídio social: o ato de deixar de ser alguém para tornar-se um ninguém. Largar carreira, família, amigos, para se tornar um morador de rua, por exemplo. Penso que essa ideação suicida não é uma característica individual, mas sim um fenômeno social. O antropólogo David Le Breton mostra como a vontade de abdicar de si é uma resposta possível aos imperativos das sociedades neoliberais. E a psicanalista Maria Rita Kehl mostra como a depressão pode esconder uma vontade de viver outro tempo que não o tempo sôfrego capitalista.

É claro que, como toda ideação suicida, ela vem acompanhada de idealizações: no caso do suicídio social, uma vida mais simples (como se a vida de um morador de rua fosse mais simples). Estou ciente disso, mas esse “eu ciente”, que você poderia chamar de Razão, é uma grande ficção. Afinal, eu estou aqui, atravessado por todas essas angústias. Se eu me esquivo dessas angústias, apelando para uma Razão salvadora, o que sobraria para aprender? O que sobraria para contar? Então vamos lá, vamos descrever uma tentativa de suicídio social.


Estou longe de casa, sem carteira, sem celular, sem carro. Preciso atravessar a cidade de ponta a ponta para chegar em casa. É o que pretendo fazer, mas sem pedir ajuda (não sei por quê não posso pedir ajuda). O ambiente é hostil: carros e caminhões em alta velocidade, cheiro de fumaça, sol queimando forte, a máscara sufocando. Um passo de cada vez. Depois de alguns quilômetros, um viaduto intransponível. Preciso cortar em direção ao centro. Um passo de cada vez. E finalmente o cansaço que me faz desabar. Escorado na parede da esquina, sentado na calçada. Nenhum passo, nenhum destino, nenhuma casa. Apenas uma leve brisa que me parecia a coisa mais necessária do mundo (enquanto meu estômago ainda não ardia de fome). O mundo movimentando, eu parado. Eu poderia continuar assim para sempre.


Então surge uma primeira pessoa atravessando a calçada. Essa primeira pessoa me olha com cara feia. Depois passam algumas outras pessoas, mas nenhuma olha para mim. E depois surge uma pessoa estranha. Uma mulher com o rosto bastante marcado, uma pet de dois litros amassada em uma das mãos e um corotinho vazio na outra. Uma pessoa que, se eu estivesse em outra situação, dificilmente prestaria atenção. Estabelecemos contato visual duas vezes. Ela começa a se aproximar, tenho medo.


– Moço, por que seu rosto está assim? Queimado? Alguém bateu em você?

Não consigo dizer nada. Penso apenas em como estaria meu rosto.

– Moço, alguém bateu em você?

– Estava caminhando desde a saída de… Estou indo para casa.

– A pé? Tem moto-táxi aqui do lado.

– Estou sem dinheiro.

– Pega o moto-táxi e paga quando chegar em casa.

Olho para ela como se não entendesse. Ela deve pensar que não tenho dinheiro em casa.

– Ou pega o moto-táxi e dá o calote. Ele já te deixou em casa mesmo.


Ela começar a rir. Eu começo a rir. Ficamos rindo por um algum tempo, e ela repetindo: “dá o calote!”, “dá o calote!”. Vendo que eu continuo sentado na calçada, ela resolver ir embora.


Eu poderia agora dizer um monte de palavras animadoras sobre essa experiência. Inclusive, devo confessar, pensei em várias delas. Poderia descrever essa experiência como um encontro com o outro que me transformou radicalmente. Mas logo quando eu consegui levantar e seguir minha jornada, percebi que havia um abismo entre nós. Sabe-se lá onde ela estaria, mas eu estaria em casa, descansando em uma cama confortável enquanto digito estas palavras em um tablet.

Em algum momento ela fez a travessia, de alguém para ninguém. Eu quase cheguei lá, mas recuei. E assim o abismo continua… até quando não restar mais alguém.

*O autor pediu para não ser identificado.

Imagem: Sosek

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