Eleições no Equador: o estado das coisas

Bruno Santos Dias*

Na madrugada do dia 21 de fevereiro último, o Consejo Nacional Electoral (CNE) órgão máximo responsável pelas eleições no Equador, anunciou, finalmente, os resultados do primeiro turno no pleito presidencial realizado duas semanas antes. A duração da apuração não foi nada anormal, é um prazo razoável para resultados oficiais naquele modelo. A diferença é que em processos anteriores, a contagem rápida, feita com uma amostragem de atas das juntas receptoras de voto (algo como as seções eleitorais no Brasil), com uma margem de erro menor que 2%, é suficiente para prever e anunciar com antecipação o resultado. Nas eleições de 2021, não. O desenrolar da apuração foi desenhando uma reta final apertada para a decisão do segundo colocado, que disputaria o segundo turno, e tanto as movimentações ocorridas até a divulgação oficial dos dados, quanto o que veio nos dias seguintes, ajudam a compreender melhor o que significou o primeiro dia de votações, que forças estão em jogo e como se organizam as peças do atual tabuleiro político equatoriano. Como não sou muito afeito a previsões, este texto não pretende fazer análises e projeções, pelo contrário, procuro apresentar os personagens e histórias que compõem uma narrativa possível sobre o que ocorreu e tem ocorrido nestes últimos dias no Equador.

Contudo, antes, vale trazer um pequeno panorama do que acontece também no cotidiano político-social do país. E aqui, há muito pouco de bom para contar. O Equador segue mergulhado na pandemia, como o quinto colocado na América do Sul em número de casos por milhão de habitantes e as escassas doses de vacinas compradas pelo governo mal distribuídas e sendo utilizadas, inclusive, como “agrado” político. Desde o final de janeiro, se multiplicam nas redes denúncias relativas à péssima gestão das irrisórias 8 mil doses do imunizante recebidas. Muitas destas vacinas foram administradas em pessoas que nem de longe – e sob nenhum critério – seriam prioridade, como a família do ministro da saúde, reitores de universidades (que, pelo menos, recusaram a “oferta”) e até o dono de uma rádio simpática ao governo de Lenin Moreno. Depois de resistir a quase um mês de escândalos e denúncias, o ministro da saúde finalmente renunciou (e se mandou do país no dia seguinte). Mas não foi o único. A menos de três meses de deixar o poder, Moreno, que ostenta o título de presidente mais reprovado da América Latina, vê o que resta do seu governo desmoronar, com um sucessivo abandono de barco de figuras importantes (apenas na segunda quinzena de fevereiro Zevallos, ministro da saúde e Sebastián Roldán, secretário geral da presidência pediram renúncia). Além disso, a candidata de seu partido à presidência, Ximena Peña – que, a propósito, esforçou-se por descolar da imagem do presidente – alcançou nada mais do que 1,54% dos votos válidos, ocupando um vergonhoso nono lugar nas eleições. Nos últimos dias o atual governo enfrentou ainda uma série de rebeliões nos presídios equatorianos, que deixaram mortas mais de 80 pessoas privadas de liberdade e aumentou ainda mais a sensação de completa ausência de poder. O último que apague a luz.

Não que as expectativas fossem outras, mas tudo isso não deixa de ser significativo e, claro, influenciar a disputa eleitoral. A retórica da mudança e o desejo por algo diferente dominou, com facilidade, as discussões em todos os níveis e os resultados, de uma maneira ou de outra, refletiram isso. Antes de irmos a eles, vale dizer que os adjetivos com os quais qualifico cada candidato dizem respeito ao seu desempenho na história que conto e como a conto. Não são, nem pretendem ser, um juízo da figura pública e menos ainda da pessoa de cada um deles.

Xavier Hervas, o azarão

Antes do anúncio oficial dos candidatos para estas eleições, ocorrido em agosto do ano passado, quase não se sabia quem era Xavier Hervas. Guaiaquilenho, empresário do setor agrícola (ou melhor, investidor, com participação societária em sete diferentes empresas desse setor) Hervas nunca havia se candidatado a cargo público antes e sequer teve em sua vida filiação partidária. O seu anúncio como candidato pelo partido Izquierda Democrática (ID), feito no último minuto, causou certa surpresa na opinião pública, tanto pelo inusitado quanto pelo imprevisível. 

O ID é um partido antigo, surgiu na década de 1970, vinculado aos princípios de uma social democracia de forte inspiração europeia e tornando-se logo membro da Internacional Socialista. Ao longo dos anos 1980 e 1990 foi protagonista da política equatoriana, chegando a eleger seu líder, Rodrigo Borja Cevallos, como presidente (1988-1992). Durante os anos 2000, no entanto, foi perdendo gradativamente seu caráter ideológico e sua relevância política para se tornar quase um partido de aluguel, até finalmente desaparecer em 2013. Ressurgiu em 2016, com a injeção de figuras novas, como os ex-integrantes do movimento Ruptura de los 25, de María Paula Romo1, para, então, lançar, em aliança com o partido Pachakutik, do movimento indígena, a Paco Moncayo, ex-alcaide de Quito, como candidato nas presidenciais de 2017. Nesta ocasião, Moncayo ficou em quarto lugar, alcançou pouco menos de 7% dos votos e, para o parlamento, nada mais do que quatro asambleístas.

O ID chegou a 2021 num cenário muito semelhante ao de 2017, ou talvez pior, sem a força renovadora dos jovens do Ruptura de los 25, há muito já nem tão jovens e, agora, marcados pelo fracassado protagonismo no governo de Lenin Moreno. Mas Hervas não se intimidou com nada disso. Investiu pesado nas redes, especialmente no TikTok, focou nos jovens e, com uma campanha descontraída, fez seu nome minimamente conhecido. Durante os debates, procurou resgatar o espírito social democrata, defendendo em suas propostas desde um sistema de saúde público e universal, ao fim da exploração mineira e a descriminalização do aborto. As confusas pesquisas já haviam identificado algum crescimento na intenção de voto em Hervas, mas o resultado final surpreendeu: o candidato alcançou a maior votação histórica da ID em números absolutos, com quase 1,5 milhão de votos, que representaram 15,89% do total válido e levando, a reboque, 18 representantes na Asamblea Nacional. O melhor resultado da ID desde as eleições de 1998.

Andrés Arauz, o coadjuvante

Há muitas maneiras de contar a jornada de Andrés Arauz, do movimento UNES, o escolhido de Rafael Correa, nessas eleições. Pode-se falar das muitas manobras jurídicas para impedir sua candidatura – e foram várias, desde a condenação de Correa, seu primeiro vice, até denúncias de que Carlos Rabascall, o substituto de Correa, tinha conexões com paraísos fiscais – pode-se falar também de uma pesada campanha de difamação, que envolveu a disseminação de uma série de notícias falsas relativas, principalmente, ao fim da dolarização no Equador. Pode-se falar, ainda, da bizarra encenação, pouco mais de uma semana da votação, que denunciava um suposto financiamento do Ejército de Liberación Nacional (ELN), última guerrilha reconhecida na Colômbia, à campanha de Arauz. O circo envolveu uma grande reportagem da colombiana Revista Semana, que investigou os dados de computadores de um suposto comandante do ELN, morto recentemente; um vídeo falso, disseminado nas redes digitais com a participação de autodeclarados integrantes mascarados da guerrilha tornando público seu apoio à campanha de Arauz; e até a visita do Procurador Geral da Colômbia, poucos dias depois do primeiro turno, para supostamente levar os arquivos aos quais a revista teve acesso à Procuradoria Geral do Equador.

Mas, talvez, o comum a todos esses olhares sobre a trajetória de Arauz nessas eleições seja a grande dificuldade dele em assumir definitivamente o protagonismo de sua candidatura. E não apenas pela sombra intimidadora, para o bem e para o mal, de Rafael Correa. Se por um lado, é inegável que Correa é o verdadeiro detentor do capital político que rendeu a Arauz a expressiva e vitoriosa votação, por outro, é ele também quem complica, seja pela história recente, seja por sua imensa dificuldade em negar os holofotes, o árduo e necessário trabalho de estabelecer alianças estratégicas não apenas eleitoralmente, mas também para um eventual governo.

Não bastasse Correa e as paixões pró e contra que mobiliza ativamente, as circunstâncias ainda presentearam Arauz com uma disputa voto a voto pelo segundo lugar que abafaram, avassaladoramente, sua vitória. No dia 7 de fevereiro, logo após serem fechadas as urnas e divulgados os resultados da pesquisa boca de urna, ficou evidente que uma vitória no primeiro turno2, possibilidade ventilada até então, era pouco provável. A atenção se voltou para quem disputaria com Arauz o segundo turno, já que as pesquisas indicavam também um empate técnico entre Guillermo Lasso e Yaku Perez, segundo e terceiro colocados respectivamente. A contagem rápida, divulgada algumas horas depois, apresentou ambos candidatos com algo próximo a 20%. A decisão seria voto a voto e Yaku, que as pesquisas já sugeriam como o único capaz de vencer Arauz no segundo turno, parecia ser o grande vencedor do dia. Segundo o resultado oficial, Arauz obteve, ao final, 32, 72% dos votos válidos.

Guillermo Lasso, o perdedor

Não há dúvidas de que na última década o grande antagonista eleitoral de Rafael Correa foi Guillermo Lasso. O banqueiro, sobre quem falamos um pouco mais no primeiro texto dessa série, disputou todas as três últimas eleições presidenciais (2013, 2017 e 2021), sempre posicionando-se como opção ao correísmo. No entanto, não é necessário muito esforço analítico para notar que o Lasso de 2013 e 2017 é muito diferente desse Lasso de 2021. Sua principal plataforma segue sendo implementar, com o perdão da redundância, o mais desmedido neoliberalismo no Equador. Contudo, se em 2013 era um desconhecido na política (apesar de haver ocupado, ainda que por um mês, o posto de superministro da economia no trágico governo de Jamil Mahuad) visto como um empresário de sucesso e em 2017 conseguiu aglutinar o sentimento anti-correísta, em 2021, seu histórico e a quase obsessão por se tornar presidente cobraram fatura. 

Depois de duas derrotas eleitorais, das muitas alianças duvidosas e de algumas declarações elogiosas ao longo do governo de Lenin Moreno, até mesmo seu passado como ministro, num dos governos mais traumáticos da história recente do Equador, ficou difícil manter na sombra. Nem todo o investimento de banqueiro com contratação de marqueteiros estrangeiros especializados em eleições, nem a dedicação quase exclusiva ao projeto presidencial durante os últimos oito anos, pelo menos, nem a aliança com o Partido Social Cristiano (PSC), nada conseguiu alavancar sua candidatura. 

Ainda que resultados de eleições, por si só, não sejam lá muito consistentes para análises, os de Lasso, por sua discrepância, acabam por dizer muito. Em 2013, auge do correísmo, sua aliança com PSC rendeu-lhe um honroso segundo lugar com 22.68% dos votos. Superar Correa naquela eleição era trabalho conscientemente impossível. Em 2017, com seu opositor desgastado e tentando fazer um sucessor, mesmo sem o apoio do PSC, que lançou candidata própria, obteve, no primeiro turno, 28.09 % dos votos e chegou muito perto de uma vitória no segundo turno, com 48.84%. As eleições seguintes eram logo ali e com todo o capital acumulado em 2017 as expectativas eram de um desempenho no mínimo similar. No entanto, Lasso se aproximou do governo de Lenin num momento chave, justo quando, com pouco menos de um ano no poder, o novo presidente, num ato de ruptura definitiva com seu antecessor, convocou um referendo e consulta popular para alterar algumas reformas constitucionais feitas por Correa, entre elas, a da reeleição indefinida. Lasso emprestou seu capital à enorme coalizão ao redor da campanha do siete veces sí (responder sim às sete perguntas da consulta), do lado oposto, apenas Correa. Lenin, Lasso e seus demais aliados venceram, mas não tão bem quanto todo o esforço conjunto pressupunha: 67.65 % dos votos. Os três anos seguintes de governo, como já muitas vezes comentado neste e nos textos anteriores, foram ladeira abaixo e não é muito absurdo supor que o investimento na consulta (não apenas, claro, mas de forma mais significativa) pode ter sido comprometedor para as intenções presidenciais de Lasso.

Já em janeiro deste ano, em plena campanha eleitoral, algumas pesquisas apontavam que Yaku Perez, o candidato do movimento indígena, crescia no retrovisor de Lasso. Em uma entrevista para o canal digital La Posta, o candidato neoliberal chegou a dizer que se ficasse de fora do segundo turno, apoiaria a Yaku, o que para muitos foi quase um reconhecimento público de que sua candidatura estava fadada ao fracasso. No dia seguinte ao primeiro turno e depois da confusa divulgação, por parte do CNE, da contagem rápida, o site que divulgava em tempo real a apuração dos votos já mostrava a Yaku, com mais da metade das urnas contadas, muito próximo a Lasso. Na noite daquele mesmo dia o candidato do movimento indígena o superou, chegou a ficar com mais de 1% em vantagem, mas, como muitas das sessões sob análise por inconsistências estavam na província de Guayas, onde Lasso teve votação superior a Yaku, a expectativa era mesmo que o banqueiro passasse ao segundo turno com uma vantagem apertadíssima. 

E foi o que aconteceu. Lasso obteve, ao final, 19,74% dos votos, apenas 0,35% (ou 32.115 votos) a mais que Yaku. Se considerarmos os números de 2017, Lasso e Cynthia Viteri, a candidata do PSC obtiveram, somados, naquela eleição, quase 45% dos votos válidos (Viteri ficou com 16,32%). Em 2021, seus partidos em aliança não chegaram à metade disso. Apesar de ter conseguido seu lugar no segundo turno, sob várias perspectivas é difícil falar em triunfo para Guillermo Lasso: das 24 províncias equatorianas, ficou em primeiro lugar apenas em duas, Pichincha (da capital Quito) e Galápagos, perdeu, inclusive, na sua Guayas natal, que ademais, é reduto do aliado PSC (Arauz ficou em primeiro por lá). Se em 2017 o partido do qual é presidente, Creando Oportunidades (CREO), obteve, em aliança com o Movimento SUMA, 34 assentos no parlamento, compondo a segunda força da casa, em 2021 esse número caiu para 12. Ao longo da apuração, quando a votação de Yaku demonstrava uma força inesperada para muitos, não foi raro ver eleitores de Lasso arrependidos de seu voto sob o argumento de que o líder indígena é quem teria condições de derrotar o correísmo no segundo turno.

Ainda durante a apuração, aparentando estar um pouco atordoado e até constrangido por sua conquista, Lasso, no CNE, se reuniu com Yaku, que denunciava uma fraude contra sua candidatura. O encontro era para negociar a recontagem de parte dos votos e ambos chegaram a um acordo, do qual Lasso pareceu arrepender-se poucos dias depois. Após essa conquista com sabor a derrota, não parecia haver muitas alternativas para o candidato. No entanto, pior que alguém que perdeu, apesar de ter vencido, é alguém que venceu, apesar de ter perdido, mas atua como se tivesse apenas perdido: Yaku.

Yaku Perez, o inconveniente

No dia 08 de fevereiro Equador amanheceu com um ar diferente. O avançar da apuração, que naquele momento já ultrapassava, no geral, os 60%, apresentava um cenário mais surpreendente que as previsões mais ousadas. Mesmo que os questionados institutos de pesquisa apontassem pelo menos um terço dos eleitores ainda indecisos e que a campanha de Lasso perdesse terreno dia a dia, demonstrando um certo cansaço e incapacidade, eram poucos os que se atreviam a afirmar qualquer coisa diferente de um segundo turno entre Arauz e o banqueiro. A expectativa, na verdade, estava concentrada em saber se o apadrinhado de Correa conseguiria liquidar a fatura em una sola vuelta

Mas, naquela segunda-feira, os resultados surpreendiam: não só Arauz esteve bem longe de uma vitória definitiva, como Xavier Hervas, o social democrata, obteve um resultado inesperado, a derrocada do neoliberal Lasso foi muito maior do que se pensava e Yaku, o líder indígena, despontava como o candidato que havia conseguido efetivamente catalisar as insatisfações reais da população, superar os antagonismos ao redor de Correa e representar aquele sentimento de mudança nutrido pelo governo Moreno de que falamos no início. 

Nos dias que seguiram, dúvidas e certezas pairavam sobre os que procuravam entender o que estava acontecendo. Entre as certezas estava a percepção de que Lasso definitivamente era o grande perdedor, caminhando a passos largos para o fim de sua carreira política; que Yaku, por sua vez, era o grande vencedor, pois a votação inesperada e uma possível ida ao segundo turno colocou-o no centro das atenções, com um capital capaz de atrair não só parte significativa do eleitorado de Hervas, como os votantes resignados de Lasso e até mesmo de Arauz. As dúvidas, no entanto, orbitavam justamente a capacidade de Yaku de lidar com isso. Afinal, era bastante evidente que esse poderoso capital político não lhe pertencia. Era, na verdade, do movimento indígena que desde bem antes de 2019 vinha se rearticulando. Yaku, ademais, carrega um desafeto pessoal e que nunca se esforçou por esconder com a figura de Correa, ao mesmo tempo que já havia dado declarações no mínimo complacentes a respeito de Lasso, o que tornava difícil que se posicionasse por fora da pugna entre correístas e anti-correístas. Por fim, o sempre presente racismo, incrustado na sociedade equatoriana, se intensificava. E não apenas entre as elites urbanas, que preferem a morte a serem governados por um indígena, mas também entre os apoiadores mais apaixonados de Correa que não perderam tempo em pôr em dúvida a identidade de Yaku.

Não foi preciso esperar muito. Depois de superar o percentual de Lasso ao longo da apuração de mais de 90% das urnas, na terça-feira, dia 9, os números começaram a mudar. Ao alcançar 95% dos votos contabilizados (sem considerar os das 10% das urnas sinalizadas com inconsistências) o percentual de Yaku começou a retroceder. Era algo previsível. Até mesmo Correa, que nunca deixou de emitir comentários em sua conta no Twitter, escreveu que, sendo o percentual maior de urnas com inconsistências na província de Guayas, onde Lasso obtinha, até então, votação três vezes superior a Yaku, o mais provável era que o banqueiro fosse para o segundo turno. 

Mas Yaku não esperou. Já no dia anterior, quando ainda estava em segundo, afirmava em entrevistas na televisão que a tendência a seu favor era irreversível e convocava seus apoiadores para exigir a transparência do processo numa vigília na porta do CNE. Se reuniu no dia seguinte com seu adversário, Guillermo Lasso, e representantes da OEA para chegar a um acordo sobre a transparência da apuração e o reconhecimento futuro dos resultados, independente de qual fosse. Na noite de quinta-feira, 11 de fevereiro, quando já era evidente que pela contagem do CNE o segundo turno seria mesmo entre Arauz e Lasso, o capital político do movimento indígena, depositado na candidatura de Yaku, e a simpatia da opinião pública que o domingo de eleições lhe havia atribuído foram postos em causa para denunciar uma fraude eleitoral. 

Os acontecimentos a partir daí podem ser vistos de duas maneiras: como um esforço de Yaku para fazer valer sua conquista, ou como o tremendo desperdício das várias potencialidades presentes no excelente desempenho eleitoral do movimento indígena. Vale ressaltar que a votação de Yaku foi histórica em muitos aspectos, além de ser a maior em números absolutos que seu partido, o Pachakutik, já teve com um candidato a presidente3, mesmo considerando aquelas em que apenas apoiou um candidato, resultou também em nada menos do que 27 assentos dos 137 da Asamblea Nacional, tornando o partido a segunda força da casa4. De muito longe, o melhor resultado eleitoral do partido do movimento indígena desde sua fundação.   

No entanto, ainda na noite daquela quinta-feira, Manuela Picq, a companheira de Yaku, que decidiu expiar sua culpa brancolonial – com o perdão do pleonasmo – protagonizando a reivindicação do movimento indígena e seu candidato (há muita vontade de poder envolvida na ingenuidade do branco, já dizia James Baldwin) assumia os microfones da vigília em frente ao CNE para dar as diretrizes: pedir recontagem de votos, enviar uma carta aos auditores internacionais, inclusive OEA, e fazer uma denúncia à controladoria e ao Ministério Público, ato que seria acompanhado por uma marcha de apoiadores até a sede da instituição. 

No dia seguinte, ainda, Yaku e Lasso se reuniram na sede do CNE para chegar a um acordo sobre a recontagem dos votos. O encontro foi transmitido ao vivo por canais de televisão e redes sociais. Yaku recordou a Lasso que em 2017 era ele quem pedia recontagem, que ambos eram vítimas de Correa, que de fora do país, com um controle remoto decidia quem ganhava e quem perdia as eleições (sim, ele disse isso). Guillermo Lasso disse, em princípio, não se opor a uma revisão da apuração e ficou acordado a recontagem de todos os votos da província de Guayas e metade dos votos de outras 16 províncias. 

Só que, como se diria no Brasil, “faltou combinar com os russos”. O acordo, além de não estar previsto no regulamento eleitoral, necessitaria do consentimento de todos os demais candidatos. Lasso não demorou a dar-se conta disso e dois dias depois de apertar a mão de Yaku, voltou atrás. Publicou em sua conta no twitter uma carta que apresentou ao CNE dizendo que apoiava a recontagem, desde que o candidato do Pachakutik apresentasse as provas de irregularidade de cada uma das urnas que exigia revisão, de acordo com a lei vigente. Três dias depois (estamos em 17 de fevereiro), em uma coletiva de imprensa na sede de seu partido, Yaku, visivelmente irritado, declarou: “nem sonhem que vamos apoiar a Lasso, nem sonhem que para evitar que venha Correa ao Equador temos que apoiar ao feriado bancário e à corrupção do senhor Lasso”. Mas se arrependeu depois e pareceu aceitar que teria mesmo que apresentar elementos que justificassem a recontagem que pedia. Seu partido já havia convocado uma marcha que sairia de Loja, no sul do país, no mesmo dia da coletiva, em direção a Quito, onde chegaria em 23 de fevereiro para apresentar o pedido formal de recontagem de urnas com irregularidades.

Como se diz no Equador, no alarguemos el cuento: no dia 23, contrariado depois de o CNE haver divulgado os resultados oficiais com Lasso disputando o segundo turno com Arauz, Yaku e Pachakutik finalmente entregaram cópias de aproximadamente 20 mil atas (metade do total geral) com as urnas que afirmavam conter irregularidades. O CNE, no entanto, aceitou recontar apenas 31, o que corresponde a pouco mais de 30 mil votos. Entre estes, a contagem de Yaku efetivamente teve um acréscimo de 612 votos. Mas a estas alturas e depois de todas essas idas e vindas, o candidato – e a reboque, seu partido – perdeu espaço, atenção e credibilidade. Lasso já está em campanha, sabe que apesar do anti-correísmo sua missão é bastante difícil, mas é bem provável que a cantilena de Yaku o tenha favorecido para pelo menos não sofrer uma derrota tão vergonhosa. 

O candidato do movimento indígena que um dia depois das eleições parecia ser o único a ter uma vitória verdadeira para celebrar independente do resultado final, estava, passadas duas semanas, com a pecha de um mau perdedor. 

Acompanhando esse primeiro turno das eleições equatorianas, foi muito recorrente recordar aquela famosa fala da nossa frasista, a ex-presidenta Dilma: “não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder”. Nas eleições presidenciais de 2021 no Equador, até o momento, todo mundo perdeu.

[1] Falamos sobre María Paula Romo e seu movimento Ruptura de los 25 em texto anterior, aqui na Revista Ouro Canibal.

[2] No Equador, para que um candidato a presidente ganhe as eleições no primeiro turno há duas opções: que obtenha metade mais um do total de votos válidos, ou que obtenha 40% dos votos, desde que mantenha uma distância igual ou maior que 10% para o segundo colocado.

[3] Yaku obteve exatamente 1.796.542 votos, quantidade superada apenas pelo segundo turno de 2002 quando Lúcio Gutiérrez, do Partido Sociedad Patriótica em aliança com Pachakutik obteve 2,803,243.

[4] No Equador é comum o voto por lista, o que faz com que o desempenho do candidato presidencial seja, em geral, muito equivalente ao das listas legislativas.

*Doutorando em Ciências da Comunicação pela Universidade de Coimbra (Portugal), mestre em Comunicação com Menção em Estudos de Recepção Midiática pela Universidade Andina Simón Bolívar, sede Equador. Graduado em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (Brasil) com especialização em Marketing Empresarial pela mesma universidade. Integra o núcleo Yllanay de pesquisa da comunicação, associado à Rede AMLAT (Rede Temática de Cooperação Científica, Comunicação, Cidadania, Educação e Integração para a América Latina).

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