El poder

Rayane Peres Vilela*

Pensei, por um ínfimo instante, que céu e inferno eram exatamente aqui… onde permeio meus passos, sucintos, levianos, desconsiderados.

Nunca me sonharam. Nunca. Nem por um ínfimo instante. Mas por que raios isso se forma em pensamentos efêmeros? É que dia desses percebi uma infantil e ligeira maneira como algumas pessoas encaram a vida. Percebi. Apenas. Como alguém que abre os olhos, pressionando as pálpebras, para se fazer verdade o olhar. Vi também o quão desdenhoso era o olhar de algumas pessoas. Todos me olham. Mas ninguém me vê. E não só a mim, a todos. Quase todos. Pois quando lhe interessa você faz questão de me ver. Não apenas de me olhar. Mas de me ver e me notar e, assim, fazer valer o que sua mente projeta. Ou seja, quando é do seu interesse, faz a real necessidade de me ver, de me notar. Céu e inferno, comprovei, eram exatamente aqui. Mas há nas pessoas a dualidade finita? Aquela enquanto se vive você é as duas hipóteses de caráter? O bem e o mal? Isso eu realmente não sei dizer, não sei comprovar. 

Rousseau disse uma frase tão ilustre e que até hoje me faz pensar, repensar, sobreviver, viver: “O homem nasce bom, a sociedade o corrompe…” Talvez seja exatamente isso, o homem, inerente a sua percepção de vida, se deixa corromper. Mas não acredito exatamente nisso. Se por um instante, paro e penso, concluo que existem pessoas boas e que não se deixam corromper, seja pela sociedade ou qualquer outro meio manipulável. 

Por outro lado, se a bondade é inata ao homem, se ele realmente já nasce com a bondade, por que raios ele desprende dela? A sociedade que o corrompe? Ou a própria necessidade em se estabelecer superior aos outros? Esta última hipótese é a mais provável, infelizmente. 

Dias desses, ao som de Chopin, no seu piano, imaginava que a vida, concreta, cada dia, eram as peças do teclado que ora urgia música/melodia, ora deteriorava pensamentos… Imaginem juntamente de mim… Cada tecla uma parte/pedaço da vida. Cada uma desempenhava um papel imprescindível para aquele piano. Chopin, quantos devaneios te fizeram crer que a vida estava naquele piano? Seja por um único momento, seja por toda a vida… Digo isso, exatamente porque a tristeza que sucumbia era maior que todos os pensamentos firmes e lúcidos que permeavam minha mente naquele instante. Ora, se agora – nesse exato momento – escrevo isso a vocês, é porque parte de mim carece de lucidez, outra parte está embriagada. Mas se faz algum sentido, diga-me. Não guarde para você. Somente por ignorância ou sensatez. 

Abraham Lincoln disse também “se quiser pôr à prova o caráter de um homem: dê-lhe poder.” Imaginava, com um copo derramando vinho – diga-se de passagem – que aquela era a frase que me fazia total sentido. Sim, essa sem questionamento algum, resumia meus dias. Os dias que o vinho ou a bebida não me acompanhavam. Os dias em que enfrentava de corpo e alma todas aquelas sórdidas palavras oriundas de um caráter duvidoso e pouco generoso, graças ao poder que lhe ofertaram, e é claro, aceitara sem indagação alguma. 

Não quero dizer a você, caro leitor, que a ausência de poder faria o mundo melhor. Mas com toda a certeza posso afirmar que saber utilizá-lo faria o mundo bem melhor. Presumo que você saiba que ao longo da história o homem tornou a natureza fruto de sua ambição e, a partir daí, usufruiu com unhas e dentes de todas as suas esferas. E então, eis que surge o poder. Surge o líder. Da caça, da pesca, da coleta de frutos. Ambição. Surge novas eras. Surge também tecnologias – que mesmo ínfimas – já poderiam ser denominadas tecnologias. E a partir desse momento somos nós. Eu, você, nós todos e o poder. Ele jamais deixou de nos acompanhar… El poder. 

Também não posso ignorar o fato de que, se escrevo embriagada, partes podem estar desfeitas de sentidos, ou por sorte – que seja – tudo isso que descrevo vale a pena ser lido. Até escrevendo sei que parte de mim está ponderando sobre outra. Isso também é poder? Sim. Posso responder rapidamente e com total certeza: Sim! O poder está intrínseco a nós, eu, você, a todos nós, e até no nosso âmago, na parte mais interior da alma, há algo que grita mais forte. Que sugere mais. Que reflete mais. Que louco tudo isso. Hoje, não sei qual marca de vinho estou a beber, pois o meu poder monetário é ínfimo e ao que clama minhas palavras, o poder que elas expressam, ‘el poder’ é grande. Tamanho. Uma última questão – e não menos palpável que as outras já reverenciadas e descritas aqui – Se parte de mim é poder, e a outra parte, submissão, porque fez-me refletir de tantos modos? Ora, ora. Primeiramente não poderia dispensar o poder das palavras e a submissão dos olhares para com as mesmas. Segundo, se escrevo, submeto você, leitor, ao meu poderio. E, por último – e não menos importante – Se você está sob o meu poder, por uns instantes, que seja, peço para que reflita e tentes ser mais generoso com os outros e também comigo, pois meu vinho está finalizando, e se queres ouvir mais ou ler mais, dê-me mais bebida.

06/12/2020

*Estudante de Letras Inglês EaD na Universidade Federal de Uberlândia (UFU)- 7º período. E-mail: rayane_pv@hotmail.com.

Breve autobiografia: Rayane Peres Vilela é escritora (ama)dora. Adepta das palavras de Fernando Pessoa: “Não sou nada, não posso querer ser nada, à parte isso tenho em mim todos os sonhos do mundo.” Possuo algumas poesias. Poucos contos. Sendo pau pra toda obra, num mundo onde quem faz a obra não recebe os créditos. Esperançosa demais para as modificações que necessitam serem realizadas. Utopia? Que seja! Escrevo num mundo que crio, recrio num mundo que me cria. 

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