A busca por uma vida sem violência: a pretexto da peça ‘’Sou Mulher e Não Serei Outra Coisa’’

*Pamella Picolli de Lima

**Rafaela Martins de Souza

Fomos mobilizadas pela primeira cena do espetáculo “Sou Mulher e Não Serei Outra Coisa”. É como se um arrepio atravessasse toda a pele. E de repente nos lembramos dos relatos de/sobre violência. É preciso parar, um segundo. É como se fôssemos afetadas por uma mistura de sensações diante das imagens que ao mesmo tempo nos transportam para aquele cenário. Talvez essa seja a sensação, a de sermos atravessadas pela peça, que nos convida à reflexão por meio de categorias que somente a arte é capaz de acessar. 

Naqueles 40 minutos nos deparamos com a representação das discussões entre os casais, das fofocas dos vizinhos e da violência de gênero continuada e arraigada e naturalizada que ronda os noticiários brasileiros. Lembramos também daquela reivindicação que ainda nos ecoa: “quem ama não mata’’1. E aí, uma mulher sofre uma tentativa de feminicídio. E todas nós conhecemos uma história assim. Todos os dias acontece uma história assim. A cada piscada de olho que damos, milhares de mulheres sofrem abusos físicos e psicológicos. Lembramos então, que em 2018 foram notificados às autoridades públicas, ao menos, 145 mil casos de violência. E que também se avolumam, ao menos, um caso de agressão a cada quatro minutos2.  Estes números só foram agravados durante a pandemia3. Mas acreditamos que vale a pena rememorar: ‘’não são apenas números!’’, e a peça nos permite refletir de forma acurada sobre essa afirmação.  A violência de gênero é uma experiência sistematicamente vivida na sociedade brasileira. E assim quando dizem as feministas: ‘’o pessoal é político’’ nos parece ressoar essas estatísticas. Isto significa que as nossas experiências pessoais se relacionam com contextos mais amplos onde as vivências coletivas se entrecruzam com as relações de poder existentes em uma sociedade. Mas continuam a afirmar: ‘’em briga de mulher ninguém mete a colher!’’ diziam os vizinhos. Logo, a violência ocorre e se torna a nova conversa de toda a vizinhança. Maria(s) do Socorro e João(s) da Piedade viram os personagens. Esta é uma história que se repete, dizem os envolvidos na peça.

Imagem: Frame da obra “Sou Mulher e Não Serei Outra Coisa”

É em meio a uma chuva de reflexões que enquadramos a Cia. Bornal de Bugigangas. O grupo nasceu em 2018, em Assis (SP), após oficinas oferecidas pela Secretaria de Cultura da cidade e ministradas por Ricardo Bagge que, hoje, dirige o grupo. Bagge apresentou aos atores o texto que empresta o nome ao espetáculo e que nasceu após uma noite de insônia da autora Erika Oliveira. Erika é psicóloga e escreveu a reflexão poética após ouvir a notícia de mais uma mulher assassinada pelo companheiro. Sua tese de doutorado na UNESP era sobre violência de gênero e a psicóloga unia ao trabalho empírico uma série de oficinas com meninas adolescentes. Bagge, na época (2011), foi convidado a dar oficina a essas meninas e sua colaboração com o trabalho de Oliveira fez com que ele conhecesse e se interessasse pelo texto. Após algumas formações, atualmente, a Cia Bornal de Bugigangas é integrada por Tassiana Carli (psicóloga e atriz) e por Rafael Karnakis (psicólogo, ator, arte educador e arte terapeuta). Os dois interpretam, respectivamente, Maria do Socorro e João da Piedade. Vítima e algoz, Maria como tantas, João como tantos… 

Para a construção de sua personagem, Tassiana admite a dificuldade de se desvencilhar de uma profunda identificação porque, embora nunca tenha sofrido violência física, como toda mulher, já experienciou inúmeras formas de abuso. Os personagens foram construídos respeitando um modelo estrutural, não possuem uma subjetividade ou um contexto predecessor que os dê características únicas, isto porque é intenção do grupo mostrar que esta mulher é toda e qualquer mulher, todo e qualquer ser humano que se identifique como mulher. Em algumas formações, Maria era interpretada por mais de uma atriz, seus diversos corpos, idades, ideais, gestos eram emprestados para esta Maria que somos todas nós. 

Enquanto Tassiana focou seu trabalho em um processo de “desidentificação” para sua personagem, Rafael precisou lutar contra a negação do possível João da Piedade que existe dentro de toda figura masculina, inclusive ele mesmo. A conexão e o diálogo com a figura do opressor passaram por um processo de assimilação do personagem para além do estereótipo do “macho opressor” (alcoolista, chucro). O texto poético de Erika Oliveira permitiu, então, a Rafael a pesquisa em nuances que dão contornos mais complexos a João e ele, hoje, conseguiu desenvolver um processo de identificação necessário ao convívio entre ator e personagem. 

Um marcador que sempre permeou a peça são as posições sociais e pessoais de cada integrante do grupo. A todo momento a reflexão sobre privilégios e opressões direciona o caminho da construção do espetáculo. Tassiana questiona: O que entendemos como violência contra a mulher? Como violência de gênero? Responder essas questões passa por um processo de recorrente transformação da peça e dos próprios atores envolvidos. 

Pesquisar as nuances políticas e sociais que circunscrevem o tema fez com que a atriz colocasse em evidência uma rede complexa de abusos. Fica nítido, na peça, o papel que os vizinhos possuem ao testemunharem as violências sofridas. A fofoca, as opiniões e o machismo fazem com que a vítima se torne o foco do assunto deixando de lado o opressor. Mas Tassiana também alerta que neste modelo são as políticas públicas que devem ser cobradas e não indivíduos, justamente porque tratamos de um problema estrutural.

A violência doméstica, em especial, é entremeada por essas tessituras cotidianas, assim: “apesar de sabermos que tal violência não é um fenômeno exclusivamente contemporâneo, o que se percebe é que a visibilidade política e social desta problemática tem um caráter recente, dado que apenas nos últimos 50 anos é que tem se destacado a gravidade e seriedade das situações de violências sofridas pelas mulheres em suas relações de afeto’’ (PEDROZA, GUIMARÃES, 2015: 257)4. A visibilidade dessas violências foram e são parte da luta diária dos feminismos no Brasil.

Neste ensejo, ‘’ao nomear as violências, o pensamento feminista salientou sua disseminação nos mais diversos espaços sociais e desfez sua invisibilidade’’ (ANGELIM, 2009: 262)5. ‘’Sou Mulher e Não Serei Outra Coisa’’ nos faz questionar justamente as violências disseminadas na sociedade brasileira. Mais, ainda, ela também nos leva a refletir sobre a possibilidade de ser/viver outra coisa. Podemos nos perguntar, neste sentido: será possível as mulheres viverem em um mundo em que tenham o direito de viver uma vida sem violência? Quando nos questionamos sobre isso, podemos reivindicar o direito a uma vida sem violência6, mas nos parece, seguindo a peça, que é necessário repensar as próprias representações sociais da mulher.

É neste contexto de violência de gênero que procuram os autores: ‘’buscar respiros por meio da arte’’. Neste sentido, a afetação nos parece atingir aquela proposta mesma da relação entre arte e política: 

Destacamos  a  arte  política,  na  medida  em  que  ela  é autorreflexiva;  e,  encontra  no  seu  teor político,  social-crítico  e  reivindicativo,  um  movimento  para  suplantar  a  técnica  formal  e  tornar visível  outros  sentidos,  significados  e  subjetividades  de  protesto.  Tem  vindo  a  registrar  e  expor  os anseios  de  dada  sociedade  e  de  sua  forma  de  ver  o  mundo,  bem  como  problematizar  questões sociais e políticas que parecem invisíveis (COSTA, COELHO, 2018: 27)7.

Por despertar inquietações que possuem um papel político e social, o grupo decidiu proporcionar debates ao fim de cada apresentação. Rafael explica que a plateia sempre queria conversar após os espetáculos e os próprios atores, no começo, se preocupavam em alertar que eram também psicólogos, se sentiam responsáveis por possíveis reações de gatilho a serem despertadas na plateia. Com o passar do tempo, revisaram que suas funções ali eram como artistas. Ao fim das apresentações, se sentem exaustos física e emocionalmente e ao desempenharem seus papéis, precisam, também, ter o autocuidado. Com esse equilíbrio restabelecido, hoje, a condução se faz com a responsabilidade de trazer o assunto para a reflexão, de fazer a denúncia. 

“Sou Mulher e Não Serei Outra Coisa” já passou por inúmeros processos, adaptações quanto ao número de atores, quanto a espaços de apresentação e, agora, com a pandemia, teve também mudanças de formatos. Bagge explica que o texto é como um esquete, mas que oferece inúmeras possibilidades. Ele é como um grande poema que recentemente foi transformado em um curta-metragem em parceria com a produtora Oeste Cinema. O filme possibilita uma visão mais cotidiana dessa história e, graças aos recursos cinematográficos, poderemos encontrar mais facetas da subjetividade e das perturbações dos personagens. Este projeto da Cia Bornal de Bugigangas já foi contemplado por quatro editais, sendo o filme executado graças ao PROAC LAB disponibilizado como recurso emergencial para a área da cultura durante a pandemia. Graças ao recurso, dezoito profissionais foram empregados.  Rafael explica que o oeste paulista, dentro do estado de São Paulo, é a região que menos recursos recebe para os trabalhos em cultura e que, por isso, os coletivos da região se organizaram no Fórum Interior Profundo como meio de se fortalecerem e discutirem essa problemática. Juntos, aprendem, também, como direcionar os recursos que ganharam recentemente pelos editais de maneira a valorizar artistas locais e a investirem para o crescimento da região. 

PROGRAMAÇÃO – MARÇO

A versão em curta-metragem do espetáculo “Sou Mulher e Não Serei Outra Coisa” será apresentada em sete exibições seguidas de debates temáticos durante o mês de março. A programação ficará disponível no canal do Youtube da companhia nas seguintes datas:

08/03 (17h30) – filme seguido de debate com o coletivo Frente Pela Vida das Mulheres (MST – Presidente Prudente);

11/03 (19h) – filme seguido de debate sobre masculinidades com convidados; 

12/03 (19h) – filme seguido de debate com o Fórum Permanente Pela Vida das Mulheres (Ourinhos);

13/03 (16h) – filme seguido de debate com o coletivo Leia Mulheres e a presença de Erika Oliveira (autora da peça); 

18/03 (18h) – filme seguido de debate com o NEB (Núcleo de Estudos sobre Branquitude);

20/03 (18h) – filme seguido de debate com o coletivo Zimbauê (com discussão sobre a violência contra a mulher negra);

26/03 (18h) – filme seguido de debate com integrantes do projeto “Estou te Ouvindo” (projeto de atendimento psicológico e jurídico para mulheres que sofreram violência (Assis) e participação de duas representantes do CRP (de Assis e de São Paulo).

Canal no Youtube: https://www.youtube.com/channel/UC_yTYcMxPHBSYRNYsinjQfQ

Página no Instagram: @cia.bornaldebugigangas

Cartaz da programação

NOTAS:

 [1]‘’Quem ama não mata!’’ foi um lema desenvolvido pelos feministas brasileiras após o assassinato de Ângela Diniz por seu namorado Doca Street, em 1976. Acesso:  27/02/2021. https://www.geledes.org.br/quem-ama-nao-mata-40-anos-depois/ .

 [2]Brasil registra um caso de agressão a cada 4 minutos, mostra levantamento. Acesso: 27/02/2021. https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/09/brasil-registra-1-caso-de-agressao-a-mulher-a-cada-4-minutos-mostra-levantamento.shtml .

 [3]Casos de feminicídio crescem 22% em 12 estados durante a pandemia. Acesso: 27/02/2021. https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2020-06/casos-de-feminicidio-crescem-22-em-12-estados-durante-pandemia .

[4]GUIMARÃES, Maisa Campos, PEDROZA, Regina Lucia Sucupira. A violência contra a mulher: problematizando definições teóricas, filosóficas e jurídicas. Psicologia & Sociedade, 27 (2), pp. 256-266, 2015.

[5]ANGELIM, Fábio Pereira. O pessoal torna-se Político: o papel do Estado no monitoramento da violência contra as mulheres. Psicologia Política. v. 9, n. 18, pp. 259-275, jul-dez, 2009. 

[6]Uma vida sem violência é um direito das mulheres. Acesso: 27/02/2021. http://www.cedim.rj.gov.br/institucional/cartilha_Uma%20Vida%20Sem%20Violencia%20e%20um%20Direito%2009-2013.pdf .

[7]COSTA, Maria Alice, COELHO, Naiara. A(r)tivismo feminista – Intersecções entre arte, política e feminismo. CONFLUÊNCIAS | Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito. Vol. 20, nº 2, pp. 25-49, 2018.

*Pamella Picolli de Lima é graduada em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Editora da Revista Ouro Canibal.

**Rafaela Martins de Souza é atriz e doutoranda em Ciências da Comunicação pela faculdade de letras da Universidade de Coimbra (FLUC – Portugal). Editora da Revista Ouro Canibal.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s