O Antropoceno narrado pelo afrofuturismo feminista de Octavia Butler

Jaqueline Vieira*

“Parceria é dar, tomar, aprender, ensinar, oferecer o maior bem possível enquanto o menor mal possível é feito. Parceria é simbiose mutualista. Parceria é vida. Qualquer entidade, qualquer processo que não possa ou não deva ser combatido ou evitado deve se tornar um parceiro. Sejam parceiros uns dos outros. Sejam parceiros de comunidades diversas. Sejam parceiros da vida. Sejam parceiros de qualquer mundo que seja um lar. Sejam parceiros de Deus. Somente em parceria poderemos prosperar, crescer, Mudar. Somente em parceria podemos viver.

– Semente da Terra: os livros dos vivos. ” 

Octavia Butler em A Parábola dos Talentos.

O termo/conceito Antropoceno tem recebido grande destaque no século XXI, e não é sem motivo. Entre encontros, conferências e simpósios, o colapso ecológico e climático encontrou o colapso sanitário provocado pela pandemia de Sars-Cov-2 (Covid-19) ampliando o debate que aponta as ações antropogênicas sobre o ambiente como responsáveis pela desestabilização da vida na Terra. Em síntese, o Antropoceno como termo técnico para um novo período geológico foi proposto pelo químico Paul J. Crutzen e pelo biólogo Eugene F. Stoermer em 20001. Vale a observação que o termo foi cunhado no auge do debate sobre a globalização2.

Rapidamente o termo chegou às Ciências Humanas, Filosofia e Artes e constituiu agendas de investigações interdisciplinares. Atualmente o debate sobre o agora, portanto, conceito espinhoso tem elaborado críticas à noção de humano universal e “descorporificada”, expressão que tomo emprestada de Donna Haraway, sendo este aquele que teria deixado marcas na geologia, na biosfera e causado as mudanças climáticas do planeta. Critica-se, principalmente, o tal “bom Antropoceno”, ideia que propaga que os humanos do Antropoceno, que se sentem capazes de modificar tudo, os próprios deuses de si, devessem unir a tecnologia de ponta com o capitalismo para reverter as drásticas alterações antropogênicas sem aniquilar o sistema econômico acumulativo e predatório3. Nas palavras da antropóloga Anna Tsing, “as ferramentas do mestre nunca desmantelarão a casa do mestre”. As críticas são enfáticas ao situar por trás da figura desse humano o sistema econômico capitalista, o colonialismo, a imperialidade, o extrativismo, o patriarcado, o racismo, a frágil dicotomia ocidental Natureza/Cultura e o antropocentrismo como os verdadeiros responsáveis pela desestabilização da biosfera. Ou seja, são muitos os responsáveis. Com isso, Capitaloceno4 e Plantationoceno5 aparecem como termos/conceitos que sem dúvida são bem mais produtivos. 

Apesar do contexto até aqui exposto o título do texto carrega o nome Antropoceno por ser esse o debate mais conhecido – o que nos preocupa –, e, também, por ainda haver possibilidade de dialogar com o mesmo para que se amplie as discussões ao menos na área da qual estou partindo, Antropologia Social. Se o prefixo “antropo” faz parte do Antropoceno, ele também está presente na Antropologia, trazendo novas perguntas para a comunidade antropológica. Hoje, fala-se de uma Antropologia do Antropoceno e de uma Antropologia Multiespécies. 

Mas, e se os problemas envolvendo o Antropoceno tivessem sido imaginados antes do termo ter sido proposto como período geológico e levantado tanto debate sobre as alterações antropogênicas? E se o Antropoceno tivesse sido narrado em 1993 por uma mulher negra, feminista, escritora de ficção científica, lembrada como uma das mais importantes precursoras do afrofuturismo6? E se Octavia Butler tivesse conferido imaginação sociológica ao Antropoceno ao escrever a história da personagem Lauren Oya Olamina no primeiro livro da duologia Earthseed, A Parábola do Semeador? É o que tenho especulado. Octavia narrou a catástrofe do Antropoceno nas páginas onde conta a história ocorrida entre os anos de 2024 e 2027, ao menos os problemas relacionados às sociedades humanas. Todavia, ressalto a importância de compreender que a catástrofe do Antropoceno afeta igualmente os não-humanos e os regimes cosmológicos dos mais-que-humanos, cujo exemplo mais inquietante está em A Queda do Céu (2015), narrado pelo xamã Davi Kopenawa e escrito antropólogo Bruce Albert; há compartilhamento de problemas. 

Após a espera de décadas para que a obra da escritora enfim ganhasse tradução no Brasil, o primeiro livro traduzido foi seu romance histórico mais conhecido, Kindred – Laços de Sangue, que chegou ao país em 2017 tendo sido originalmente publicado em 1979. Octavia, que morreu em 2006, aos 58 anos, recebeu atenção da Editora Morro Branco e entre 2017 e 2020, seis títulos da escritora foram publicados no país. Para 2021 a editora já anunciou mais um título, o último livro da trilogia Xenogênesis. Premiadíssima, acumulou em vida os prêmios Nebula, Hugo e MacArthur Fellowship, os mais importantes prêmios de ficção científica estadunidense. Em 2005 foi admitida no Hall Internacional da Fama dos Escritores Negros. Ao lado de Ursula K. Le Guin, compõe o levante feminista do gênero literário, majoritariamente masculino e branco. Na primeira página de Kindred há uma passagem que marca a importância de seu legado: “comecei a escrever sobre poder porque era algo que eu tinha muito pouco”. 

Nascida em 1947 em Pasadena, Califórnia, sobre forte segregação racial estadunidense, filha de uma empregada doméstica e de um engraxate, perdeu o pai ainda criança e conviveu com a mãe sendo vítima de racismo nos ambientes de trabalho. Mulher negra afetada pela extrema timidez, media 1,80m de altura e não passava despercebida na sociedade racista e sexista, e sofreu bullying por conta do diagnóstico de dislexia, que causou sofrimento durante boa parte da experiência escolar. Toda essa vivência é bastante presente em suas histórias de ficção científica. 

Eu, que conheci Octavia Butler através do Manifesto Ciborgue de Donna Haraway, e posteriormente a reencontrei em um livro de Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro, fui abduzida por sua escrita. Na verdade, tornou-se quase uma obsessão. A obsessão talvez possa ser explicada pelo fato de todas as personagens da escritora serem mulheres negras que sofreram drasticamente com o racismo e, mesmo assim, não abdicaram de tomar posições e questionar as estruturas. A obsessão talvez seja porque eu, assim como qualquer mulher negra, poderia ser protagonista de suas histórias. 

O que tento realizar de forma bastante breve e inicial é uma aproximação entre o primeiro livro da duologia Earthseed, A Parábola do Semeador, publicado originalmente em 1993, e o Antropoceno. O afrofuturismo e as questões de gênero são igualmente importantes para a discussão. “O afrofuturismo é um termo usado para definir a convergência da visão afrocêntrica com a ficção científica, inserindo a negritude em um contexto de tecnologia e projeções sobre o futuro”, diz Camilo Rocha7. A socióloga estadunidense Alondra Nelson tem papel importante na difusão do termo no final da década de 1990. A obra de Octavia, antes mesmo da existência do termo, demonstrava elementos do que viria a ser o afrofuturismo, contendo projeções sobre o futuro afro-diaspórico alicerçados pelo presente e passado. 

Em A Parábola do Semeador o cenário dos Estados Unidos de 2024 a 2027 é de desespero. A crise ambiental provocada pelo aquecimento global e pelo definhamento da economia cria um caos violento por toda a parte. A escrita em primeira pessoa de Octavia Butler é uma verdadeira autoetnografia. Lauren Oya Olamnina é uma jovem negra que possui 15 anos em 2024, cujo pai é um homem negro ministro batista e a madrasta, uma mulher latina. A família vive no bairro ficcional altamente murado de Robledo, Califórnia. Aos que ainda não reconheceram, Oya e Olamina são de origem Iorubá. Octavia pesquisou sobre religiões africanas e se interessou pelos orixás do povo Iorubá. Oya faz referência direta à divindade do rio Níger também conhecida como Iansã, que a escritora associou a sua personagem como “imprevisível, inteligente e perigosa”. Olamina é um sobrenome de mesma ascendência. Na história entendemos que o sobrenome passou a fazer parte da família de Lauren na década de 1960, quando afro-americanos assumiram sobrenomes africanos, incluindo seu avô. Aqui, vê-se explicitamente a agência da ancestralidade nos escritos de Octavia, princípio primordial, inclusive, para a organização social Iorubá. 

Lauren Oya Olamina não consegue deixar de imaginar o futuro. Visualizando que o mundo será ainda mais caótico que o presente, Olamina tem certeza que a violência, a fome, a falta de água, as doenças, o desemprego generalizado, a falta de moradias, as desigualdades e a ausência de chuvas provocada pelas mudanças climáticas aumentarão. Ela, que não esconde o respeito que possui por seu pai, passa a questionar a religiosidade cristã por ele professada. Para não desapontá-lo, mantém isso em segredo. O bairro onde mora praticamente abdicou do contato com o mundo exterior, pois o mundo exterior é um caos onde apenas a morte e a violência sobrevivem, e seus habitantes mantêm uma rotina de vigilância dividida entre os próprios moradores tentando evitar que assaltantes invadam, saqueiem e ateiem fogo nas casas, incluindo fogo nos mesmos. Atear fogo em pessoas, campos e florestas é um dos dispositivos de morte mais presentes ao longo do livro. 

O uso de armas é uma realidade. Matar ou morrer? Matar. Em Robledo reside o que foi um substrato da classe média: negros, imigrantes latinos e brancos que, em sua maioria, são de origem da classe trabalhadora. É nesse contexto que vemos todas as instituições ruírem, todas. As instituições passam a ser inexistentes. Aliás, elas até existem, mas são controladas por quem tem muito dinheiro (coincidência?). 

Sabendo que em algum momento Robledo desmoronaria, Olamina insistia que era vital estar a postos para a Mudança. A Mudança era o seu verdadeiro Deus. Assim, surgem as primeiras ideias sobre a religião Semente da Terra (Earthseed). “A Semente da Terra lida com a realidade constante, não com figuras autoritárias sobrenaturais”. “O Destino da Semente da Terra é criar raízes entre as estrelas”. 

“Deus é Mudança e, no fim, Deus prevalece. Mas há esperança em entender a natureza de Deus. Não é punitiva nem invejosa, mas infinitamente maleável. Há conforto em perceber que todos e tudo cede a Ele. Há força em saber que Deus pode ser focado, distraído, moldado por qualquer pessoa. Mas não há vantagem em ter força e inteligência, e ainda assim esperar que Deus conserte as coisas para você ou se vingue por você”. 

Octavia foi tão a fundo ao desenvolver Lauren Oya Olamina que é como se a personagem saltasse do livro e habitasse o corpo daquela que a lê. Narrando a realidade de maneira tão precisa, torna-se uma missão difícil distinguir o que é ficção e o que é realidade, comparado com o que conhecemos da realidade do capitalismo. A ficção especulativa de A Parábola do Semeador ganha mais realismo no auge da pandemia impulsionada pela política bolsonarista de extermínio humano, principalmente, àqueles que estão sob os efeitos dos marcadores sociais da diferença, não-humano e mais-que-humano.  

E há um ponto crucial da Mudança/Deus de Olamina: “Quando eu disse que a Mudança não tinha gênero e que não era uma pessoa, eles ficaram confusos, mas não desdenharam”. A Mudança não tem gênero. Deus não tem gênero. A referência da escritora certamente é oriunda do modelo de família iorubá tradicional não generificada, a qual ela pesquisou para a escrita do livro, como menciona em entrevistas. A antropóloga nigeriana Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí8 argumenta que “Ela [a família iorubá tradicional] pode ser descrita como uma família não generificada porque seus papéis de parentesco e suas categorias não são diferenciados por gênero”. Oyěwùmí, que pesquisou a sociedade iorubá do sudoeste da Nigéria, ressalta que o modelo de família nuclear patriarcal ainda é um modelo alienígena na África, apesar de ter sido impulsionado pelos governos coloniais e, na atualidade, impulsionado pelo neo-colonialismo, agências internacionais de desenvolvimento, ONGs e algumas organizações feministas ocidentais. As famílias iorubás são organizadas pela “ancianidade baseada na idade, e não pelo gênero”. 

Octavia Butler promoveu um aceno ao futuro que é um aceno ao futuro político da luta pela vida no Antropoceno. Político porque o Antropoceno é antes de tudo político. A destruição da vida é uma forma política de extermínio e a prevalência da mesma é a luta primordial, e não digo apenas da luta pela vida humana, e sim da luta pela vida de todos os viventes da Terra. É preciso lembrar que já estamos vivendo no futuro imaginado  por Octavia. 

Trazendo as mudanças ecológicas e climáticas para o contexto histórico e político latino-americano, vale pensar-com a também antropóloga Lélia Gonzalez9 que diz que “herdeiras históricas das ideologias de classificação social (racial e sexual), assim como das técnicas jurídicas e administrativas das metrópoles ibéricas, as sociedades latino-americanas não podiam deixar de se caracterizar como hierárquicas”. Em A Parábola do Semeador as hierarquias do contexto estadunidense uniram-se à catástrofe ecológica e climática causando a usurpação quase total da vida. A vida foi tomada pelos que estavam no topo da hierarquia, privatizando cidades inteiras, rios e até o oceano para escapar das mudanças ambientais e dos pobres que permaneceram à míngua. Devemos prestar atenção nisso quando falamos de sobreviver no futuro do Antropoceno. 

Lauren Oya Olamina diz que é preciso “Moldar Deus”, é preciso Moldar a Mudança. Há um incômodo grande ao imaginar um futuro violento e catastrófico, e sem dúvidas o futuro será violento porque o passado foi e o presente é. Mas o futuro também é moldado. As lutas são moldadas e construídas. Lauren chegou a Bolota, nome que remete ao fruto da árvore de Carvalho, comunidade onde fundou a religião Sementes da Terra. Ela moldou Deus e não fez isso sozinha. Lauren e sua comunidade, os refugiados do caos que se uniram ao longo da caminhada pela vida, trabalharam conjuntamente e com consciência política de quem eram para moldar a Mudança de maneira comunitária. Fizeram parentesco, como propôs Donna Haraway, para além dos humanos, uma “parceria [que] é simbiose mutualista”, escreveu Olamina. Sobrevivente, registrou os princípios no livro Sementes da Terra: os livros dos vivos. Como vivente e resistente essa história continua em A Parábola dos Talentos, volume II da duologia. Olamina continua com um propósito, um Destino. 

Octavia Butler com maestria indiscutível trouxe formas de lutas necessárias ao Antropoceno. 

À você, Octavia, toda a minha admiração e agradecimento por ter ensinado que é necessário moldar o futuro a partir da realidade constante. 

1 “O Antropoceno”, disponível em: https://piseagrama.org/o-antropoceno/.

 2Situo este debate junto ao geógrafo brasileiro Milton Santos (2000). 

 3As recentes declarações de Bill Gates apontam para esse cenário. “Bill Gates: a mudança climática terá efeitos muito piores que a pandemia”, disponível em: https://brasil.elpais.com/eps/2021-02-15/bill-gates-a-mudanca-climatica-tera-efeitos-muito-piores-que-a-pandemia.html.

 4Ver Donna Haraway (2016) e Jason Moore (2020).

 5Ver Anna Tsing (2019).

 6O termo foi cunhado por Mark Dery em 1994.

7“O Afrofuturismo e como ele aparece na cultura pop”, disponível em: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/08/05/O-que-%C3%A9-afrofuturismo.-E-como-ele-aparece-na-cultura-pop.

8“Conceituando gênero: os fundamentos eurocêntricos dos conceitos feministas e o desafio das epistemologias africanas”.

 9“Por um feminismo afro-latino-americano”.

*Graduada em Ciências Sociais, com concentração em Antropologia, pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). É editora da Revista Ouro Canibal. 

** Imagem: El País

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