Uma descrição do estudo de Durkheim sobre suicídio pela perspectiva do tripé epistemológico da sociologia

Cecília Nunes Trindade*

Júlia Pimenta Carreiro**

Resumo: O trabalho pretende realizar uma análise da obra O suicídio de Émile Durkheim partindo do tripé epistemológico. O objetivo do artigo é exemplificar como a descrição feita pelo autor a partir da análise de dados levaram à construção de uma teoria que explica o suicídio como um fenômeno de caráter social, além de individual. Ademais, o artigo descreve cada tipo de suicídio segundo Durkheim e sua relação com os vínculos sociais. Nesse sentido, o texto evidencia, a partir da metodologia sociológica, os diferentes aspectos do suicídio. 

Abstract: This paper intends to analyze the work  O suicídio of the writer Émile Durkheim based on an epistemological  triad. The objective of this article is to exemplify the description made by the author, from the data analyses, resulted in a theory that the explains the suicide as a social and individual phenomenon. Furthermore, this article describes every type of suicide according to Durkheim and its relation to the social bonds. At last, the article highlights the different aspects of the suicide, from a sociological method

Palavras chaves: Durkheim; fenômeno; laços familiares; suicídio; vínculos.

Antes de mais nada é preciso definir nosso objeto de estudo, o suicídio. Segundo Durkheim, em sua obra sobre esse tema

“Chamamos suicídio toda morte que resulta mediatamente ou imediatamente de um ato positivo ou negativo, consumado pela própria vítima” (Durkheim, O suicídio, Introdução, p. 3). 

Além disso, deve ser levado em conta o tripé epistemológico Descrição, Explicação e Interpretação, desenvolvido por esse sociólogo. O que pressupõe, respectivamente, a análise da base empírica , a integração entre relações causais, análise estatística e estabelecimento de leis e, por fim, o sentido do suicídio para solidariedade social.

No entanto, as particularidades desse ato vão além do tirar a própria vida. Durkheim analisa o suicídio como fato social, analisa as causas, e encontra diferentes tipos. Em primeiro lugar são definidas as duas forças principais que levam alguém a atentar contra a própria vida: a regulação e a integração. Em seguida, cada uma dessas forças se relaciona com duas possíveis causas produtoras de suicídio, segundo a ótica do sociólogo. 

Arte: Luísa Scalia

A força da regulação diz respeito ao suicídio anômico e ao fatalista. Essa corrente remete ao funcionamento dos vínculos sociais, quando esses operam desregradamente é suicídio anômico e se simplesmente não operam há o suicídio fatalista (ou vesânico). Nessa situação, um indivíduo ou terá vínculos que operam descontroladamente ou não terá vínculo algum. Resultando, respectivamente, em suicídio anômico ou fatalista.

Já a força da integração diz respeito ao suicídio altruísta e ao egoísta. Nessa teoria, o estudioso analisa como as formas que os vínculos operantes podem resultar em suicídio. No caso altruísta, há excesso de vínculos, de modo que o indivíduo acaba atentando contra a própria vida visando o bem maior. Já no caso egoísta, os vínculos existem, mas são fracos ou escassos de modo que há pouca integração social, levando o indivíduo a atentar contra a própria vida. 

FIGURA. A distinção entre egoísmo e anomia

(DOMIGUES, 2004, p. 236)

 Ainda segundo a teoria de Durkheim, vale ressaltar que o suicídio não é um fenômeno individual e sim social.  O suicídio é fruto de algum problema em relação aos vínculos, e o principal vínculo na vida de um indivíduo é o familiar. Seja em relação aos pais e irmãos, seja em relação ao cônjuge e os filhos.

Segundo o autor Ivan Domingues, em A epistemologia das Ciências Humanas a família pode ser vista como um modelo para a sociedade, ou seja, a sociedade seria uma família ampliada. E a família é uma célula da sociedade. Desse modo, fica claro como a família representa a base dos vínculos sociais e a primeira fase de socialização do indivíduo, sendo um aprendizado para a formação de vínculos com pessoas de fora do círculo familiar. Ademais, a família é um modelo de quais vínculos serão criados em uma sociedade. Ao observar as relações entre membros da mesma família é possível perceber semelhanças entre os vínculos formados entre indivíduos de diferentes famílias e ainda entre famílias distintas.

 No capítulo 3 da obra A fundação da sociologia da família: o caso d’O suicídio, Domingues cita que: 

“(…) quando a célula mãe se desintegra, os indivíduos entram em colapso e a própria sociedade, não combatido o mal, é levada ao estado de ruína.” (DOMINGUES, 2004, p. 215)

De modo que é possível perceber o suicídio como um fato social, que não diz respeito apenas ao indivíduo uma vez que há motivações externas, os vínculos ou falta deles. Apesar desse fato aparentar ser um fenômeno individual, não é, já que envolve causas externas aos indivíduos. 

No que diz respeito à análise descritiva apresentada por Durkheim, é importante destacar como o autor, a partir do conceito construído sobre suicídio, baseia-se em estudos empíricos em distintos países da Europa ao longo dos anos para analisar dados referentes a esse fenômeno e à mortalidade, por exemplo. Além disso, o teórico, a partir de estudos estatísticos acerca do tema, busca explicar o suicídio como fato social e fenômeno de caráter sociológico. A tabela a seguir indica a constância das taxas de suicídio em diferentes países ao longo dos anos.

(O suicídio, introdução, pg 472, Quadro1)

O método durkheimiano, baseou-se na análise de cartas e testamentos (quando o suicida os deixava), prontuários médicos documentados, depoimentos de familiares e amigos e estatísticas oficiais, visto que nesse caso não é possível o contato com a fonte de maneira direta. Destaca-se no trabalho do teórico a importância de se estabelecer a análise sociológica, ou seja, a partir das estatísticas fazer a transição do suicídio como registro individual e isolado para um fenômeno coletivo e consistente empiricamente. Segundo o sociólogo,

“E, contudo, os fatos sociais são coisas e devem ser tratados como coisas. (…) Tratar fenômenos como coisas é tratá-los na qualidade de data que constituem o ponto de partida da ciência. Os fenômenos sociais apresentam incontestavelmente essa característica. O que nos é dado não é a ideia que os homens têm do valor, pois ela é inacessível; são os valores que se trocam realmente no decurso das relações econômicas.” (DURKHEIM, 2004)

Partindo da descrição de Durkheim sobre o tema, fica claro o objetivo do autor em classificar o suicídio como fato social, e principalmente, exemplificar seu caráter coletivo e constante. Dessa forma, tendo em vista a tabela acima, o método investigativo adotado destaca as causas sociais do ato e a forma como as diferentes condições externas desencadeiam diferentes efeitos. O autor, ao iniciar sua análise sobre o tema, gera diversos questionamentos, tal como

“Uma tal definição nos coloca no terreno do indivíduo e trata da morte voluntária; de fato, seja lá o que for o suicídio ou a sua definição, quem se mata é o indivíduo, mesmo quando há uma série de suicídios ou suicídios em massa; como provar então que há alguma coisa como suicídio social ou de grupo, motivado não por um colapso pessoal ou individual, mas por forças sociais e correntes coletivas?”.(DURKHEIM, 1973, p. 467)

A partir desses questionamentos e dos dados estatísticos analisados, Durkheim conclui que, partindo da visão sociológica, as justificativas individuais, como a constituição biológica, não são determinantes, já que essas particularidades não conseguem explicar a constância das taxas de suicídio. É possível perceber que fatores como estação do ano, sexo, estado civil e local de moradia que influem na ocorrência do suicídio. Ou seja, o fator determinante desse ato é a força coletiva que age em diferentes intensidades. 

Dessa forma, tendo em vista o caráter constante das taxas de suicídio analisado por Durkheim, fica claro que esse fenômeno possui particularidades individuais não determinantes, ou seja, destaca-se a forma como a vida coletiva impacta de forma decisiva no ato do indivíduo. O estudo de Durkheim baseia-se, então, na análise sociológica do suicídio, de forma a categorizá-lo como fato social. Para isso, fez-se necessário estabelecer e explicar a relação causal entre os fatores comuns que provocam certos efeitos em diferentes situações. A partir disso, fica evidente não só a forma como os fatos sociais são explicados por outros fatos sociais, mas também que o suicídio, é um fenômeno determinado pela tendência coletiva.

O caráter causal do suícidio, sendo ele um fato social, foi explicado por Giddens em sua análise sobre o método sociológico de Durkheim, segundo o autor:

“Os fatos sociais, afirmou ele com destemor, precisam ser tratados como “coisas” – talvez o mais controvertido dos preceitos expostos em As Regras do Método Sociológico.” Giddens (1978). 

Fica evidente no texto de Giddens a importância dada por Durkheim à forma como os fatos sociais devem ser vistos, segundo o teórico,  essa é uma forma de tratar os fenômenos sociais como objetivos para que possam ser analisados pelo método de análise sociológica durkheimiana.

Partindo desse pressuposto, Giddens baseia-se na seguinte metáfora para explicar a tendência causal e o caráter coletivo do suicídio:

“O traço mais importante de uma “coisa” é não ser plástica à vontade: uma cadeira se moverá se for empurrada, mas sua resistência demonstra que ela existe externamente a quem quer que a esteja empurrando. O mesmo se aplica aos fatos sociais, ainda que não sejam visíveis de modo com que o é um objeto físico, como a cadeira.” Giddens (1978).

Tendo em vista então que o suicídio, assim como qualquer outro fato social, é fruto de causas sociológicas que agem como uma força determinante nos atos individuais, fica claro como a constância das taxas é fruto de uma relação entre causas e efeitos que se comporta como tendência coletiva. 

Assim, entende-se que o suicídio é fruto de problemas nos laços sociais, seja pela ausência, pelo excesso, ou por problemas em seu funcionamento. Logo, é possível relacionar suicídio e solidariedade segundo a ótica de Durkheim. Para o autor, solidariedade é aquilo que mantém a sociedade unida, principalmente em um contexto de mudança. Existem dois tipos de solidariedade, a mecânica e a orgânica. A primeira diz respeito a uma sociedade simples, em que as pessoas estão envolvidas em ocupações similares, e não há muito espaço para diferenças individuais. Já a segunda, diz respeito a sociedades mais complexas, com alto grau de individualização, com laços de interdependência entre as pessoas, que realizam funções das mais variadas. 

Arte: André Chaves

Uma vez explicitado o papel da solidariedade na construção de laços sociais, entende-se que se há falhas na construção da solidariedade em determinada sociedade também haverá problemas nos laços sociais. Quando há problemas nos laços sociais e na solidariedade há um menor grau de interação entre os indivíduos, e quanto maior o desequilíbrio maiores serão as taxas de suicídio. Dessa forma, fica claro que esse fenômeno é fruto de uma tendência coletiva que depende da estabilidade e manutenção dos vínculos morais. Além de que, por ser um fato social, o suicídio se apresenta de forma regular e normalizada sem ser considerado um desvio da ordem moral.

A interpretação de Durkheim sobre a forma como esse fenômeno é determinado pelo desequilíbrio das solidariedades, destaca a constância das taxas de suicídio e, principalmente, a causalidade. Segundo o teórico:

“As tendências coletivas têm uma existência que lhes é específica; são formas tão reais quanto as forças cósmicas, ainda que sejam de uma outra natureza: agem igualmente sobre o indivíduo a partir do exterior, ainda que seguindo outras vias. O que permite afirmar que a realidade das primeiras não é inferior à das segundas é que ela se demonstra de uma forma semelhante, a saber, pela constância dos efeitos. Quando constatamos que os números dos óbitos varia muito pouco de um ano para outro, justificamos essa regularidade dizendo que a mortalidade depende do clima, da temperatura, da natureza do solo, em resumo, de um certo número de forças materiais que, sendo independentes dos indivíduos, se mantêm constantes enquanto as gerações mudam.” Durkheim (1973).

As mudanças nos vínculos, sendo elas o enfraquecimento ou quebra deles, levam ao suicídio, porém cada um a sua maneira. Conforme aprofundado anteriormente, o suicídio egoísta é furto da individualização, da apatia e da fragilidade dos vínculos, enquanto o altruísta é fruto do excesso dos vínculos. Já o suicídio anômico é fruto de vínculos desregulados enquanto o vesânico ocorre quando os vínculos simplesmente não operam. 

Conclui-se, portanto, que o suicídio é um fato sociológico, uma vez que é um fato social. E “Os fatos sociais são externos em relação aos indivíduos e exercem coerção sobre eles” Giddens (1978). Uma vez já delimitado o interesse sociológico pelo suicídio, ao longo de todo o texto, delimitaremos o interesse de outras áreas, a fim de mais uma vez diferenciar o caráter sociológico dos demais.

O suicídio é um fenômeno social presente nas mais diversas sociedades, desde o início. Porém, assim como diferentes sociedades lidam com um mesmo fenômeno de maneiras diferentes, diferentes áreas do conhecimento também lidam com um mesmo fenômeno de maneiras diferentes. E todas essas análises são igualmente importantes, uma vez que se trata de um fenômeno complexo, como colocado por Giddens em As ideias de Durkheim:

“O suicídio, em outras palavras, é um fato social e precisa ser explicado por meio de outros fatos sociais, para sermos mais exatos não cabe à sociologia, na explicação do suicídio explicar todos os seus aspectos, alguns dos quais hão de ser estudados pela psicologia(…)” GIDDENS (1978).

Assim como o sociólogo, o psicólogo, o médico, o criminalista, o jornalista e o romancista também demonstram interesse pelo suicídio. Para o psicólogo, o fenômeno será estudado segundo a mente humana, analisando as possíveis doenças mentais do indivíduo e seus comportamentos.  Já para o médico, o que importará é como se deu a morte, para que possam ser preenchidos os relatórios médicos. O criminalista, por sua vez, volta sua atenção para os pormenores da situação, a fim de comprovar se realmente houve um suicídio ou se aquela vida terminou por meio de um crime. O jornalista irá expor o meio pelo qual se deu o ato, irá noticiar o fato de modo a acentuar os aspectos mais dramáticos da situação. E o romancista, por fim, preocupa-se com os suicídios de pessoas de maior relevância, como Vargas, a fim de contar a história de forma romantizada. Ele também atenta para suicídios literários, como o de Romeu e Julieta e o de Werther, em o O sofrimento do jovem Werther, romance de Goethe. 

Assim, ficam delimitados os diferentes aspectos do suicídio, e como cada um deles se diferencia do aspecto sociológico. Ademais, fica claro que esse fenômeno não pode ser explicado por apenas uma área do conhecimento, uma vez que elas se complementam.

*Graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e de Psicologia na Puc Minas. E-mail: ceciliantrindade@gmail.com

**Graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Também cursa Direito na Puc Minas. E-mail:  jupimentac@gmail.com 

Artistas:

Imagem em destaque: Sofia Nabuco, 20, é ilustradora, trabalha com aquarelas e ilustrações digitais, também é estudante de Cinema & Audiovisual na Puc Minas. Sofia também é a dona do Instagram de artes @rabiscofia, em que posta seus trabalhos.

Imagem 2: Luísa Scalia, 19, estudante de Cinema de animação da UFMG.

Imagem 3: André Chaves, 20, é estudante de Arquitetura e Urbanismo, artista gráfico e músico integrante do coletivo artístico O Trem. André também tem uma conta no Instagram, @meiofio_jpeg, em que posta seus trabalhos.

Referências bibliográficas

DOMINGUES, Ivan. A epistemologia das ciências humanas. São Paulo: Edições Loyola, 16/08/2004 2004. cap. 3, p. 215-242.

DOMINGUES, Ivan. A fundação da sociologia da família: o caso d⠸o suicídio. São Paulo: Loyola, 2004. 671 p. (Cap 3).

DURKHEIM, Émile. O suicídio: Estudo sociológico. In: DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico: E outros textos. 1. ed. São Paulo: Abril, 1973. cap. ?, p. 467-504.GIDDENS, Anthony. As ideias de Durkheim. São Paulo: Editora Cultrix, 1978. 93 p. (Fontana Modern Masters, dirigida por Frank Fermode). Tradução de: Octávio de Mendes Cajado.

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