MULHERES DE TERREIRO:

notas biográficas*

Mauricio dos Santos**

Anaxsuell Fernando da Silva***

Mães de santo e/ou mulheres de terreiro possuem centralidade na construção cultural no Brasil e, por isso, consideramos fundamental rememorá-las. Recontar suas trajetórias, recompor seus itinerários sócio-religioso e partilhar suas experiências. A despeito do processo de invisibilização social, identificamos que as lutas antirracistas e feministas são comuns nas vidas dessas Iyás, verificamos que em diferentes períodos e em diferentes terreiros essas lutas se repetiram de distintas formas e compreendemos que as lutas contra o racismo e o machismo são constitutivas – ou ao menos apresentam-se como características centrais – das Iyás afro-brasileiras.

Valdina de Oliveira Pinto ficou conhecida como Makota Valdina, ou Makota Zimewaanga, seu nome iniciático. Em 1975 foi iniciada no candomblé de raiz Angola, no Terreiro Tanuri Junsara, como Makota, o mesmo cargo que Ekedi ou Ajoie, que é a autoridade religiosa que auxilia outros/as religiosos/as e as divindades afro-brasileiras, permanecendo acordadas, sem entrar em transe. Nasceu em Salvador, em 1943, foi educadora, líder comunitária e ativista dos Direitos Humanos e atuou essencialmente nas causas antirracistas e feministas. Recebeu as honras do Troféu Clementina de Jesus, da União de Negros Pela Igualdade (UNEGRO), do Troféu Ujaama, do grupo Cultural Olodum, da Medalha Maria Quitéria, da Câmara Municipal de Salvador e de Mestra Popular do Saber, pelo Ministério da Cultura do Brasil. Protagonizou o documentário Makota Valdina — Um jeito Negro de Ser e Viver, que recebeu o Prêmio Palmares de Comunicação, da Fundação Cultural Palmares. Faleceu em 2019 em Salvador, Bahia. Makota Valdina dizia que “não sou descendente de escravos; eu descendo de seres humanos que foram escravizados” (2012). Integrou o Conselho Estadual de Cultura da Bahia.

*Originalmente publicado pela Revista Calundu, disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/revistacalundu/article/view/34579/28492

** Universidade Federal da Integração Latino-Americana

***Universidade Federal da Integração Latino-Americana

Imagem: Makota Valdina Crédito: Edgar de Souza/Ag. Edgar de Souza

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