Apagão no Amapá – um relato

Apagão no Amapá

Ivan Carlo Andrade de Oliveira*

Na terça-feira, dia 3 de novembro, os macapaenses viram uma tempestade desabar sobre a cidade. Junto com a água, uma sequencia interminável de raios e trovões. Em certo ponto faltou energia. A maioria das pessoas achou que seria apenas uma queda momentânea de energia, mas começava ali a maior crise já vivida pelo estado do Amapá.

No dia da tempestade, um dos transformadores da subestação, administrada pela empresa espanhola Isolux, pegou fogo (acredita-se que o fogo tenha começado numa buxa) e atingiu o outro. O terceiro, de reserva, estava fora de serviço desde 2019. Aparentemente toda a subestação sofria com a falta de manutenção.  

Como resultado, o estado praticamente inteiro (13 municípios) foi dominado por um apagão.

A maioria das pessoas não tem noção do que significa a falta de energia. Parece um mero contratempo. Mas, além do calor infernal no auge do verão amazônico, a falta de energia gera consequências muito mais graves, um verdadeiro caos:

– Sem energia, a companhia de água não tinha como manter o fornecimento de água para as casas.

– Hospitais, inclusive UTIs, ficaram sem água e sem energia.

– Estoques de sangue e leite materno se perderam.

– Comércios e casas perderam toneladas de alimentos, provocando uma crise de desabastecimento.

– Os poucos comércios que continuaram funcionando porque tinham gerador na maioria das vezes só aceitavam dinheiro.

– Os bancos, devido à falta de energia, não estavam funcionando. Quem tinha dinheiro no banco não podia sacar para comprar alimentos. Resultado: filas enormes nos poucos locais que tinham caixa eletrônico 24 horas funcionando.

– Além disso, poucos postos de gasolina tinham geradores, o que provocou uma filas imensas nesses poucos postos.

– Tornou-se praticamente impossível conseguir carne, pão, queijos e outros produtos alimentícios.

– Muitos acidentes. O trânsito virou um caos. Eu mesmo vi um carro atropelando uma moto logo na minha frente. 

– Fila para tudo, inclusive para comprar água mineral e gelo, que acabou em toda a cidade de Macapá já no primeiro dia do apagão.

Aqui um relato pessoal de quem viveu esse caos:

Na quarta-feira, dia seguinte à queda da energia, já era possível perceber uma movimentação, principalmente para compra de água mineral e as filas nos postos de gasolina. Nós usamos água de filtro de barro, mas comprei um galão de água mineral e meu filho comprou outro. Mas ninguém achava que apagão fosse durar muito tempo, até porque não se tinha informação – o único veículo que continuou funcionando foi a rádio CBN, mas a maioria das pessoas, como eu, só descobriu isso depois. Os celulares ficaram totalmente fora de área.

Na quinta-feira ficou claro que a energia não iria voltar tão cedo e o local que nos fornecia água mineral simplesmente não tinha mais o produto. Levantei cedo e percorri os locais próximos em busca de água, gás, e, se possível, gelo. O que mais via eram placas: “Não temos água” “Não temos gelo”.

Passei por um único local que aparentemente tinha os dois, mas uma fila monstruosa tinha se formado, as pessoas uma do lado da outra, a maioria sem máscara (isso no auge da segunda onda de covid no Amapá).

Aliás, Macapá tinha se transformado na cidade das filas: era fila para tudo.

O que mais preocupava era a falta de água. Sem água ninguém consegue sobreviver. Não é só água para beber, mas para fazer comida, tomar banho e até para jogar no vaso sanitário.

Nessa ronda não consegui água, gelo ou mesmo gás (a maioria dos locais que vendia gás estava fechada), mas vi situações bizarras, como um carro repleto de garrafões vazios de água mineral, até no colo do motorista. Nitidamente o dono estava tentando comprar água, não sei se para uso próprio ou para revender. Provavelmente não conseguiu.

Pior era a preocupação de ficar rodando de carro e gastando gasolina.

Posteriormente meu filho saiu e conseguiu comprar gás, mas nada de gelo, muito menos água mineral. Ele trouxe um garrafão de água de torneira. Uma mulher que aparentemente tinha água em casa estava vendendo água de torneira!

No final da manhã a água voltou. Apenas um filete, mas o suficiente para ser coletado em baldes e colocados em baldes maiores, com tampa, que já temos – e até uma piscina infantil que temos e montei com o objetivo de armazenar a água. Nossa sorte é que, como é comum faltar água na cidade, tínhamos uma grande variedade de baldes. Passamos o dia pacientemente coletando a água do filete que caía e armazenando.

A situação pior era de quem não é abastecido pela CAESA e depende de poços artesianos – a maioria da população do Amapá. Sem energia não é possível ligar a bomba para puxar água do poço artesiano. Então, sem energia, sem água. Essas pessoas não tinham nem o filete de água com o qual enchemos as vasilhas.  Algumas pessoas que tinham geradores movidos a óleo diesel alugavam os mesmos para encher caixa d´água. A média era 100 reais para encher um caixa d´água de mil litros.

Felizmente tínhamos filtro de barro, mas quem dependia de água mineral foi obrigado a tomar a água que conseguia, na maioria das vezes sem tratamento, o que lotou os hospitais – hospitais que já estavam lotados com os casos de covid.

Quando faltou a energia colocamos tudo que era mais perecível, como iogurtes, requeijão e queijo no congelador. Como minha filha e minha esposa têm intolerância à lactose e só um local aqui vende isso, sempre que vou lá compro bastante queijo, então tinha muito na geladeira, e foi o que mais se perdeu. Os perecíveis no congelador duraram até a sexta-feira de manhã, quando tivemos que jogar boa parte fora.

Os supermercados que tinham gerador aumentaram exponencialmente o preço dos produtos e produtos perecíveis, como carne e frango, desapareceram das prateleiras.

Uma estratégia que usamos para economizar na água foi abolir o uso de pratos e talheres. Compramos ambos descartáveis e jogávamos no lixo.

Algo que incomodou muitos amapaenses não foi um problema muito grande para nós. Como minha casa é muito ventilada e tudo é gradeado e telado, foi possível dormir com as janelas abertas. Mas na maioria das casas isso não é possível. As noites sem dormir se refletiam até mesmo nos acidentes de trânsito, cada vez mais frequentes.

Na sexta-feira, dia 6, a energia voltou em alguns pontos, inclusive em minha casa (durou aproximadamente dez horas), depois parou e depois ficou num sistema de rodízio de seis em seis horas, depois de três em três horas, o que gerava queima generalizada de aparelhos eletrodomésticos.

Na maioria das vezes o rodízio não era obedecido e alguns bairros mais periféricos não chegavam a ter energia nunca. Os protestos explodiram principalmente na periferia.

Em algumas cidades do interior, como Amapá e Calçoene, a energia, mesmo racionada chegou dias depois do primeiro apagão.  

A venda de velas aumentou exponencialmente e tornou-se quase impossível comprar o produto – quem tinha, vendia pelo dobro do preço. Até mesmo os lampiões a querosene desapareceram das lojas.

A energia só retornou dia 23 de novembro, dez dias depois do início do apagão. A energia voltou, mas não a normalidade. Como reflexo direto, a maioria dos semáforos da cidade não funcionava mais pois havia queimado no período de rodízio de energia.

No final, o prejuízo com a perda de comida será enorme. Sem falar dos acidentes, do aumento de casos de covid,  já que as filas para tudo geravam aglomerações – o que se refletiu nos números: exatamente sete dias depois do apagão o Amapá teve mais de 700 casos num único dia, recorde para esta segunda onda. Soma-se a isso o sofrimento, especialmente do povo mais pobre, sem água, energia ou comida e é possível imaginar o impacto que o apagão teve sobre o povo amapaense.

* Ivan Carlo Andrade de Oliveira possui graduação em Comunicação social – jornalismo pela Universidade Federal do Pará (1993), mestrado em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (1997), doutorado Arte e Cultura Visual pela FAV/ UFG (2017). Atualmente é professor adjunto da Universidade Federal do Amapá, atuando principalmente nos seguintes temas: quadrinhos, jornalismo e literatura de fantasia e FC. Com o pseudônimo de Gian Danton tem publicado quadrinhos e textos de ficção literária desde 1989. Texto originalmente publicado no blog do autor: http://ivancarlo.blogspot.com/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s