Eleições no Equador: para além dos huasipungos*

Huasipungo

Por Bruno Dias**

Se algo se pode afirmar com alguma certeza é que qualquer estudioso que tente listar os grandes clássicos de todos os tempos da literatura equatoriana terá necessariamente que considerar Huasipungo, de Jorge Icaza, publicado em 1934, entre os primeiros colocados. Trata-se de uma das novelas pioneiras do indigenismo latino-americano,1 corrente que, diferente dos indianistas (como José de Alencar no Brasil, por exemplo), que concebiam o indígena como exótico, ingênuo e de uma selvageria ora pura, ora animalesca, retratavam estas personagens como sujeitos marginalizados e precarizados, trabalhadores explorados pelas elites políticas e econômicas locais. Huasipungo, a propósito, é palavra de origem quíchua que pode ser interpretada como uma “porção de terra”, literalmente casa (huasi) e quintal (pungo). No Equador, faz referência também a forma de exploração de trabalho afro-equatoriano e principalmente indígena na qual o gamonal, latifundiário dono de uma grande extensão de terra, a loteia e permite que o trabalhador nela produza para seu próprio consumo em troca de parte dessa produção. Essa modalidade, inclusive, vigorou no país até a segunda metade do século XX, quando foi finalmente proibida pelas reformas agrárias de 1964 e 1973.

No livro de Icaza o huasipungo é o cenário dos acontecimentos: o fazendeiro Alfonso Pereira, proprietário de terra em um povoado no qual sequer vive, decide se mudar para a fazenda no momento em que sua filha engravida de um cholo2. Endividado, Alfonso aceita a proposta de seu tio Julio Pereira de preparar o lugar para a exploração petroleira de empresários estadunidenses. O livro narra os eventos que ocorrem durante esse complicado processo de acondicionamento da região e culmina com finalização da construção da estrada que liga a fazenda a uma cidade próxima. Nas terras de Don Alfonso as relações desiguais se dão entre diferentes grupos. Além da família do latifundiário e os indígenas hasipungueiros que vendem sua força de trabalho ao proprietário da fazenda em troca de um pequeno pedaço de terra que mal alcança para sua própria sobrevivência, há também o clero local, que se apropria do pouco dinheiro que sobra aos indígenas trabalhadores, e os mestiços, classe intermediária que vive numa vila próxima e tem a função de supervisionar o trabalho indígena. Icaza é rigoroso na descrição dos detalhes da exploração de Alfonso sobre os indígenas, retratando com crueza os maus tratos, castigos, a fome e as frequentes e cruéis mortes dos trabalhadores. A história que começa com a exploração desumana da mão-de-obra indígena termina com a quase extinção de toda a população dos huasipungos devido, principalmente, ao local que ocupam, estratégico para os interesses do projeto estrangeiro.

O processo organizativo

A novela de Icaza narra com amarga fidelidade uma realidade comum na primeira metade do século XX, cujo modelo, seguiu vigente até meados dos anos 1960. Contudo, sob muitos aspectos, não seria exagero considerá-la atual, principalmente no que se refere à condição de discriminação, pobreza e exploração – grande parte em função de interesses estrangeiros – ao qual estas populações seguem ainda hoje submetidas. O que o autor não conseguiu captar, entretanto, diz respeito ao lado menos piedoso da história: a resistência organizada e autônoma das e dos sujeitos indígenas. É justamente enquanto Icaza escreve sua novela, entre as décadas de 1920 e 1930, que as expressões contemporâneas de luta e organização dos povos indígenas do Equador começam a se articular e consolidar de maneira institucionalizada.

Segundo o último censo, 7% dos aproximadamente 17 milhões de equatorianos se declara indígena3 e ao longo dos três séculos de colonização europeia e primeiros cem anos de república4 a exploração destes povos no território do que hoje é o Equador foi uma constante. A independência, a propósito, não significou mudança nas condições de vida destes grupos, uma vez que o Estado colonial apenas passou das mãos espanholas às elites criollas.5 Entretanto, durante todo este período houve organização, mobilização articulação, enfrentamentos e são vários os episódios de insurreição indígena em diferentes níveis e regiões do país. Aquilo se convencionou chamar de processo organizativo do movimento indígena equatoriano data aproximadamente de meados dos anos 1920. Muito em função, naquele início, da politização dos trabalhadores do campo influenciados pelas tendências socialistas que se consolidavam na região e em várias partes do mundo. Os trabalhadores rurais do Equador, em sua maioria indígenas, começaram a se organizar sob a forma de sindicatos que tinham como principal bandeira o fim da exploração latifundiária do modelo dos huasipungos. A década de 1930 foi marcada pelo esforço desses grupos de se articularem regional e nacionalmente, o que, obviamente incomodou o Estado. Em 1931 o I Congreso de Organizaciones Campesinas de Caymbe foi proibido de acontecer à base de repressão. Mas em 1934, a Conferencia de Cabecillas Indígenas, realizada em Quito, logrou finalmente estabelecer os fundamentos para a constituição de organizações indígenas em nível regional e nacional. O movimento, porém, teve como resposta, três anos depois, a Ley de Comunas, uma investida no sentido de submeter as comunidades aos marcos legais do Estado alterando sua estrutura tradicional.

Naquele contexto, a mobilização surgia a partir não de uma reivindicação identitária indígena, mas sob forma da articulação de trabalhadores rurais motivados pelas demandas de classe próprias do contexto da época, especialmente a reforma agrária. É por isso também que um dos marcos mais significativos desse período é a constituição da FEI, Federação Equatoriana de Índios, em 1944, a primeira a acolher nominalmente a representação indígena (os organismos anteriores utilizavam termos como campesinos, trabajadores ou obreros), mesmo sendo ela, em seu início, uma espécie de filial rural do Partido Comunista do Equador. Na região serrana do país a FEI foi a principal articuladora dos povos indígenas e, juntamente com a Federación de Trabajadores Agrícolas del Litoral (FETAL), protagoniza uma série de mobilizações de luta pela terra ao longo dos anos 1950 e 1960. Estes enfrentamentos resultaram em mortes e prisões ilegais, mas também trouxe conquistas, como a adoção por parte dos latifundiários de equipamentos que melhoraram as condições de trabalho e os vários casos de fazendeiros que, por conta da pressão, entregaram suas terras aos huasipungueiros abrindo o caminho para o que seria a primeira lei de Reforma Agrária do país, promulgada em 1964.

Encabeçada por um organismo estatal com o insólito nome de Instituto de Reforma Agraria y Colonización esta primeira lei não foi suficiente para acalmar os ânimos, pois favoreceu apenas uma parte da população que recebeu terras menos aptas à agricultura e com pouca ou nenhuma estrutura local. Uma das consequências dessa insatisfação foi a conformação, em 1972, do movimento ECUARUNARI (Ecuador Runacunapac Riccharimui)6, o primeiro verdadeiramente indígena da região serrana do país. Com origem no seio de movimentos católicos do auge da Teologia da Libertação, esta organização, que posteriormente aglutinou todas as demais da região serrana, tinha como objetivo inicial outra reforma agrária que fosse mais justa, porém, contemplando fortemente em suas reivindicações a dimensão étnica, o que incluía desde liberdade das formas de organização e tomadas de decisão a questões relativas à educação. Durante a década de 1970, porém, os movimentos indígenas no Equador eram ainda bastante descentralizados e carentes de representação em nível nacional. Nesse sentido, a ECUARUNARI teve um importante papel. Além da participação na conquista de mais benefícios na segunda reforma agrária, em 1973, foi uma das protagonistas do processo de cooperação entre organizações tanto nacional quanto internacional, fundando, em 1981, junto com Confederación Nacional de Indígenas de la Amazonía Ecuatoriana (CONFENAIE), o Consejo de Coordinación de Nacionalidades Indígenas del Ecuador (CONACNIE), do qual mais tarde, em 1986, nasceria a CONAIE.

De 1990 a 2019, passando por Montecristi

Os debates entre distintas perspectivas para as pautas indígenas foi central nas discussões da CONACNIE. Ao longo de seus cinco anos de existência o conselho buscou aglutinar as diferentes organizações indígenas ao redor do país, promover alianças com movimentos populares, como a Federación Nacional de Organizaciones Campesinas e a Frente Unitario de los Trabajadores, mas, principalmente, equalizar a “dupla dimensão” da luta indígena: de classe e de etnia. O conselho culminou em seu primeiro congresso, realizado em Quito, em novembro de 1986, no qual foi fundada a Confederación de Nacionalidades Indígenas del Ecuador, CONAIE, a maior organização indígena do Equador, uma das mais antigas e combativas da América Latina e uma importante representante dos movimentos sociais no continente.

Para além das organizações, a CONAIE reúne nacionalidades, povos, comunidades, centros e associações indígenas de todo Equador. Segundo informa em seu site, entre seus objetivos fundamentais estão o de “consolidar os povos e nacionalidades indígenas do Equador, lutar pela terra e territórios indígenas, lutar por uma educação própria (intercultural bilíngue), lutar contra a opressão das autoridades civis e eclesiais, lutar pela identidade cultural de povos indígenas, contra o colonialismo e pela dignidade de povos e nacionalidades indígenas”. Ao longo de seus quase 25 anos de existência, ficou conhecida pela organização de uma série de levantes populares que utilizaram como estratégia a ação direta com o uso de táticas como bloqueio de estradas e ocupação de prédios públicos. Entre estas mobilizações, as mais importantes protagonizadas ou com a participação da CONAIE são o Levantamiento del Inti Raymi, ou Primer Levantamiento, de 1990; o Levantamiento Indígena Nacional, em 1994; o paro nacional de 1997, que terminou com a destituição do então presidente Abdalá Bucarán; e a derrocada de Jamil Mahuad, uma das maiores mobilizações ocorridas até aquele momento no Equador e que resultou na renúncia do então presidente em janeiro de 2000.  Em 2005 a organização teve também uma participação, mais discreta, na Rebelión de los forajidos, que provocou a renúncia de Lúcio Gutierrez.

Ao longo do governo de Rafael Correa, porém, que iniciou com apoio da COINAIE, as diferenças internas se acentuaram. Já nos primeiros anos parte significativa das lideranças romperam com o governo e, ainda que as mobilizações nas ruas tivessem acalmado, em 2015 o movimento deu novamente mostras de sua capacidade organizando uma grande marcha que partiu da província de Zamora Chinchipe, no sul do país, em direção à capital em defesa da água e contra ampliação da mineração e exploração petroleira. Mas foi mesmo em 2019 que outra vez recobrou toda sua força de mobilização com a liderança das jornadas de outubro contra as políticas de austeridade do governo de Lenin Moreno e que por dez dias pararam completamente o país.7

A tentação de discorrer sobre cada uma dessas mobilizações – e muitas outras não mencionadas, mas com participação decisiva dos movimentos indígenas representados pela CONAIE – é grande, mas, para além do estereótipo que podem provocar, também ocultam outra dimensão fundamental do processo organizativo dos povos indígenas  do Equador: as articulações políticas capitaneadas por estes grupos e que mudaram significativamente a concepção e estrutura do Estado (ou, ao menos, impulsionaram este processo ainda em curso). Entre os motivos que explicam o êxito da CONAIE enquanto ator social em representação dos indígenas, certamente está a relevância da questão identitária e de classe, aliado à capacidade mais que demonstrada de mobilização que os colocou no espaço público como atores social e político impossíveis de serem ignorados. Aqui vale destacar, como abordaremos mais adiante, que estas noções de identidade, etnia, classe etc., ainda que muitas vezes utilizados pelas próprias organizações, são mais bem formas de “traduzir” dimensões complexas e heterogêneas vinculadas às percepções de mundo dos distintos povos e nacionalidades representados na CONAIE.

Logo dessa “posta em cena” promovida, se observou a necessidade de uma via para a ação política em nível institucional e em 1996 se constituiu o Movimiento de Unidad Plurinacional Pachakutik-Nuevo País (MUPP-NP), que, aproveitando a abertura das elites de então para candidaturas fora dos partidos políticos, propunha a participação política convencional sob a forma de movimento. Em 1997, após uma mobilização que incluiu a instituição, pela CONAIE, de uma constituinte alternativa, a Asamblea Nacional Constituyente del Pueblo, e da eleição de 7 deputados pelo Pachakutik para a Assembleia “não-alternativa”, o texto promulgado finalmente reconhecia o caráter pluricultural e multiétnico do Estado equatoriano, legitimando pela primeira vez a existência de povos e nacionalidades indígenas sujeitos de direitos coletivos, mesmo ainda não aceitando a plurinacionalidade.

Contudo, não foi senão em 2007 que algumas de suas reivindicações históricas se consolidaram institucionalmente por meio da constituição de Montecristi.8 A CONAIE, por meio do movimento Pachakutik, que se aliou ao governo de Rafael Correa na convocação de uma nova constituinte, teve participação decisiva na construção do novo texto. Além de reafirmar avanços da carta anterior e garantir direitos sociais e ambientais, como o direito à água, alimentação, universalização da saúde, o reconhecimento dos direitos da natureza, da conservação de práticas indígenas de manejo da biodiversidade, dos sistemas de medicina ancestral e justiça indígena, o documento declara o Equador como “Estado constitucional de direitos e justiça, social, democrático, soberano, independente, unitário, intercultural, plurinacional e laico”.9 No entanto, o reconhecimento explícito do direito coletivo ao autogoverno, do Quíchua e Shuar como idiomas oficiais junto ao espanhol e a integração de uma Assembleia Plurinacional na qual os povos e nacionalidades indígenas tivessem seus representantes, como no modelo boliviano, foram propostas que ficaram por avançar.

O cenário em 2020

Como dito, uma das grandes qualidades do Huasipungo de Icaza é a denúncia das formas da exploração exercida pelos latifundiários do início do século XX no Equador sobre a população indígena que vivia em uma espécie de neoescravidão: desumanizados e objetificados, tratados como mercadoria. Em um texto no qual analisa a obra de Icaza, a professora Lina Arao avalia que a intenção do autor não era apenas compor uma obra literária, mas fazer dela um instrumento para mostrar ao leitor uma realidade que se desconhecia. Ao compor o enredo, entretanto, Icaza não consegue ir além da representação estereotipada. Suas personagens indígenas não passam de figuras planas e as poucas que têm nome surgem apenas como signo do grupo que representa, “incapazes de refletir sobre a sua própria realidade e de agir em prol de uma transformação”. Dito de outra forma, Icaza foi bastante eficiente ao descrever as estruturas que oprimiam os indígenas, mas muito pouco ao fazer o mesmo com os indígenas oprimidos.

Em seus 24 anos de existência Pachakutik participou de cinco eleições presidenciais e apenas em 2006 teve um candidato próprio indígena.10 Mesmo depois das mobilizações que depuseram a Jamil Mahuad, naquele que foi, talvez, o seu momento de maior capital político, o que o movimento fez foi compor a chapa vencedora que levou Lucio Gutierrez, do Partido Sociedad Patriotica, ao poder. Em 2019, entretanto, dois nomes com potencial se posicionaram no debate público e passaram a fazer parte do noticiário político em função do protagonismo exercido nas jornadas de outubro: Jaime Vargas, presidente da CONAIE, e Leonidas Iza, presidente do Movimiento Indígena y Campesino de Cotopaxi. Vargas foi a cara daquelas mobilizações, não só como porta-voz, mas como líder efetivo do movimento que ocupou as ruas de Quito. Iza, por sua vez, além da liderança teve um empurrão midiático: durante a mesa de diálogo que pôs fim às manifestações, mediada pela ONU e a Conferência Episcopal do Equador e transmitida em rede nacional, fez um discurso sereno, propositivo e incisivo que conseguiu captar e capturar o sentimento de boa parte da população. Seu nome logo passou a ser considerado entre os potenciais candidatos e nas duas pesquisas que o relacionaram, em dezembro de 2019 (sem Rafael Correa) e em fevereiro de 2020 (com Rafael Correa), liderava a primeira e dividia a vice-liderança com Jaime Vargas na segunda. Uma chapa com Iza e Vargas se projetava com grandes chances eleitorais e ambos chegaram a ser anunciados como pré-candidatos no início de agosto. Outro nome, porém, irrompeu um cenário que parecia óbvio: Yaku Sacha Perez Guartambel, prefeito11 da província de Azuay.

A trajetória de Yaku é longa,12 mas para ser sucinto, foi registrado ao nascer com o nome de Carlos Ranulfo, na comunidade Cachipucara, em Tarqui, paróquia rural do município de Cuenca (a terceira cidade mais importante do Equador). Filho de trabalhadores de uma fazenda, desde a juventude se envolveu com movimentos de defesa dos recursos naturais, principalmente água, chegando a ser eleito concejal (similar a um vereador) de sua cidade, em 1996. Yaku Sacha, que adotou o nome em 2017, segundo ele, como parte do seu processo de descolonização,13 foi presidente da ECUARUNARI e figura ativa em muitas das mobilizações indígenas mencionadas anteriormente. A mais marcante, talvez, tenha sido a de 2015, quando as tensões com o correísmo, que já o havia acusado de terrorismo em 2011, ganharam atenção internacional. Naquela ocasião, durante as manifestações de 13 de agosto, Yaku e sua companheira, a franco-brasileira Manuela Picq, filha da economista e professora da UFRJ Lena Lavinas, foram presos e agredidos. Manuela, que desde 2007 trabalhava no país como professora universitária e jornalista, teve seu visto cancelado no dia seguinte e seguiu presa, sem ordem judicial, até o dia 21, quando foi finalmente deportada para retornar ao país apenas em 2018, já no governo de Lenin Moreno. A história em torno deste acontecimento rendeu até um documentário, La Manuela, dirigido por Clara Linhart e lançado em 2019. Yaku se tornou uma das lideranças indígenas mais críticas ao correísmo, chegando a apoiar a candidatura de Guillermo Lasso no 2º turno das eleições em 2017, afirmando que era “preferível um banqueiro que uma ditadura”. Nas eleições regionais de 2019 foi eleito prefeito da província de Azuay, para um mandato que terminaria em 2022, mas que renunciou para disputar a presidência, depois que Vargas e Iza, com  surpresa de alguns e descontentamento da CONAIE, renunciaram às suas pré-candidaturas criticando processo interno e a falta de vontade política do movimento Pachakutik.

A posterior ratificação de Yaku Perez como candidato provocou todo tipo de análises e críticas, a depender do espectro político do analista, que se intensificaram ainda mais quando o movimento anunciou o nome de Larissa Marangoni, uma filantropa herdeira das elites guaiaquilenhas,14 como candidata a vice na mesma chapa. Nas redes sociais proliferaram publicações nem tão antigas assim de Larissa, argumentando, entre outras, em favor da privatização do Seguro Social e de que o Equador, por sua incapacidade, entregasse as ilhas Galápagos à administração de outro país. A intensidade dessa avalanche fez a própria candidata declinar de sua postulação poucos dias depois, mas o fato é que todo o processo expôs publicamente diferenças internas que o movimento indígena, ao longo da sua história teve o cuidado de tratar internamente. Entre os “de fora” falou-se em perda de uma oportunidade histórica, em “má influência dos jovens” radicais e mal-humorados, em ruptura interna no movimento indígena e até num suposto radicalismo mariateguista.  Para os mais serenos, em geral, esta disputa se resume a um embate entre uma linha ecologista e outra marxista.

Sem entrar no mérito, nota-se como as ideias de que o movimento indígena equatoriano seria uniforme ou se distinguiria a partir de categorias como “ecologista” ou “marxista” já apontam a leituras bastante equivocadas. Em uma entrevista publicada pouco depois dos acontecimentos, Atawallpa Oviedo – que acompanha e escreve há anos sobre os indígenas no Equador – diz que, ainda que a realidade que atravessa historicamente o movimento e o mantenha unido seja a situação de racismo e discriminação institucionalizada no Estado, as demandas indígenas, mais que uma luta contra essa estrutura, é uma posição ontológica e epistêmica. É evidente que internamente há posições variadas e que muitas delas se identificam ou até podem ser compreendidas a partir desta ou aquela vertente de pensamento, mas a tendência de tentar compreender as motivações e atuação política e social dos povos indígenas do Equador a partir dessas referências não difere muito daquilo que fez Jorge Icaza há quase cem anos quando escreveu seu clássico. É como reduzir a complexidade e multiplicidade das formas de ser e estar destas populações a uma espécie de huasipungo conceitual no qual, novamente, percebe-se bem (ainda que nem sempre) os mecanismos da opressão, mas muito pouco da diversidade, matrizes, perspectivas e estratégias dos considerados oprimidos.


Notas

* – Este texto é o segundo de uma série para a Revista Ouro Canibal na qual abordamos aspectos do contexto histórico político do Equador prévio às eleições no país que ocorrerão em fevereiro de 2021. O primeiro texto pode ser lido em https://revistaourocanibal.com/2020/10/08/eleicoes-no-equador-sobre-politica-vulcoes-e-mobilizacao-social/

** – Doutorando em Ciências da Comunicação pela Universidade de Coimbra (Portugal), mestre em Comunicação com Menção em Estudos de Recepção Midiática pela Universidade Andina Simón Bolívar, sede Equador. Graduado em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (Brasil) com especialização em Marketing Empresarial pela mesma universidade. Integra o núcleo Yllanay de pesquisa da comunicação, associado à Rede AMLAT (Rede Temática de Cooperação Científica, Comunicação, Cidadania, Educação e Integração para a América Latina).

1 – Ver também: https://revistaourocanibal.com/2020/09/10/corpos-perifericos-projetos-subversivos/

2 – Cholo é um termo depreciativo para se referir ao mestiço filho de branco e indígena.

3 – Desde o censo de 2000 a metodologia de utilizada para quantificação desta população é a autoidentificação, em detrimento de outros critérios utilizados anteriormente, como língua falada, por exemplo. Entretanto, para alguns líderes, este número poderia chegar aos 45% se todos os indígenas do Equador se declarassem como tais. Ver https://www.acnur.org/fileadmin/Documentos/Publicaciones/2009/7015.pdf

4 – O processo de independência equatoriano se deu em várias etapas. Em 1822, com a Batalha de Pichincha ocorre a independência da Real Audiência de Quito, em 1824 ela é anexada à Gran Colômbia da qual, após dissolução, emerge os contornos territoriais, simbólicos e institucionais mais próximos do Equador contemporâneo. 

5 – Durante o período colonial os criollos é como eram chamados os descendentes de europeus nascido na colônia.

6 – Expressão em quíchua que segundo Philipp Altmann (2013) significa “O despertar dos indígenas do Equador”

7 – Comentei sobre esta mobilização no texto anterior, onde também compartilhei o link para a publicação Ecuador, la insurrección de octubre, promovida pela CLACSO que se aprofunda nos acontecimentos daqueles dias.

8 – Montecristi, pequena cidade na província de Manabí, litoral equatoriano, é a terra natal de Eloy Alfaro, ex-presidente e líder da Revolução Liberal Equatoriana do início do século XX. A cidade recebeu entre 2007 e 2008 a Assembleia Constituinte que resultou na atual constituição equatoriana e que leva extraoficialmente o nome da cidade.

9 – O texto, com grifo do autor, é uma tradução livre da primeira frase do primeiro artigo do capítulo 1 da constituição de 2008, disponível em https://www.acnur.org/fileadmin/Documentos/BDL/2008/6716.pdf

10 – Em 2006 o candidato de Pachakutik foi Luis Macas, líder indígena de nacionalidade Kichwa e ex-presidente da CONAIE. Em todas as demais eleições presidenciais desde a fundação de Pachakutik (1996, 2002, 2013 e 2017) o movimento participou em aliança com outros partidos apoiando candidatos não-indígenas.  

11 – O “prefecto” no sistema político equatoriano é o responsável pelo governo provincial eleito por voto direto a cada 4 anos. Se assemelha ao governador, no sistema brasileiro.

12 – É possível conhecê-lo um pouco melhor nesta entrevista.

13 – Yaku Sacha significa “água do monte” nos idiomas cañarí e quíchua, respectivamente.

14 – Em seu perfil no Twitter Larissa Maragoni se identifica como artista e diretora da Aprofe (Asociación Pro Bienestar De La Familia Ecuatoriana), uma instituição sem fins lucrativos fundada por seu pai.

Bibliografia

Altmann, Phillipp. (2013). Una breve historia de las organizaciones del Movimiento Indígena del Ecuador. Antropología Cuadernos de investigación, (12), 105-121.

Arao, L. (2016). A Representação do Indígena em Huasipungo, de Jorge Icaza. Terra Roxa e Outras Terras: Revista de Estudos Literários9, 107-116.

CONAIE. (1989). Las nacionalidades indígenas en el Ecuador. Nuestro Proceso organizativo. Quito: CONAIE, Abya-Yala

Sánchez, Francisco y Freidenberg, Flavia. (1998). “El proceso de incorporación política de los sectores indígenas en el Ecuador. Pachakutik, un caso de estudio.” En: América Latina Hoy, 19, 65-79.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s