Exu narrador e as sete casas: práticas religiosas na tríplice-fronteira, Brasil, Paraguai e Argentina

Wilson Tibério

Mauricio dos Santos1

“Você não me conhece, mas já ouviu falar,

Você não me conhece, mas já ouviu falar”

(CANTIGA AFRO-BRASILEIRA)

Esta prosa tem o intento de caracterizar algumas das práticas religiosas localizadas na tríplice-fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina. EU SOU EXU, mensageiro religioso afro-brasileiro, e vou contar a respeito de sete das minhas passagens, por Ciudad del Este, Puerto Iguazu e Foz do Iguaçu. Meu cetro é um forcado de três pontas agudas, que uso especialmente para me movimentar entre o tempo e o espaço (VERGER, 1999), popularmente conhecido como tridente, é uma alusão a meu falo, embora posso concordar com alguns/umas que dizem talvez seja influência das representações do diabo europeu. E, ainda que tenham assimilado meu tridente como diabólico, ele pode ser uma menção ao meu cabelo arrumado de forma fálica, juntamente com dois chifres, que são insígnias de sobrepujança africana. Visto que representações minhas, como humanos/as, mas com rabos e com chifres, além da América Latina já foram encontradas na África Ocidental, no século XIX (PARRINDER, 1949).

Mas, dito isso, quero relacionar a noção de tríplice, inspirada pelo conceito de tríplice-fronteira, à noção de tridente. Pois se, tríplice tem o significado de multiplicado por três, as encruzilhadas para mim são iguais, por serem multiplicadoras de caminhos, são igualmente tridentes meus. Ou seja, tridentes e encruzilhadas, sejam de três ou quatro pontas, são elementos representativos das noções de limítrofes ou não limítrofes, visto que para as religiões afro-brasileiras, as encruzilhadas com quatro pontas são masculinas e fálicas e as com três pontas são femininas e vaginais.

Mas o que as encruzilhadas, na tríplice-fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, têm de  diferente das outras? É que pelo menos em uma dessas encruzilhadas as práticas religiosas afro-brasileiras acontecem dentro da água, nos encontros dos rios Iguaçu e Paraná. Sendo que, desde a década de 70, nos dias 02 fevereiro, ocorrem as Festas de Iemanjá, depois de procissão terrestre e fluvial, os/as religiosos/as paraguaios/as, argentinos/as e brasileiros/as deixam as oferendas neste referido lugar, além de Iemanjá, Oxum – porque é a dona dos rios – e Xangô – porque têm muitas pedreiras a beira dos rios – também são agradados/as. (SANTOS, 2016). E eu como emissário que sou, apanho as oferendas/remetentes e encaminho aos/às devidos/as-destinatários/as. Cabe lembrar, que já cruzei e cruzo “encruzilhadas fluviais”, pois a maior encruzilhada do mundo foi e é o Oceano Atlântico.

Outra coisa que me pareceu curiosa foi o conceito de fronteira, pois aos/as que sabem eu repito, e aos/as que não sabem eu vos digo, que eu gosto mesmo é de viver nos limítrofes. E por isso sou muito procurado para abrir caminhos, expressão afro-brasileira que alude ao período de escravagistas e escravizados/as no Brasil, na qual muitos/as africanos/as desejavam ganhar caminho, longe dos/as colonizadores/as europeus/ias, muitos/as ansiavam os quilombos. Mas, fronteira me lembrou de outro conceito afro-brasileiro, o de tronqueira, esse que é lugar onde ficam as representações desse que vos escreve. Mas, fronteira e tronqueira, são mais assemelhadas do que parecem, porque se, as fronteiras são lugares limítrofes ou não limítrofes, as tronqueiras igualmente são, uma vez que estas cumprem a atribuição de serem as fronteiras dentro dos espaços domésticos das comunidades religiosas afro-brasileiras, pois nessa ressignificação cosmopolítica, esses espaços religiosos – tronqueiras – representam os tempos/espaços limítrofes – fronteiras -, como por exemplo, casa/rua, vida/morte, dia/noite.

Mas, para ganhar caminho, adiante, deixemos de lado essas noções de tríplice e tridente, de fronteira e tronqueira e passamos a alcovitar outras práticas religiosas:

A primeira casa onde passei foi a Mesquita Omar Ibn Al-Khattab, na Rua Meca no Jardim Central em Foz do Iguaçu, é importante dizer que se trata de uma mesquita Sunita, e  lá os/as religiosos/as entoavam maravilhosos cânticos e preces a Alá – a designação muçulmana de Deus. E lá contei que há certo tempo, eu recebi a opção de escolher entre duas cabaças. A primeira continha o pó mágico referente aos elementos que positivaram a vida no universo, enquanto na segunda estava outro pó, referente aos elementos que negativaram a vida no universo. Frente ao dilema entre as duas opções, eu acabei surpreendendo a todos quando optei por uma terceira cabaça, que estava vazia. E assim foi feito: trouxeram-me a terceira cabaça, retirei o que havia na primeira — o pó mágico referente aos elementos positivadores — e despejei na cabaça vazia, e fiz igual com a segunda cabaça, retirei dela os elementos negativadores e os despejei na terceira cabeça. Então, chacoalhei misturando os dois elementos, e em seguida, assoprei esse pó no universo. A mistura rapidamente se espalhou por todos os cantos, sendo impossível se dizer o que era parte de um pó ou do outro, mas, agora, um único, um terceiro elemento, que não nem bom e nem mal, mas misturado (RUFINO, 2018).

A segunda casa onde passei foi a Catedral Diocesana Nossa Senhora de Guadalupe, na Avenida Paraná, Vila A em Foz do Iguaçu. Lá, ao longe, os/as devotos/as rezavam e cantavam a Nossa Senhora de Guadalupe e a Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo — isso é, Deus como três pessoas consubstanciadas. Chegando lá, falei da vez em que Mawu criou as mulheres, ele não sabia onde colocar as vaginas. Depois de muitas tentativas, fixou-as sobre as axilas, porém não era um bom lugar, pois seu cheiro ofendia o nariz e as mulheres passaram a levantar os braços para exibi-las. Eu, que nessa época também não tinha um sexo, resolvi ajudar Mawu. Depois de  ter consultado Ifá e de realizar as dádivas que ele me recomendou. Disse que as vaginas fossem colocadas entre suas pernas, e assim foi feito. Eu desde então, por ter realizado tal façanha, adquiri o direito de andar por aí com o pênis adquirido à mostra, para que todos/as lembrem que foi eu quem ajudou a encontrar o lugar para as vaginas (MAUPOIL, 1943).

A terceira casa onde passei foi o Templo Budista Chen Tien, na Rua Dr. Josivalter Vila Nova, Jardim Califórnia em Foz do Iguaçu. Acolá estavam meditativos/as buscando iluminação conjuntamente a Buda – referindo-se especialmente a Siddharta Gautama (563-483 A.C.). E cantei os seguintes versos: que certo mensageiro andava procurando possíveis dissoluções das enfermidades, pobrezas e mortes precoces que incomodavam bichos, minérios, plantas, divindades e humanos/as, esse emissário era chamado de Exu. Eu escutava as peripécias, alegres ou tristes, habituais ou maravilhosas de todos/as e por mais insignificantes que poderiam sugestionar às narrativas, Eu as ponderava e as contemplava. Nessa empreitada fiquei cuidadoso ao que os indivíduos[2]  faziam para solucionar as suas dificuldades. E assim, reuni 201 das narrativas que escutei — 201 que significa na cosmopolítica Iorubá, uma possibilidade infinita de narrações — depois de realizar essa pacientíssima obra, reuni, assim, várias possibilidades de enfrentamento das moléstias dos/as bichos, minérios, plantas, divindades e humanos/as. E assim me tornei o mensageiro das peripécias, alegres ou tristes, habituais ou maravilhosas de todos/as.

A quarta casa que onde passei foi o CEPAC – Centro Espírita Paz, Amor e Caridade, na Rua Quintino Bocaiúva, Centro em Foz do Iguaçu, nesse lugar rezavam médiuns cristãos/ãs, e, às vezes, faziam referências a Allan Kardec — que notabilizou-se como o codificador do Espiritismo. Foi aí que puxei a conversa: Mawú criou Ayìkúngban, o mundo, e atribuiu funções aos seus filhos. Gun recebeu o poder de forjar os metais para produzir ferramentas de cultivo e guerra. Sakpatá recebeu a primazia de comandar as coisas terrenas e os poderes do sol. Agué foi encarregado das plantas e dos animais das florestas. Sô recebeu o poder de comandar o frio e o calor. Agbê recebeu o poder de comandar os mares. E assim os Voduns, eram centenas, foram ganhando funções. Menos Legbá, Eu, o mais novo, que não ganhou nada e fui zombado pelos/as outros/as. Mandem Legbá trabalhar! Legbá é inútil! Todos/as falamos. Como Eu era criança, permaneci juntinho de Mawu, agarrado na barra da saia da Grande Mãe. Mawú me ensinou a língua específica de cada Vodun e coube a Djó ensinar o poder da palavra aos homens. Os/as Voduns e os/as humanos/as passaram a usar as suas línguas e aprenderam a dominar as línguas dos/as outros/as. Todos/as se sentiram muito sábios/as. O problema é que todos/as esqueceram da língua de Mawu e perderam a conexão com o princípio da criação. Menos Eu, Legbá, o caçula, que por ser criança não tinha ganhado nada, e por ter ficado ao lado da Mãe, sabia falar a língua dela. É por isso que os Voduns, as mulheres e os homens precisam de Mim para falar com Mawu. Só Eu — que fui zombado —  tenho a capacidade de levar e trazer as mensagens de todos/as até Mawu, para que os Voduns e os/as humanos/as possam entender as dádivas e bel-prazeres da Mãe do Mundo (SIMAS, 2013).

A quinta casa onde passei foi a Iglesia Adventista del Séptimo Dia, na Rua Ricardo Balbín, em Puerto Iguazú, Misiones, Argentina, ali oravam os/as evangélicos/as a Deus e a Jesus Cristo. É importante falar mais dessa casa que esses/as religiosos/as não representam os/as evangélicos/as, disseram que nem eles/elas consideram isso, nem os/as outros/as evangélicos/as. E num bate-papo como costumeiro, provei que Xangô era o prestigioso e temível rei de Oyó. Mas não contente solicitou para mim um feitiço capaz de somar ainda mais seu poder. E arranjei um feitiço que fazia o fogo sair pela boca para ele. A esposa de Xangô, Oyá incumbida de buscar o preparado, experimentou o preparado e começou a lançar labaredas quando falava. Xangô, irado, perseguiu a mulher, que fugiu. E finalmente, quando tomou a poção, passou a cuspir fogo. Depois de tomarem essa poção, Oyá e Xangô, os dois juntos, se transformaram em divindades e passaram a compartilhar o bem do fogo (COURLANDER, 1973).

A sexta casa onde passei foi Ilê Axé D´Xango Kaô, em Ciudad Del Este, Alto Paraná, Paraguai, e ali eu me senti em casa, os/as religiosos/as cantavam e dançavam para as divindades afro-brasileiras e/ou afro-paraguaias, e eu embolsei as cantorias e os atos de danças. Mas não me aguentei e falei, teve um dia em que todas as divindades estavam sobrecarregadas com seus afazeres e Olofin precisava decidir quem cuidaria do destino dos/as humanos/as. Assim, chamou Orunmilá e Iku — Morte — para uma disputa,  que era o seguinte quem ficasse três dias sem comer seria o vencedor. Eu fui escolhido para ser o fiscal. Eu era muito amigo de Orunmilá e armei uma armadilha. Assei uma galinha e fingi que Eu e Orunmilá estávamos comendo. Entretanto, de fato, só eu comia; Orunmilá apenas sujava as mãos para fingir que comia. Iku, vendo isso, quis participar do banquete e, ao comer a galinha, perdeu a aposta. Orunmilá, vitorioso, tornou-se o orientador dos destinos  dos/as humanos/as (MARTINS, 2005). Mas Iku quis uma revanche, e me desafiou para um duelo. Iku não me respeitava. E eu não achava certo ele ficar atormentando os/as humanos/as. Eu estava muito confiante, e aceitei o desafio. E no dia conspícuo nos enfrentamos lançando palavras de desafio um para o outro. A peleja foi acirrada, mas Iku conseguiu retirar de minhas mãos meu Ogó — cetro de Exu — e iria me matar, se não fosse Orunmilá, que interveio e me salvou.  E por isso até hoje dizemos: “Ninguém pode tirar a vida da Morte” (COURLANDER, 1973).

A sétima casa onde passei foi o CEAEC – Centro de Altos Estudos da Conscienciologia, na Rua da Cosmoética, Cognópolis, em Foz do Iguaçu. Lá Eu ouvi: “Conscienciologia é um movimento dissidente do espiritismo e de autonomeação científica, fundada pelo médico e médium Waldo Vieira”. Cabe frisar que esses/essas praticantes se consideram como estudiosos/as e/ou científicos/as, mas bem sabemos que o que o povo fala é outra coisa, é que eles/as são bem religiosos/as. Enfim, eu fui ver para crer e aproveitei o ensejo e contei: Oxalá me pediu que lhe servisse como refeição, a melhor coisa do mundo. Eu fui até o mercado, comprei a língua bovina, preparei e dei ao Senhor do Pano Branco. Farto de tanto comer, Oxalá aprovou a escolha e para o dia seguinte, solicitou que lhe fosse dado para comer a pior coisa do mundo. Novamente, eu preparei a língua bovina. Oxalá não entendeu a repetição do prato até que ouviu a explicação: “A língua pode ser boa ou ruim, dependendo do seu uso” (MARTINS,2015).

A prosa está boa, mas eu preciso ir, tenho ainda outros lugares para passar. Vocês estão ouvindo? Já estão me chamando: “Alákétu Rè Kétu Bará, Èsú Máa Ló” que quer dizer  Senhor de Kétu, É o Exu do povo de Ketu, E Exu irá embora.

Notas

Mauricio dos Santos, Mauricio dos Santos nasceu em uma encruzilhada em Medianeira – PR, abriu caminho em Foz do Iguaçu na tríplice-fronteira e corre gira pelo Paraguai e Argentina. Costuma ouvir que Exu fala todas as línguas, inclusive pelas de Paulo Freire, Kabengele Munanga e de Allan da Rosa. Costuma ver Exu em todas suas moradas e em lugar nenhum, mas sabe que é em Exu no estado do Pernambuco seu CEP. Costuma tatear Exu na Literatura de Cordel, cheirar Exu na Capoeira, e comer com Exu no Samba, nas Mitologias Brasileiras e no vocabulário “luso-afro-tupi” do Brasil, ou melhor, conforme Lélia Gonzáles: “pretoguês”, essa é a linguagem de Exu e do Brasil, que tem todo um ABC encruzilhado de Nordeste a Sul, de Leste a Oeste, de dentro e de fora, e expandido em si mesmo. Com o Pajubá, linguagem das ruas LGBT+, esse filho de Oxóssi com Oxum é graduado em Antropologia – Diversidade Cultural Latino-Americana, mestre em Estudos Interdisciplinares Latino-Americanos pela UNILA – Universidade Federal da Integração Latino-Americana, e espera ser grão de farofa na tarefa antirracista de OUVIR O QUE EXU TEM A DIZER. Contato via medianeira.mauricio@gmail.com

Referências:

COURLANDER, Harold. Tales of yoruba gods and heroes. New York: Crown, 1973.

DOS SANTOS, Mauricio. “Kosi Falá, Kosi Orixá”, Língua de Santo: uma linguagem afro-brasileira. 2018:131. Dissertação de Mestrado Interdisciplinar em Estudos Latino Americanos. Universidade Federal da Integração Latino Americana, 2018.

JUNIOR, Luiz Rufino Rodrigues. Pedagogia das Encruzilhadas. Periferia, v. 10, n. 1, p. 71-88, 2018.

MARTINS, Adilson. Lendas de Exu. Pallas Editora, 2015.

MAUPOIL, Bernard. La géomancie à I´ancienne Côte dês Esclaves. Paris: Institut d`Ethnologie, 1988.

PARRINDER, Geoffrey. West African Religion. London: Epworth, 1949.

SILVA, Vagner Gonçalves da. Exu: o guardião da casa do futuro. Rio de Janeiro: Pallas, 2015.

SIMAS, Luiz Antônio. Pedrinhas miudinhas: ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros. MV Serviços e Editora LTDA-Mórula Editorial, 2013.

VERGER, Pierre. Notas sobre o culto aos orixás e voduns na Bahia de Todos os Santos, no Brasil, e na antiga costa dos escravos, na África. Edusp, 1999.

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