Galeria: Marilza Ribeiro

Marilza Ribeiro

Em caminhar está o segredo

Marilza Ribeiro

Desde sempre estive envolvida com arte. Lá na infância, ainda sem saber escrever, rabiscava as calçadas de casa com um caco de telha. Riscava livros e cadernos velhos de minhas irmãs e as deixava desconcertadas. Até que, um dia, resolveram que era melhor eu estar em um lugar apropriado para fazer meus “desenhos”. Entrei para a Casa de Artes e Ofícios Paulo VI, tendo como mestre o artista Henrique de Aragão.

O ambiente era todo envolto em cultura e se respirava Arte por todo canto. Desenhávamos uns aos outros, outras vezes eram os exóticos objetos que decoravam o local, noutras, a exuberante flora que enfeitava os jardins úmidos. Aos poucos fui aprendendo a lidar com os diversos materiais e pude perceber qual era o mais apropriado para desenvolver meus trabalhos.

Adotei de início um traço decidido que geometrizava as feições e as demais formas. Trabalhei com nanquim e bico de pena, que me permitiam a linha fina e limpa. Para aproximar-me das cores e familiarizar-me com seus encontros inusitados, canetas coloridas. Na pintura, óleo sobre tela arrastando a tinta com uma espátula, que conferia densidade e encorpava as imagens. Na colagem, papel dobradura e outros com uma gramatura mais definida.

Estar envolvida com Arte foi quase sempre uma necessidade. Porque a voz inaudível de um sentimento nos grita e sussurra através de uma obra de arte. Na adolescência, um sem número de vozes grita dentro de nós. Tudo se agita e se aquieta em questão de segundos para sumir logo em seguida. Assim eu buscava uma definição para meu trabalho. Uma rota para definir meu traço.

Sempre tive uma predileção por representar formas femininas mesmo que não estivessem claramente estampadas nos trabalhos. Curvas, não aquelas que definem corpos mas as que definem interiores, que contornam sentimentos. Que geralmente se encontram na forte fragilidade feminina. Porque não é na aparência que se enxerga a beleza. A verdadeira beleza se esconde dentro de cada um. Nem sempre se vê de longe.

Dentro da Casa de Artes e, depois, na Fundação Cultural, participei de várias exposições. O sonho sempre foi cursar Artes mas como deveria passar pelo estágio e atuar em sala de aula, acabei por desistir. Guardei o sonho no bolso e fui cursar Jornalismo, que também não conclui e entrei para o banco três anos depois. Fiquei por trinta anos.

Nunca deixei a Arte sair de mim e, depois de me aposentar, resolvi cursar Artes Visuais. Sonho realizado. Desde o primeiro ano, fui tomada por uma torrente criativa, uma necessidade de estar trabalhando com todo tipo de material. Com todas as técnicas possíveis. Experimentando. Aproveitando avidamente cada dia dentro da Universidade. Momento de revitalizar as ideias, renovar amizades e costurar mais um pedaço do caminhar com a ajuda da Arte.

Mantive o mesmo traço mas aprendi a deixá-lo mais à vontade. Soltei-o para que fosse em busca de seu próprio caminhar. E nesse caminhar de um novo traçado, encontrei o verdadeiro sentido de estar num banco escolar nesse momento da vida. Foi um retorno pra mim mesma. Um reencontro com alguém que eu abandonara mas que ainda vivia em busca de uma fresta para se mostrar. Muitas possibilidades se abrem quando se mantem os olhos aptos para ver. Os pés dispostos a caminhar por novas trilhas. Moldar com os pés o caminho que se insinua à sua frente e deixar-se conduzir sem medo nem amarras.

Galeria

Seca, 1976
Nanquim sobre papel cartão.
Obra produzida após a leitura do livro “O quinze”, de Rachel de Queiroz.
Perda, 1977
Xilogravura sobre placa de duratex.
Obra produzida por influência de lendas brasileiras.
Mar, 1977
Xilogravura sobre placa de duratex.
Obra produzida por influência de lendas brasileiras.
Estudo para Família, 1979
Lápis sobre papel canson.
Desenho produzido tendo como modelo colegas de escola.
Família, 1979
Óleo sobre tela
Fim de um dia de trabalho cuja única beleza é o por do sol
Brasil, 2015
Lápis sobre papel canson
A verdadeira cara do Brasil
Mulheres, 1977
Nanquim sobre papel
A seca descrita na literatura brasileira com um toque de Gauguin
Tatuagem, 1977
Nanquim sobre papel
As formas e os mistérios femininos sempre belos e enigmáticos
Moça, 1981
Nanquim sobre papel canson
Sobre a força delicada das mulheres
Alegoria em preto e branco, 1976
Nanquim sobre papel
Nem sempre a alegria vem em cores
Alegoria, 1980
Nanquim e canetinha colorida sobre papel
Tudo o que constrói um país tropical nem sempre é colorido
Imagem, 1976
Canetinha colorida sobre papel cartão
Sobre uma mulher sedutora e muito forte. Uma deusa ou uma dançarina de cabaré?
Berlinda, 1977
Canetinha colorida sobre papel
A mulher com sua força consegue ofuscar tudo ao seu redor
Imagem II, 1976
Canetinha colorida sobre papel
Mulher, origem da vida. Deusa ou dançarina?
Quatro poses, 1977
Canetinha colorida sobre papel
Formas da força feminina
Queimada, 1977
Colagem e nanquim sobre cartolina
A seca provocada pelo homem incomoda e transforma a paisagem
Paisagem marinha, 2018
Guache e colagem sobre papel cartão
Seres da terra e do ar que formam a paisagem marinha
Fundo do mar, 2018
Guache e colagem sobre papel cartão
Seres do fundo do mar ainda existem, acredito
Paisagem de Minas, 2019
Colagem sobre papel canson
Sobre as deslumbrantes paisagens de Minas Gerais, recortadas pelo verde
Bambu, 2019
Colagem sobre papel cartão
Bambus que enfeitam as montanhas de Minas e cuja presença os passageiros do trem nem sequer percebem
Até quando? 2019
Cerâmica sobre placa de metal com cimento
Porque, mesmo estando em destaque, ainda persistem as correntes? Até quando?

Marilza Ribeiro

Bancária aposentada, atualmente cursando o terceiro ano de Artes Visuais na UEL-Universidade Estadual de Londrina. Frequentou (desde meados de 1973) cursos de desenho, pintura, cerâmica, literatura e teatro na Casa de Artes e Ofícios Paulo VI em Ibiporã-Pr. Participou de cursos das mesmas modalidades na Fundação Cultural de Ibiporã. Inúmeras participações em exposições artísticas nas duas instituições Dois livros publicados sendo o primeiro “Retrato de criança”, autobiográfico, e o segundo de poemas próprios e de alguns autores encontrados ao longo da caminhada sob o título “Poesia pelo caminho”. 

1 Comment

  1. Difícil dizer o que é mais lindo. Se suas palavras ou suas imagens… Talvez ambas ocupem o mesmo espaço, grande, reservado a beleza da arte que possui minha alma. Cada qual ascendendo por completo em minha mente o setor responsável pela interpretação, seja das cores e formas, ou seja do processamento de palavras.
    Saudades, Marilza… Saudades de ti, e de nosso Grande mestre e amigo que já se encontra entre os astros vagando no cosmos, Henrique de Aragão…

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