Eleições no Equador: sobre política, vulcões e mobilização social

Sangay

Por Bruno Dias*

Talvez você não tenha visto essa notícia por aí, mas no último 20 de setembro o vulcão Sangay, localizado na região central do Equador e relativamente afastado da população, teve sua erupção mais forte dos últimos 400 anos. A atividade durou pouco mais de duas horas e levantou uma coluna de cinzas de quase 10 quilômetros de altura que se espalhou por parte significativa do território equatoriano, comprometendo, além do trânsito, do fluxo nos aeroportos e algumas plantações, a saúde da população, já bastante demandada pela Covid-19. O vulcão está em atividade desde maio de 2019 (a anterior havia ocorrido em 1628) e agora completa, junto com El Reventador, na região amazônica, e Fernandina e Sierra Negra, nas Ilhas Galápagos, a lista de vulcões em erupção no país.

Com um território pequeno em comparação aos vizinhos, o Equador abriga aproximadamente 100 vulcões. Na América do Sul, esse número é superado apenas pelo Chile, que possui uma área três vezes maior. Além dos vulcões que estão em erupção neste exato momento, há ainda ao menos outros 13 classificados como ativos, que são aqueles que registraram atividade eruptiva nos últimos 500 anos (a maioria no século XX) além de manterem intensas movimentações internas, chegando em alguns casos a expelir gases e cinzas1.

Um desses é o Cotopaxi, cujo pico nevado, visível desde quase toda Quito, a apenas 60 quilômetro de distância, é um dos cartões postais do país. O Cotopaxi é, também, um dos vulcões ativos mais altos e com maior potencial de destruição do mundo. No dia 14 de agosto de 2015, depois de alguns meses registrando aumento progressivo de atividade, o Instituto Geofísico, que monitora o vulcão, relatou duas explosões de baixa intensidade. No mesmo dia, cinzas cobriram as estradas e urbes vizinhas e pôs a capital em alerta vermelho, preparando-se para o pior. A expectativa era que a qualquer momento o vulcão poderia novamente entrar em erupção, algo perfeitamente coerente com seu ciclo eruptivo, de aproximadamente 100 anos. Com um glaciar dessa magnitude, acumulado ao longo do último século, apenas o lahar (a avalanche de lama e material vulcânico resultante da explosão) teria o poder de soterrar povoados inteiros, destruir plantações e contaminar rios, comprometendo, assim, o abastecimento de quase todo o país. A população seguia a vida atenta aos alertas do Servicio Nacional de Gestión de Riesgos a espera de uma possível catástrofe: estocando alimentos, deixando a postos suas mochilas de emergência, planejando rotas de evacuação e se submetendo a frequentes e angustiantes simulacros. Enquanto isso, das ruas da cidade era possível observar o “colosso” expelir sua gigantesca coluna de uma densa e assustadora nuvem de cinzas.

Tranquilo entre vulcões

Atribui-se ao explorador alemão Alexander Von Humbolt a frase que diz que os equatorianos são “seres raros e únicos” por se alegrarem com música triste, serem pobres em meio a riqueza e dormirem tranquilos entre vulcões. Ainda que não seja possível atestar essa autoria, ela cai bem a um cientista europeu do século XIX. E não apenas pela evidente diferença colonial no subtexto, mas também pela assumida incapacidade de compreender aquilo que adjetiva como alegre, pobre e principalmente, nesse caso, tranquilo. Vivendo alguns anos no Equador, eu não seria capaz de tal afirmação e não são poucos os períodos da História equatoriana aos quais poderia recorrer para problematizar tais ideias (como inclusive já o fiz aqui e mais recentemente aqui). A conclusão é que de cara às eleições presidenciais de 2021, qualquer desavisado que tente compreender a conjuntura política e social equatoriana sem uma olhadela na sua história recente cairia na mesma armadilha de Humboldt.

Para não ir muito distante, tomemos como referência apenas os últimos 25 anos. Comecemos, por exemplo, em 2017, mais precisamente dia 02 de abril. Na Avenida de Los Shyris, zona nobre da região central da capital, em um palco montado em frente à sede do diretório do Movimiento Alianza País, Rafael Correa, então presidente, levanta o braço direito de Lenín Moreno, candidato virtualmente vencedor em segundo turno no pleito daquele ano. Horas antes, há poucos metros dali, no auditório do Hotel Hilton, Guillermo Lasso, empresário, ex-presidente executivo e atual conselheiro do Banco Guayaquil, um dos maiores do país, se baseia em pesquisas de boca de urna para também declarar sua vitória. Esse era só o começo de uma batalha de narrativas que se estenderia dias a fio incluindo uma longa e conflituosa vigília dos apoiadores de Lasso em frente à sede do CNE (Conselho Nacional Eleitoral), para colocar em dúvida o resultado daquelas eleições. Ao final de 20 dias nos quais houve, inclusive, uma recontagem de parte dos votos, Lenín Moreno foi definitivamente declarado vencedor. Uma derrota que Lasso Jamais reconheceu.

Aqui podemos voltar mais alguns anos, mais exatamente vinte e um, para 1999. O presidente, então, era Jamil Mahuad, o primeiro eleito sob a constituição de 1998, promulgada pela Assembleia Constituinte convocada pelo antecessor de Mahuad, o interino Fabián Alarcón, depois do inusitado episódio da noche de los três presidentes. O governo de Mahuad ficou conhecido por um generoso socorro, a base de decretos e recursos do Estado, aos bancos privados do país. Não satisfeito, determinou feriado bancário, congelou depósitos, e provocou uma desvalorização avassaladora da moeda equatoriana, o Sucre, que perdeu 67% do seu valor só naquele ano. Como último suspiro na presidência, antes de ser destituído sob uma mobilização protagonizada por organizações indígenas2 com o apoio das forças armadas e de fugir do país (ao qual jamais regressou) com menos de um ano e meio no poder, adotou o dólar estadunidense como moeda corrente. A importância desse episódio, além de marcante da história recente do Equador, é a presença de um coadjuvante: o banqueiro Guillermo Lasso. Naquela ocasião Lasso era nada mais, nada menos que Ministro de Economia e Energia de Mahuad.

Avancemos alguns anos mais, até 2013. Foi quando Lasso, depois da experiência com Mahuad, da qual conseguiu passar praticamente despercebido pela opinião pública, voltou ao cenário político, dessa vez como candidato a presidente. Neste ano enfrentou Rafael Correa e foi derrotado logo no primeiro turno, sem conseguir maioria em sequer uma província. Apesar de Lasso ter conseguido se posicionar como a força opositora naquele pleito, Correa, na ocasião, nadava a braçadas. Com uma popularidade que alcançou 81% em 2012 e um governo que ostentava uma renegociação histórica da dívida pública e redução da desigualdade e da pobreza em quase quinze pontos percentuais, venceu com 57% dos votos.

Podemos então falar de Correa, mas, para isso precisamos também voltar algumas casas. Poderia ser em 1992, quando ocupou um cargo de diretor no Ministério de Educação, mas não é preciso tanto. Fiquemos em 2005, dia 20 de abril, quando efetivamente surge no cenário político equatoriano como Ministro de Economia e Finanças do presidente Alfredo Palacio. Ficou no cargo apenas 4 meses, mas foi o suficiente para conseguir chegar à presidência em 2007.

A ascensão de Correa se deu por meio de uma articulação improvável e extremamente exitosa de partidos de esquerda e movimentos sociais. Um alinhamento dos astros que deu vazão a uma onda de esperança nascida da insatisfação gestada ao longo de dez complicadíssimos anos (1996-2006) no qual o Equador conviveu com frequentes crises política, econômica e social – que além da já mencionada dolarização, contou também com emigração massiva de quase 10% de sua população – e nada menos do que sete presidentes, quatro deles destituídos por articulações políticas ou mobilizações populares. O próprio Alfredo Palacio, que trouxe Correa para o cenário da política institucional, ascendeu à presidência depois que Lúcio Gutierrez, de quem era vice, um dos responsáveis pela derrocada de Mahuad, abandonou o palácio presidencial e tentou, sem sucesso, fugir do país, refugiando-se por quatro dias na embaixada brasileira até conseguir asilo político e finalmente se radicar no Brasil e, em seguida, nos EUA.

Correa, tendo a Lenín Moreno como vice em sua chapa, ganhou as eleições de 2006 e convocou uma Assembleia Constituinte, promessa sua de campanha. A promulgação da nova constituição em 2008, tida como uma das mais avançadas do mundo, previa realização de eleições gerais no ano seguinte, novamente vencidas por Correa. Em 2013 reaparece então Guillermo Lasso e Correa troca de vice. Sai Lenín Moreno entra Jorge Glas. Moreno embarca em missão diplomática para Suíça e retorna apenas para vencer as eleições presidenciais de 2017, com a benção e o capital político de Correa.

Tivesse a história terminado aí teríamos um óbvio final feliz. Mas o que aconteceu desde então foi uma sequência de reviravoltas na qual o único a efetivamente dormir tranquilo parece ter sido Guillermo Lasso. Passadas as eleições de 2017, ele outra vez sai de cena, como havia feito em 2013, para retornar apenas agora, em 2020, novamente como antagonista de Correa e capitalizando as forças de centro e direita em uma quase continuidade do governo de Moreno. Sim, o mesmo Lenín Moreno, vice de Correa entre 2007 e 2013 e candidato oficialista em 2017. Depois da certa estabilidade que os anos de correísmo representaram, o atual mandato presidencial voltou a registrar intensas movimentações nas dinâmicas internas do Equador.

O aumento das tensões

Para a geofísica, um vulcão é sempre uma força potencial. Mesmo aqueles considerados adormecidos (sem atividade num período recente, que pode variar entre 300 e 3000 anos) ou extintos (cuja última erupção ultrapassa os milhões de anos) não permitem afirmações categóricas, apenas probabilísticas. A recente erupção do Sangay, depois de 400 anos de inatividade, é uma amostra dessa imprevisibilidade. Para um vulcão considerado ativo, o risco de erupção é iminente e pode acontecer a qualquer momento. Apesar disso, nunca ocorre de maneira completamente imprevisível. Antes, um vulcão sempre dá sinais progressivos de atividade, seja com a emissão de gases ou cinzas, seja com o aumento gradativo dos eventos sísmicos ou mesmo com detalhes mais sutis, como a deformação do edifício vulcânico.

Pouco mais de três meses depois de passar a faixa de presidente, Correa radicou-se na Bélgica, país de origem de sua esposa Anne Malherbe, com a justificativa de descansar e se dedicar à família e afirmando estar certo de que o projeto da Revolucion Ciudadana3 havia derrotado a oposição. A ressalva era necessária porque naquela ocasião já eram bastantes evidentes algumas divergências com seu sucessor, no entanto, era tão inconcebível a ideia de uma traição que mesmo os mais pessimistas se permitiam falar apenas numa “mudança de estilo”. Mas esse eufemismo não durou muito. Nos meses seguintes Moreno se livrou completamente do disfarce e acelerou sua guinada neoliberal. Primeiro com uma mesa de diálogo – sob pretexto de promover uma união nacional – na qual recebeu líderes da oposição do calibre de Jaime Nebot (uma espécie de coronel em Guayaquil e que merece um texto só pra ele) e, claro, Guillermo Lasso. Houve ainda a retirada das funções de vice-presidente de Jorge Glas, na ocasião acusado e investigado por corrupção. Fechando o primeiro ano de governo, tivemos a realização de uma consulta pública que, além de derrocar reformas constitucionais aprovadas no fim do governo anterior, acabava definitivamente com qualquer possibilidade de Correa regressar à presidência do Equador. Foi a jogada determinante que posicionou Moreno como opositor de Correa.

Era apenas o início. Uma sucessão de acontecimentos marcaram o insosso governo de Moreno, que logo passou a ser visto pela oposição e por parte da opinião pública como um marionete movido pela coalizão conveniente das tradicionais oligarquias políticas, os grandes grupos econômicos e, de quebra, a conservadora elite religiosa. É bem verdade que estes grupos sempre caminharam de mãos dadas no Equador, mas haviam sido domados, cada uma à sua maneira, nos anos de correísmo. Conquistada a posição de antagonista de seu antecessor, Moreno se viu moralmente autorizado para finalmente abrir caminho ao projeto neoliberal daqueles que agora controlavam seus movimentos. O governo, que a partir de então levava, na prática, apenas o seu nome, reestabeleceu o poder dos mercados com  privatizações de serviços públicos e políticas de favorecimento a grandes indústrias e bancos privados, estabeleceu um teto de 3% para o gasto público, promoveu uma lei de fomento produtivo, sob pretexto de atrair investimento, que anistiou ricaços que mandavam ilegalmente seus dólares para fora do país e, claro, abriu caminho para o retorno (depois de mais de dez anos) do Fundo Monetário Internacional. Além disso,  alinhou-se à política externa estadunidense, instaurou um Conselho de Participação Cidadã Transitório4 que destituiu todos os juízes da Corte Constitucional de Justiça (a mais alta corte do judiciário equatoriano) para então renomear outros, e em meio a trapalhadas e negociatas encarou ainda três desgastadas mudanças de vice-presidentes5 e uma queda vertiginosa de aprovação que há muito não supera o patamar de 30%.

A ponto de explodir

Nem é preciso dizer que o parágrafo anterior não passa de uma síntese extremamente resumida de apenas algumas das ações do governo Lenin Moreno que aumentaram progressivamente a cotidiana tensão social do Equador. O momento aparentemente limite, intencionalmente omitido, aconteceria no fim de 2019: as jornadas de outubro. Dez dias de convulsão social, liderado por movimentos sociais e protagonizado principalmente por organizações e povos indígenas, que expôs todo o cinismo, autoritarismo e a subserviência do governo de Moreno às elites e grupos de poder em detrimento especialmente dos mais vulneráveis. Começou em 02 de outubro, após o anúncio do decreto presidencial 183 que estabelecia medidas de austeridade econômicas, como a retirada do subsídio dos combustíveis. Uma onda de manifestações6 tomou as ruas de várias cidades do país e inclusive do exterior, onde grupos de equatorianos se mobilizaram até as embaixadas locais a fim de se manifestar. A dura repressão policial, a mando da ministra de governo Maria Paula Romo (ou, Maria “Bala y Plomo” – bala e chumbo – como a população passou referi-la, outra personagem que merece um texto exclusivo), intensificou os confrontos com manifestantes e produziu imagens que o país já não via desde a Revolución del 28 de mayo 1944.

Quito, com comércio e aulas suspensos, se tornou uma cidade sitiada e o centro-norte, da cidade, completamente fechado, uma zona de combate: paus, pedras, lixo, espalhados pelas ruas e escombros, cápsulas de bombas de gás, pneus incendiados e barricadas por todos os lados. Nem mesmo a zona que abriga as universidades Católica, Salesiana e Andina, que tentaram fazer um corredor humanitário abrindo suas portas para receber manifestantes feridos aos cuidados de internos de medicina, foi completamente respeitada. As organizações indígenas convocaram os povos e nacionalidades de todo o país que se mobilizaram de suas comunidades até a capital e lá montaram acampamento para exigir a derrocada do decreto presidencial. Lenin Moreno, acuado, transferiu temporariamente, em 7 de outubro, a sede de seu governo para Guayaquil, que no dia 9, celebraria os 199 anos de sua independência. Lá, para esse dia, o caudilho Jaime Nebot e sua marionete política Cynthia Viteri, alcaidessa da cidade, anunciaram uma “marcha pela paz”, com direito a declaração racista de Nebot em pleno telejornal nacional sugerindo aos movimentos indígenas que ficassem no páramo7. Os confrontos foram ficando ainda mais violentos se estendendo por mais 5 dias, até 13 de outubro, ao cabo dos quais a Defensoría del Pueblo contabilizou 8 pessoas mortas, 1340 feridas (muitas delas com a perda de visão por disparos de balas de borracha) e 1192 pessoas detidas ilegalmente pela polícia. Várias organizações importantes de defesa dos Direitos Humanos, como a Anistia Internacional, o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, assim como a Comissão Ecumênica de Direitos Humanos e a Cruz Vermelha manifestaram preocupação e total rechaço à violência promovida pelo governo. Em  um relatório publicado dias depois, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos concluiu que houve uso excessivo e desproporcional de força por parte de agentes da polícia e militares.

Em plena atividade

As ameaças do Cotopaxi em 2015 não se concretizaram. As emissões de gases e cinzas continuaram apenas até o final de novembro daquele ano e o Instituto Geofísico registrou somente pequenas avalanches secundárias que não causaram mais que algum incômodo em estradas mais próximas à montanha. Contudo, durante os meses que seguiram, era bastante comum no cotidiano da cidade a menção aos ciclos anteriores do vulcão. Falava-se muito de sua última erupção, em 1880. Três anos antes, em 1877 passou algo semelhante: ameaças, cinzas e pequenas explosões que não deixaram mais que expectativas frustradas. Em 3 de julho de 1880, porém, ocorreu uma das maiores erupções registradas que, segundo relatos, produziu, em menos de um minuto, uma coluna de cinzas de mais de 6 quilômetros de altura.

Já se vão mais de 5 anos desde os dias de possibilidade, felizmente não concretizada, de erupção do Cotopaxi em 2015. Em abril de 2016 o Equador viveria, ainda, uma das maiores tragédias de sua história recente: um terremoto de 7,8 graus que devastou várias cidades das províncias de Manabí e Esmeraldas, deixando 670 mortos, milhares de desabrigados e consequências econômicas, sociais e psicológicas sentidas até hoje. O Cotopaxi ainda ocupa o posto de vulcão ativo, monitorado 24 horas por dia, e que pode retomar a intensidade de suas atividades a qualquer momento.

Neste outubro de 2020 o país recorda um ano das jornadas de 2019. Os últimos doze meses reservaram ainda a pandemia do coronavírus, que fez o país novamente estampar capas de jornais ao redor do mundo pelas cenas macabras produzidas com a chegada prematura do vírus a Guayaquil, além de uma quantidade impressionante de denúncias de desvio de verbas públicas para a saúde em várias cidades do país. Há menos de 4 meses das eleições presidenciais, o cenário apresenta um Rafael Correa, ainda exilado na Bélgica, que depois de anunciar candidatura a vice-presidente na chapa de Andrés Arauz, foi condenado em tempo recorde e em todas as instâncias possíveis pela justiça, ficando legalmente impossibilitado de participar do pleito. Seu novo partido, o RC (Revolución Ciudadana), que já havia tido a permissão para registro negada, precisou aliar-se a outro, o CS (Compromiso Social) para tentar concorrer. Mas ele também acabou tendo o registro cassado e ambos, RC e CS, numa teimosia de se admirar, acabaram sendo acolhidos por um terceiro partido, o CD (Centro Democrático). No momento, mesmo com Correa virtualmente fora da corrida, a pugna do Conselho Nacional de Justiça recai sobre uma eventual impossibilidade da troca do nome do vice da chapa.

Já o  movimento indígena, que nas jornadas de 2019 mais uma vez mostrou toda sua força mobilizadora e organizativa, teve a escolha do candidato pelo seu partido, o Pachakutik, envolta em disputas internas que terminaram abdicando dos nomes de maior projeção nas manifestações do ano passado, Leonidas Iza e Jaime Vargas, em favor de outro, já bastante conhecido no meio político, o atual Prefeito da província de Azuay, Yaku Perez.

Na perspectiva de algo que se possa identificar com as esquerdas, isso é tudo. Mas até o momento em que este texto é escrito, há ainda pelo menos outras 14 candidaturas anunciadas,8 a maioria com ilustres desconhecidos, de cantores a pastores evangélicos, boa parte aventureiros e parasitas oportunistas de olho nos fundos públicos. Exceto um: Guillermo Lasso. O banqueiro tenta mais uma vez ser presidente e talvez seja esta a oportunidade que nunca teve. Assim como na época do feriado bancário, tenta manter em relação ao governo de Lenin Moreno uma distância que seja segura à sua imagem, mas que permita aglutinar o apoio das forças que o ocupam (da qual é parte) e que tem se esforçado por sangrar qualquer opção minimamente viável que possa se colocar em seu caminho. Dessa maneira, vai capitalizando sua candidatura para ser a única opção anti-correísta possível, até o momento com êxito. O que não se sabe ainda é se “apenas” isso é suficiente para chegar ao poder por meio de eleições que pelo menos pareçam democráticas. Se o anti-correísmo tem certa acolhida, Correa ainda representa uma potente força política e não é à toa que se tenta de todas as formas anulá-lo. O movimento indígena, por sua vez, busca posicionar-se como via alternativa, mas sua disputa é definitivamente no terreno das esquerdas e, nele, a não escolha de Leonidas Iza como candidato, para muitos analistas, foi a perda de uma oportunidade histórica.

Fosse o atual momento eleitoral do Equador descrito como em algum dos relatórios do Instituto Geofísico equatoriano sobre o nível de atividade dos vulcões, talvez seria redigido algo como:

Depois das jornadas de outubro de 2019 e do colapso sanitário registrado na cidade de Guayaquil no início da pandemia, o ambiente político social equatoriano retornou aos níveis de insatisfação observados desde o início do governo de Lenín Moreno. Porém, com base na informação disponível da atividade política e no conhecimento histórico e social sobre o Equador, se sugere alerta sobre os cenários possíveis daqui em adiante. Cabe ressaltar que este alerta se estabelece num instante dado, com base nas atividades registradas no contexto político atual, assim como as tendências de mudança do mesmo. Portanto, é aplicável sempre que tais atividades não apresentem uma mudança notável e deverá ser revisado se as condições de dito contexto assim propuserem. Ainda que não se estabeleçam probabilidades quantitativas de ocorrência de possíveis distintos cenários, deve-se considerar, de forma qualitativa, a possibilidade de ocorrência de cada um. 

Assim como seus vulcões ativos, o Equador vive em permanente estágio de alerta. Os acontecimentos recentes dão mostra de que a intensificação das políticas neoliberais pode ter resultados imprevisíveis. Mesmo com todas as inúmeras recentes explosões, uma verdadeira “erupção” ainda não aconteceu e não deve jamais ser considerada fora de cogitação. É como um vulcão ativo. E eu não sei ainda ao certo de que tranquilidade Humboldt falava.

Notas

1 – Dados do Instituto Geofísico da Escola Politécnica Nacional do Equador, disponível em https://www.igepn.edu.ec/red-de-observatorios-vulcanologicos-rovig

2 – Assim como havia acontecido em 1996, na destituição do Abdalá Bucaram, o movimento que levou à queda de Jamil Mahuad contou com a participação de diversas organizações indígenas sob representação e mobilização da CONAIE, Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador, instituição organizada nos anos 1980 como forma de promover a consolidação de nacionalidades, povos, comunidades, centros, federações, associações e confederações de povos indígenas do Equador. 

3 – A Revolución Ciudadana (Revolução Cidadã) foi como o governo de Rafael Correa denominou seu projeto para o país a partir das mudanças implementadas desde que chegou ao poder, principalmente com a Constituição de Montecristi, a atual constituição equatoriana, promulgada em 2008, mas também os inúmeros processos de reforma e reorganização do Estado, o fortalecimento das instituições de governo, o pesado investimento social e os gigantescos projetos de infraestrutura.

4 – De acordo com a constituição de 2008, no Equador, em lugar dos tradicionais três poderes, se organiza ao redor de cinco funções (executiva, legislativa, judicial, controle social e eleitoral). O Conselho de Participação Cidadã é a entidade do Estado responsável pela função de transparência e controle social, e tem, entre outras, a competência de designar autoridades públicas em casos específicos.

5 – No Equador, quando um vice-presidente renuncia ou é destituído, o chefe do executivo envia ao parlamento uma lista tríplice para a eleição de um novo ocupante para o cargo. Lenin Moreno, que foi eleito com Jorge Glas como vice em sua chapa, destituído após ser preso por corrupção num processo em que reclama perseguição política, teve como vices, ainda, a Maria Vicuña, que desistiu do cargo depois de denúncias de ter se apropriado de parte do salário de seus assessores quando era parlamentar, Otto Sonnenholzner, que renunciou para uma falida tentativa de concorrer à presidência, depois de uma questionável gestão da pandemia, e a atual, Maria Alejandra Muñoz, eleita por acaso ao compor uma lista cuja intenção era promover Maria Paula Romo ao posto.

6 – O Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (CLACSO) disponibiliza uma publicação intitulada Ecuador. La insurrección de octubre, que aborda os acontecimentos dos dias de manifestações a partir da contribuição de diferentes olhares, desde textos escritos no calor dos acontecimentos a ensaios de pensadores contemporâneos, como Chomsky, Castells e Boaventura de Sousa Santos. Disponível em http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/se/20200521104339/Ecuador2.pdf

7 – O páramo é um bioma das regiões andinas que, além de uma vegetação típica, é caracterizado por ser uma de planície a mais de 3000 metros acima do nível do mar.  

8 – O dia 7 de outubro é a data limite para a inscrição das candidaturas.

* Doutorando em Ciências da Comunicação pela Universidade de Coimbra (Portugal), mestre em Comunicação com Menção em Estudos de Recepção Midiática pela Universidade Andina Simón Bolívar, sede Equador. Graduado em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (Brasil) com especialização em Marketing Empresarial pela mesma universidade. Integra o núcleo Yllanay de pesquisa da comunicação, associado à Rede AMLAT (Rede Temática de Cooperação Científica, Comunicação, Cidadania, Educação e Integração para a América Latina).

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