Sobre The Office e o fenômeno dos empregos de merda

The Office

Guilherme Bernardi1

Enquanto terminava de rever as temporadas de Seinfeld, decidi dar uma chance a uma série que estava sendo muito elogiada por algumas pessoas ao meu redor: The Office. Não lembro exatamente, em qual momento desse 2020 de temporalidade bagunçada, que vi os dois primeiros episódios dela e não gostei, mas isso nem importa tanto. Comentei sobre minha percepção da série com uma ou outra pessoa e as respostas foram, no geral, que ela melhorava e que valia dar uma nova chance. Foi o que fiz e, ao final da primeira temporada, me vi rindo e divertindo com as situações que acontecem ao redor e dentro de um escritório da Dunder Mifflin, uma empresa que vende papel em Scranton.

Como acabei de passar da metade das nove temporadas (estou no décimo episódio da quinta temporada), que se encerraram em 2013, não pretendo analisar a série, as atuações ou julgar se são merecidos os prêmios recebidos por ela e pelas atrizes e pelos atores. A intenção do presente texto é refletir sobre a personagem Michael Scott, gerente regional da franquia, e relacionar seu cargo e funções com as pesquisas de David Graeber sobre os empregos de merda.

Devo admitir que ainda não li o livro de Graeber sobre o assunto2. Ainda assim, li dois textos sobre o tema3 e participei de um episódio do podcast que ajudo a construir, o Jogando Dados4 também sobre o tópico pesquisado por ele (que infelizmente nos deixou, aos 59 anos, agora no início do mês de setembro).

Dito isso, eu tampouco poderia, de acordo com Graeber, definir o emprego de Michael Scott como uma representação do fenômeno dos empregos de merda, afinal, só os próprios sujeitos podem determinar se suas ocupações são mesmo de merda. Como no setor improdutivo dos serviços universitários está cada vez mais difícil separar os que sabem dos sabidos, para recuperar uma resposta de Paulo Arantes (1996) em uma entrevista sobre um livro que não havia lido5, me arriscarei a comentar as relações entre Michael Scott e a pesquisa de Graeber.

Desde que fui conquistado por The Office, uma pergunta martela em minha cabeça a cada episódio que vejo: como Michael tem tanto tempo disponível dentro de seu tempo de trabalho para fazer o que faz? As obrigações de gerente regional, até onde vi e me recordo, podem ser resumidas a: obrigações burocráticas diversas (assinar papéis/ documentos, participar de/promover reuniões internas e com a matriz) e, principalmente, garantir que o escritório esteja funcionando, ou seja, que os outros empregados estejam trabalhando. Contratado para trabalhar das 9h às 17h, Michael gasta a maior parte de seu tempo fazendo nada de produtivo e azucrinando seus subordinados. Qual seria então a importância do emprego de Michael não só para o escritório, mas também para a sociedade? Arriscaria dizer que nenhuma e é por isso que penso na pesquisa de Graeber sobre os empregos de merda.

Graeber estava interessado em uma série de empregos que foram criados nas últimas décadas e que são inúteis, ou seja, que não tem serventia ou retorno algum para a sociedade. Na verdade, diria que a utilidade deles é ocupar uma quantidade de pessoas que, de outra forma, estariam desempregadas e sem alternativas no cada vez mais escasso mercado de trabalho. Tudo isso faz referência ao desemprego tecnológico, que relaciona o fato de que o progressivo desenvolvimento das forças produtivas reduz (mas não acaba com) a necessidade de trabalho humano para que o sujeito automático, o Capital, falando novamente como Arantes (1996), possa manter o circuito da valorização. Qual a solução criada para lidar com esse paradigma? Segundo Graeber, a solução foi a dos empregos sem utilidade alguma, os empregos de merda.

Se quisermos levar mais adiante a pesquisa de Graeber, poderíamos nos perguntar: será que hoje alguma das funções daquele escritório são de fato úteis? O que é mais interessante no questionamento é que a própria série e os personagens oferecem algum tipo de resposta. Não me recordo em qual episódio, mas há um momento no qual se discute o lançamento de um site para a empresa (pode parecer outro mundo, mas faz menos de 15 anos) e são feitos comentários do tipo: “o computador vai vender mais que nós” ou “ele pode desempregar a todos nós”.

Pensemos numa empresa como a Dunder Mifflin, com várias filiais e que emprega cerca de 20 pessoas só em Scranton (entre funcionários do escritório e do depósito). Importante destacar, antes de continuar com a análise, que o mais interessante do ambiente em Scranton é que na maior parte do tempo os funcionários não estão efetivamente “trabalhando” (entenda-se, desempenhando a função para a qual foram contratados), mas conversando, planejando confraternizações, fazendo brincadeiras ou em reuniões. Isso faz com que sejam desenvolvidas relações interpessoais que tornam o ambiente de trabalho, de certa forma, mais humano e é também por isso (mas não só) que personagens como a Pam se sentem em casa no escritório. Muito desse sentimento é devido à forma como Michael trata o ambiente de trabalho. Ele sempre se opõe a tratar seus subordinados como meros números e teve problemas quando foi obrigado pela matriz a demitir alguém. Com exceção das brigas com Toby, a impressão é que, para ele, demitir um dos “seus” é como mandar embora parte de uma família. Inclusive, a principal lição do gerente para o então estagiário Ryan é que o cargo é menos sobre números e administração e mais sobre lidar com pessoas, que têm problemas próprios e que dependem daquele emprego para que suas vidas fora do trabalho “existam”. São em momentos como os citados acima que podemos perceber que há relações interpessoais entre os seres humanos que compartilham os ambientes de trabalho, mas também que elas são apagadas (ou fetichizadas) pela relação econômica de trabalho/assalariamento que impera na sociedade capitalista.

Feita essa breve observação, voltemos à análise. Com a necessidade desenfreada de sempre cortar gastos e com as novas formas de organização e estruturação possibilitadas pelo desenvolvimento das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs), as funções de atendimento aos clientes e de contabilidade poderiam ser terceirizadas ou, no mínimo, concentradas na matriz, o depósito seria terceirizado6, os vendedores seriam quase todos (ou todos) substituídos por máquinas e pelo serviço de vendas online e o escritório seria provavelmente fechado, com alguns poucos funcionários sendo incorporados à matriz. Em outro cenário, que acho até mais realista, a empresa que produz o papel teria um canal próprio de venda e terceirizaria as entregas. Qual a utilidade, portanto, de uma empresa como a de The Office hoje?

Meio assustador, de certa forma, pensar nisso. Que empregos ainda existirão com o andar do desenvolvimento das forças produtivas? É essa a questão que está a nossa frente. Sem falseamentos, é uma falácia dizer que haverá realocação para outras funções ou que novos empregos serão criados para substituir os extintos pela tecnologia (com a automação e a inteligência artificial, por exemplo) e que teremos apenas que nos capacitar para, assim, termos espaço no cada vez mais escasso mercado de trabalho. Não vai rolar. Não haverá novos empregos (com ou sem carteira assinada) na “quantidade necessária”. Isso, para mim, é um fato, mas será que é um problema? Nossa imaginação só vai até a proposição de empregos estáveis e direitos trabalhistas para todos? A pesquisa de Graeber era também sobre isso: temos que encarar o fato de que cada vez mais precisamos de menos trabalho humano para fazer a máquina girar, mas também que ainda não abolimos a necessidade de trabalho.

Por isso, uma alternativa que, se ainda não é, precisa ser tornada real é trabalharmos menos. Renda Básica Universal e redução da jornada de trabalho (menos horas e dias da semana) precisam se tornar pauta de reivindicação urgente, assim como proteção social para todos e colaboração internacional para lidar com o fato de que o mundo está sendo destruído e que novas pandemias devem se tornar cada vez mais frequentes.

Será que fomos ou que estamos indo longe demais? Acho que não, mas sei, com certeza (e acho que vocês também), que chegamos até aqui a partir de uma pergunta relativamente simples: será que Michael Scott tem um emprego de merda? Como já foi explicado aqui no texto, não podemos responder por ele, mas cada um de nós pode se perguntar: será que meu emprego é de merda? Quem sabe dessa “simples” constatação não botemos nossas cabeças para funcionar e pensemos em um mundo no qual a forma de organização não seja ao redor do trabalho. É para isso que David Graeber lutava.

Notas

1 – Jornalista e mestrando em Comunicação pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). E-mail: guilherme.bernardi1995@gmail.com

2 – GRAEBER, David. Bullshit Jobs: A Theory. Nova Iorque: Simon & Schuster, 2018.

3 – Um texto explicando a pesquisa desenvolvida por ele (https://umaincertaantropologia.org/2014/01/15/david-graeber-sobre-o-fenomeno-dos-empregos-de-merda/) e uma entrevista na qual ele fala sobre como a pandemia evidencia os empregos de merda ( https://outraspalavras.net/pos-capitalismo/a-pandemia-desnuda-a-era-dos-empregos-de-merda/).

4 – O Jogando Dados é um podcast sobre Economia Política da Comunicação e é produzido em parceria pelo CUBO/UEL (Laboratório de Estudos sobre Comunicação e Crise do Capitalismo) e pelo CEPCOM/UFAL (Crítica da Economia Política da Comunicação). O episódio de número 12 tratou do tema: https://anchor.fm/jogando-dados/episodes/12—Os-Empregos-de-Merda–com-Rodolfo-Rorato-Londero-egfjpd.

5 – ARANTES, Paulo. O Fio da Meada: Uma conversa e quatro entrevistas sobre filosofia e vida nacional. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. A entrevista pode ser acessada separadamente aqui: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/4/02/mais!/14.html

6 – O novo filme de Ken Loach, “Você não estava aqui”, é bem interessante para ter uma noção da terceirização e precarização nos serviços de entrega na Inglaterra e no norte global. Importante destacar que, diferentemente de lá, a “economia dos bicos” é o padrão histórico de empregabilidade da maioria da classe trabalhadora no Brasil e no sul global.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s