O verdadeiro dilema das redes

Ação site-specific Quipu Vivo, de Cecilia Vicuña

Por Bruno Dias*

Em 1988, o Chile viveu um dos momentos mais importantes de sua história recente. No dia 5 de outubro, uma quarta-feira, a população foi convocada a votar em um plebiscito que decidiria se o ditador Augusto Pinochet continuaria no poder por mais nove anos ou deveria, no prazo de doze meses, convocar eleições democráticas para presidente. O resultado poria fim a um dos governos ditatoriais mais sanguinários da região e que naquele momento já completava 15 anos, mais de 3 mil mortos ou desaparecidos, milhares de prisioneiros torturados e quase 200 mil chilenos no exílio.

Um fato muito inusitado dessa história se deu nos bastidores das campanhas pelo voto ao No (contra Pinochet), que inclusive rendeu um filme, estrelado por Gael García Bernal e indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013. Na vida real, a campanha foi conduzida por uma equipe de publicitários acostumados a trabalhar com produtos de grandes marcas internacionais e em lugar de denunciar os crimes e evidenciar os males da ditadura, a estratégia escolhida orientou-se por promover a democracia, transformando-a em algo a ser “vendido” e “consumido”, com jingles alegres, cores vibrantes e pessoas felizes e sorrindo. Para boa parte da liderança opositora a Pinochet que havia sofrido na pele o que de pior a ditadura era capaz, isso soava quase como uma ofensa. Contudo, ao final, o No venceu e o Chile pôde finalmente superar e julgar os responsáveis por seus longos anos de trevas.

A comunicação a partir das esquerdas

Essa pequena anedota é uma amostra da complexa relação das esquerdas com a comunicação a partir do advento das indústrias culturais. Uma relação caracterizada por um permanente deslocamento e um olhar desconfiado e atravessado. De alguma maneira é de se compreender que tenha sido assim, afinal, a comunicação mediada tecnologicamente demanda uma série de recursos e estrutura que condicionam sua viabilidade ou aos grandes conglomerados privados, ou ao próprio Estado, que, especialmente nos países periféricos, é quase sempre pouco efetivo. Não à toa, o período em que os meios massivos, em particular o rádio e a televisão, emergem e se consolidam como atores políticos (me refiro àquele entre os anos 1940 e 1980), é também o que, nas esquerdas, se estabelece a percepção da mídia como um ente manipulador e conspirativo, uma ferramenta de dominação que precisa ser contida, quase como um monstro a ser domado. Durante muito tempo, o resultado disso foram movimentos, partidos, sindicatos e demais organizações vinculadas às esquerdas produzindo uma comunicação midiática pragmática, reativa, protocolar e pouco estratégica, focada na distribuição de conteúdos e quase nada interessada nos entornos de mediação, táticas de consumo e em dimensões como técnica, produção, formas e estéticas (inclusive associando estas a um mero interesse comercial capitalista).

Mas houve também quem percebesse que essa dinâmica não era tão preto e branco e que havia muitos matizes a serem pensados e explorados. A marca do pensamento crítico sobre a comunicação na América Latina é justamente o entendimento de que ela, a comunicação, é um processo dinâmico, de idas e vindas, concessões e negociações. Um momento marcante, então, ocorreu no Primeiro Encontro Latino-americano sobre Ensino da Comunicação, em 1978, no México, onde Jesús Martín-Barbero apresentou o desenvolvimento de seu trabalho de pesquisa realizado ao longo dos anos 1970, influenciado por Antonio Gramsci e Paulo Freire, que propunha a comunicação pensada a partir da cultura e invertendo o entendimento hegemônico da perspectiva crítica: em lugar de pensar a comunicação como um processo de dominação, pensar a dominação como processo de comunicação. Foi necessário, contudo, um longo período para que a experiência nas comunidades produzisse esse pensamento crítico e para que este mesmo pensamento se refletisse em uma práxis libertadora. Mesmo hoje não é raro deparar-se com retóricas que desqualificam a comunicação midiática produzida e estrategicamente pensada, depreciativamente como coisa de marketing ou, na melhor das hipóteses, entretenimento e distração.

Um atraso que custou caro

A verdade é que mal as esquerdas aprenderam a se comunicar e o século XXI chegou trazendo as plataformas digitais, adicionando novas lógicas, alterando radicalmente a dinâmica comunicacional e mudando o eixo da comunicação política para o ambiente virtual. A última eleição presidencial no Brasil mostrou que se a televisão ainda é a mídia de maior capilaridade, é na comunicação digital que se consegue mais efetivamente alcançar subjetividades, promover engajamento e conquistar mentes e corações. E nesse processo estão envolvidos, de forma determinante, algoritmos que se retroalimentam da atividade dos usuários, em um ecossistema completamente próprio, movido a pouca regulamentação, muito dinheiro e interesses políticos e econômicos. Na trincheira das esquerdas, enquanto jovens youtubers, twitteiros e podcasters produzem conteúdos que demandam tempo, cuidado e muito trabalho sem nenhum tipo de apoio e conquistando a duras penas seu quinhão de seguidores, a parte institucionalizada, mais especificamente aquela que disputa o poder e tem acesso a recursos e espaços de influência, outra vez perde o bonde da história, menospreza o potencial das redes digitais e acredita, novamente, que pode simplesmente instrumentalizar a comunicação. Do lado de lá, liberais, reacionários, conservadores, fundamentalistas, e uma diversa gama de extremistas se articulam e aproveitam a pouca regulação do mundo virtual para criar todo um fluxo a seu favor, utilizando as instituições que, enquanto ocupam posições de poder, fazem com que os algoritmos trabalharem na promoção de suas ideias e, não poucas vezes, contando com uma ajudinha desavisada e não intencional da esquerda reativa.

E bem, e o resto?

O cenário não é nada otimista, mas cabe, ainda, uma última observação: a televisão levou muitos anos para se ajustar às demandas da sociedade e com toda literacia, legislações e autorregulação, até hoje ainda convivemos com Datenas e Baccis por aí. Mas o período histórico em que a tevê se consolidou foi caracterizado também por uma maior consciência e reivindicação do papel social do Estado, que permitia compreender a legitimidade e necessidade da intervenção e controle dos meios por parte tanto das instituições quanto da sociedade civil. No atual contexto de acomodação social aos anseios neoliberais, a internet, e nela as redes sociais digitais, gozam de uma aura libertária (obviamente falsa) que produz uma sensação de completa impotência em relação ao que acontece por aqui. Contudo, não há que se ignorar que a dinâmica cruel dessas plataformas existe, também, sob (e apenas com) a bênção ou, no mínimo, a omissão e anuência de organizações, Estados e governos. Facultar ao usuário e ao voluntarismo a responsabilidade de domar esse novo “monstro” que nos aterroriza não passa de uma muito conveniente demagogia. Se por um lado é urgente compreender como funciona a comunicação digital na sociedade para nela atuar, por outro é importante também reivindicar a necessária intervenção articulada de Estado e sociedade civil para, por meio de legislações e mecanismos de controle, fazer deste um ambiente mais sociável e minimamente equitativo. A realidade se impõe e não há muito tempo a perder.

* Doutorando em Ciências da Comunicação pela Universidade de Coimbra (Portugal), mestre em Comunicação com Menção em Estudos de Recepção Midiática pela Universidade Andina Simón Bolívar, sede Equador. Graduado em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (Brasil) com especialização em Marketing Empresarial pela mesma universidade. Integra o núcleo Yllanay de pesquisa da comunicação, associado à Rede AMLAT (Rede Temática de Cooperação Científica, Comunicação, Cidadania, Educação e Integração para a América Latina).


Cecilia Vicuña, 2006

Cecilia Vicuña nasceu e cresceu em Santiago (Chile), mas se exilou no início dos anos 70 em decorrência do Golpe. Cecilia é poeta, ativista e artista, lutando pelos direito humanos, discutindo questões ecológicas e a homogeneização cultural.

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