A festa comunista dos portugueses

Rafaela Martins*

“Não há festa como esta”

Logo que cheguei a terras portuguesas para fazer o doutorado em Ciências da Comunicação busquei os ambientes da esquerda. Como comunista, entender a situação do PCP (Partido Comunista Português) se tornou não somente uma curiosidade, mas também um empenho. O partido, fundado em 1921 como a seção portuguesa da Internacional Comunista, foi posto na clandestinidade durante a ditadura de Salazar e só retorna à legalidade após a Revolução dos Cravos em 1974.

Cheguei em 2018, no calor da eleição bolsonarista. O desespero e a angústia se misturavam com o desejo de compreender a política que era feita aqui, do outro lado do oceano, no norte do globo, na tal da Europa. Cercada por jovens dos mais diversos cursos de graduação na Universidade de Coimbra, não era de se esperar outra coisa: a primeira referência que me deram sobre o PCP foi a festa do ”Avante!” que possui a frase “não há festa como esta” por slogan. O nome do evento é também o nome do jornal do partido que pode ser visitado aqui.

Somente neste pandêmico 2020 é que tive a oportunidade de ir à festa. Com certeza testemunhei umas das edições mais polêmicas do evento dos últimos anos e deixo aqui alguns relatos, breves opiniões e um registro fotográfico. Como editora da Revista Ouro Canibal, inicio, com este relato, uma série de textos que, de tempos em tempos, aparecerão por aqui e que terão por função relacionar Brasil-Portugal mediante a todas as críticas e análises pertinentes ao colonialismo, ao racismo, às questões político-econômicas e às estruturas que nos situam nesses lugares a que pertencemos hoje. 

Avante!

A primeira edição da festa ocorreu em 1976, apenas dois anos após o emblemático 25 de abril que marca o fim da ditadura salazarista cuja duração foi de nada menos do que 41 anos. Dias antes desta primeira festa uma cabine elétrica explodiu na proximidade do local do evento, não foi esclarecido se o incidente teria sido provocado por opositores radicais ao partido. Para dificultar ainda mais a situação, uma chuva torrencial alagou vários pontos de Lisboa, dificultando acessos por transportes públicos e privados e causando grande desordem urbana. Contra todos os problemas postos, a festa conseguiu se realizar. Já na primeira edição, o evento contou com 200 mil visitantes e 300 artistas de 22 países.

Como seguiu-se nas 41 edições, a festa, que no Brasil seria considerada um festival ou uma feira, possui stands internacionais e nacionais, venda de livros, exposição de ciências, vendas de artigos como camisetas, bonés, chaveiros, entre muitos outros. Também possui barracas de comidas, áreas apropriadas para bebês e crianças, três palcos de shows musicais, palco para apresentação de teatro, dança e performance, área de camping e, claro, muitas rodas de debates. O ápice é o comício geral. A festa é levantada graças ao trabalho voluntário de cerca de 12 mil pessoas. Militantes de todo o país e até mesmo estrangeiros (inclusive brasileiros) fazem parte do time.

Como era de se esperar, por conta da pandemia do Covid-19 muitos setores sociais (a maioria formada por lideranças e representantes de direita) polemizaram a organização do evento este ano. É relevante lembrar que setembro é o último mês de verão na Europa e que, de fins de junho (quando saímos da quarentena estrita aqui no país) até hoje, as praias e parques sempre se encontraram lotadas.

A festa é realizada em uma quinta com espaços abertos. Um exigente exame das condições de segurança sanitária foi feito por parte das autoridades competentes e todos os trabalhadores e participantes se mostraram bastantes preocupados com o cumprimento das normas: distanciamento social, máscaras, uso de álcool para higienização de mãos e das superfícies e objetos e lavatórios espalhados.

Jovens democratas cristãos se insurgiram contra o evento. O presidente da JP (Juventude Popular), Francisco Mota, enviou um comunicado em que diz: “o Estado não pode ser forte com os fracos, multando e perseguindo jovens que bebem uma cerveja e empresários que procuram superar a crise, e depois ser fraco com os fortes, não fiscalizando os partidos e os amigos do Governo”[1]. É emblemático perceber os conceitos de “fracos” e “fortes” utilizados no argumento.

Por outro lado, os militantes do PCP deixaram claro, nos inúmeros debates, a importância de se discutir os desdobramentos da pandemia para a vida dos trabalhadores. Sem deixar de levar em conta a importância das medidas de segurança, os palestrantes como Tiago Cunha explicaram, na conferência “confiança e luta por uma vida melhor”, que a desmobilização e a falta de análises políticas críticas neste momento favorecem ainda mais o avanço de políticas neoliberais que massacram os trabalhadores.

Foi destacado o fato de o governo português ter dado preferência à ajuda ao grande empresariado em detrimento ao apoio aos trabalhadores que perderam seus empregos e rendimentos. Também foi comentado o fato de 30% do orçamento público destinado à saúde ser entregue aos hospitais privados, verba que poderia melhorar os serviços da saúde pública no país. As pautas da saúde foram centrais, mas as questões dos empregos, da seguridade social, das aposentadorias, dos transportes e da energia e outros insumos básicos também foram levantadas.

Outras mesas de debates que merecem destaque trataram de questões sobre o teletrabalho (inovação X exploração), precariedade trabalhista em tempos de epidemia, luta ambiental e luta de classes, o combate ao fascismo na Ucrânia, erradicação da pobreza, questões do Oriente Médio, crimes de Israel, diretos das mulheres, cultura como um bem de primeira necessidade, o futuro do partido comunista português, questões da América Latina e o combate ao racismo. Discussões com pautas múltiplas levantadas durante os três dias do festival.

No comício de encerramento do evento, o atual secretário-geral do partido, Jerónimo de Sousa comemorou o sucesso da festa contra um: “’quadro de inusitada hostilidade dos grandes interesses económicos e das forças mais reacionárias e conservadoras”, hostilidade essa movida, no seu entender, por ‘poderosos recursos mediáticos e de intoxicação da opinião pública’”[2]. Sousa bradou: “Queriam calar-nos. Não o conseguiram! Sim, fizemos a Festa, cumprindo as normas sanitárias, porque a sua realização é, antes de mais, uma forma de assegurar a defesa e funcionamento da vida democrática na sua plenitude e isso contraria os seus desejos.”[3]

Um chamado à indignação

Ao viver a experiência da festa do Avante! Não pude deixar de refletir sobre as mazelas que o Brasil enfrenta desde o golpe de 2016 e que se intensificam neste contexto pandêmico. Os trabalhadores brasileiros, desorientados e desorganizados, se dividem majoritariamente entre aqueles que podem executar trabalhos em regime de home office, os que perderam seus postos e se encontram desocupados (e desesperados) e aqueles que precisam enfrentar transportes públicos super lotados pressionados por seus patrões que adotam uma necropolítica[4], na qual, não importa o número de trabalhadores afetados, debilitados e mortos por uma pandemia, a enorme reserva de mercado capitalista supre essa massa. A força de trabalho é mercadoria fundamental deste sistema que, agora, já não precisa sequer fingir uma valorização da vida ou algum nível de “organicidade”. A humanidade, fetichizada, é produto de fácil descarte e o que importa é “que a economia não pode parar”, discurso este adotado até mesmo pelo próprio trabalhador que, ilhado e sem consciência de classe, não consegue se perceber dentro dessa roda-gigante que massacra a vida.

O assunto da necropolítica será desenvolvido em breve em novos textos da revista Ouro Canibal, no momento, o que destaco em minha reflexão é a compreensão da importância que a mobilização política tem e o caráter subversivo que a festa do Avante! inspira. Tenho inúmeras críticas à forma como até mesmo os portugueses mais progressistas e politizados à esquerda entendem as questões coloniais, raciais e migratórias (que serão problematizadas em textos futuros). Mas, por mais que a visão da grande maioria deles para o resto do mundo seja ainda colonizadora, turva e deslocada, é inegável que a maneira como se organizam politicamente com seus eventos de união da classe trabalhadora é inspirador.

No Brasil, podemos olhar para esse exemplo de organização e união com o MST, a organização de luta pela reforma agrária e redistribuição de terras que existe já há 40 anos. Em tempos de arroz a preços estratosféricos que trazem à tona a pauta da fome em nosso país, o MST possui a maior produção de arroz orgânico da América Latina[5] e mobiliza a luta durante a pandemia distribuindo toneladas de alimentos, frutos de suas produções, às famílias necessitadas em todo o Brasil. Se o clima não é para festa (que, convenhamos, é algo que dominamos com muito mais expertise que qualquer europeu), façamos da revolta nosso motor.

A crise fascista bolsonarista é também uma crise estética. Que nós consigamos, quem sabe um dia, dançar, cantar, ler poesia, brindar com boa bebida, comer com boa comida, frutos de um trabalho revolucionário, de distribuição de renda, de verdadeira reforma agrária, de valorização e emancipação da vida (de todas as formas de vida). Que o trabalhador brasileiro se redescubra como classe e se una em comunhão numa construção política. Para não faltar arroz, é preciso consciência de classe. O morro sabe, a periferia sabe. Ali, onde o Estado não tem interesse de entrar, a população precisa se organizar com senso comunitário. Só falta a eles descobrirem que podem e devem tomar o Estado, que podem e devem reorganizar as estruturas sociais para que elas sirvam àqueles que realmente as carregam nos ombros, as constituem.

Não é uma grande coalizão com setores reacionários e/ou revisionistas que nos levará à superação desse terror bolsonarista, é o despertar das trabalhadoras e dos trabalhadores de nosso país em prol de seus interesses que trará essa superação. Não é a lacração e a cooptação da “esquerda” burguesa de signos místicos ou ancestrais que nos aproxima da liberdade, mas as discussões lúcidas, a pesquisa de outras formas de saberes e viveres, a escuta, a leitura, a formação política. Não é a prostração e o desespero que nos guiará ao futuro, mas a criatividade etílica, o encontro de corpos e de mentes, a busca de estratégias coletivas. Tragamos para a nossa política a estética, primeiro da revolta, depois da organização e, por fim, da felicidade e da emancipação. De tristeza desoladora e apatia mórbida já basta a deles.

Galeria de imagens

Fotografias por Rafaela Martins

Em novembro deste ano de 2020 comemora-se os 200 anos de nascimento de Engels que foi devidamente homenageado no evento

Setúbal é a cidade na região metropolitana de Lisboa que recebe anualmente a festa Avante!

A festa acontece em uma quinta com muito espaço ao ar livre

O vermelho predomina

Por conta da pandemia, o evento deste ano contou com cadeiras que respeitavam o isolamento mínimo indicado

O atual secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, visita a feira enquanto é entrevistado pela imprensa

As pessoas aproveitavam para descansar nos intervalos das atrações

Pautas feministas também foram levantadas na festa

Um senhor dorme enquanto outros participantes do evento descansam com o rio Tejo ao fundo

Barracas com guloseimas se espalhavam pelo espaço

Os shows do palco principal contavam com atrações portuguesas e internacionais

Os participantes respeitavam o distanciamento social enquanto assistiam a shows e apresentações

Um espaço destinado às crianças foi montado conforme as regras de segurança

O entardecer visto da roda-gigante

O dia quente fazia com que as pessoas procurassem por sombra e refresco enquanto ouviam as palestras

O evento não teve lotação máxima devido ao contexto pandêmico

Em um dia quente, caipirinha com cachaça brasileira

Notas

[1] Retirado da reportagem “Avante!: Jovens democratas-cristãos pedem fiscalização ao recinto” do Expresso. Link:https://expresso.pt/politica/2020-09-06-Avante-Jovens-democratas-cristaos-pedem-fiscalizacao-ao-recinto

[2] Retirado da reportagem “Jerónimo encerra Festa do Avante! com ataque a Marcelo” do Diário de Notícias. Link: https://www.dn.pt/poder/jeronimo-encerra-festa-do-avante-com-ataque-ao-presidente-da-republica-12697087.html.

[3] Retirado da reportagem “Jerónimo encerra Festa do Avante! com ataque a Marcelo” do Diário de Notícias. Link: https://www.dn.pt/poder/jeronimo-encerra-festa-do-avante-com-ataque-ao-presidente-da-republica-12697087.html.

[4]Artigo de Achille Mbembe presente em: https://revistas.ufrj.br/index.php/ae/article/view/8993. Com acesso em 14/09/2020.

[5]Retirado da reportagem “Maior produção de arroz orgânico da América Latina é do MST”. Link: https://www.brasildefato.com.br/2020/03/21/maior-producao-de-arroz-organico-da-america-latina-e-do-mst.

*Doutoranda em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FL-UC – Portugal). Tem seu foco de estudo na área da crítica feminista da economia política da comunicação. É editora da Revista Ouro Canibal.

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