As ondas de suicídio e a “doença incurável”: formas de sofrimento psíquico no capitalismo tardio

As ondas de suicídio e a “doença incurável”: formas de sofrimento psíquico no capitalismo tardio

Por Rodolfo Rorato Londero[1]

Em Meia-noite e vinte, o escritor Daniel Galera nos conta a história de Aurora, uma bióloga estudante de doutorado que, após uma juventude engajada em atividades criativas (os blogs e fanzines da Internet nascente dos anos 90), encara os desencantamentos do mundo: uma morte violenta de um amigo, um aborto clandestino, uma relação abusiva com seu orientador de pesquisa, todos eles acompanhados de sintomas severos de ansiedade (calafrios, palpitações, crises de pânico). O título do romance evidencia esse contraste: ele alude a uma festa de fim de ano, em que a jovem Aurora e seus amigos, acampados no meio do mato, esquecem a própria existência do tempo, lembrando das comemorações apenas vinte minutos depois. Por outro lado, a ansiedade da vida adulta jamais permite que Aurora esqueça o tempo novamente, pois o que define a experiência da ansiedade é o tempo correndo em direção à catástrofe. Seguindo o melhor da tradição romântica do Bildungsroman, o resultado deste desencontro, entre uma juventude atemporal e uma vida adulta com os dias contados, é o suicídio. Contudo, Meia-noite e vinte não é apenas um romance psicológico, mas também uma crônica do fim dos tempos. A ansiedade de Aurora antecipa uma catástrofe, mas o augúrio não prevê uma hecatombe; na verdade, é muito pior:

Nessas saídas de campo se tornava ainda mais fácil amar o que eu fazia. As plantações do centro de pesquisa continham dezenas de espécies de cana em variados estágios de melhoramento genético. Plantas que prometiam crescer mais rápido, exigir menos adubo sintético e agrotóxicos, alimentar mais pessoas, gerar mais biocombustível, prosperar em climas e solos mais diversificados. E estava aí, percebi de repente, o cerne da ansiedade. A ciência era o carburador daquele mundo cada vez mais rápido e mais cheio de gente, gente que vivia cada vez mais e consumia cada vez mais o que era produzido por uma indústria também respaldada pela ciência, e a ideologia de tudo era mais lucro, sim, mas também mais vida, mais e mais vida, quando o que eu sentia desde a visita a Porto Alegre era o oposto, a convicção visceral de que já tínhamos passado do ponto havia muito tempo, que os milagres científicos e tecnológicos, caso chegassem, pois nem isso era garantido, apenas pisariam mais fundo no acelerador para gerar mais consumo, mais gente, mais vida.

GALERA, 2016, p. 154

Se não conseguimos retomar nosso tempo de vida, então é porque nossas vidas estão condenadas à indústria da vida capitalista. A indústria produz vida, a vida torna-se mercadoria. Enquanto mercadorias, nossas vidas estão destinadas à realização do valor, ou seja, justificar a produção dos anos de vida por meio do trabalho e do consumo[2]. A ansiedade é justamente antecipar os próximos que continuaremos vivos, mas não como donos de nosso tempo. Por sua vez, a “irmã” da ansiedade, a depressão, é um resultado esperado, até mesmo lógico: se não somos e nunca seremos donos de nosso tempo, então é melhor vivermos um tempo morto, ao invés do tempo vivo da indústria capitalista.

Não causa surpresa perceber que, condenado à ansiedade e/ou depressão, enfim, ao sofrimento psíquico próprio da indústria da vida capitalista, alguém pense em suicídio. E também não causa surpresa perceber que, contrariada em seus interesses, essa indústria faz ressoar o discurso da prevenção em todos os cantos. É preciso compreender os interesses por trás do pânico midiático-científico-médico em torno do suicídio, pois “o discurso da prevenção apenas reapresenta o velho tabu do suicídio em termos contemporâneos aos objetivos e preocupações da sociedade de desempenho; afinal, o que fazer se as pessoas decidirem fazer greve da vida?” (LONDERO, 2020, p. 129). O suicídio continua sendo o “acaso” incapaz de reprimir pela sociedade disciplinar, incapaz de modular pela sociedade de controle. A negatividade que irrompe na utopia da positividade. Isto porque, como diz Cioran, “os grilhões e o ar irrespirável deste mundo roubam-nos tudo, salvo a liberdade de matar-nos; e esta liberdade nos insufla uma força e um orgulho tais que triunfam sobre os pesos que nos esmagam” (CIORAN, 2011, p. 55). Não há nada para se orgulhar quando o único orgulho que nos resta, um orgulho desesperado, é tirar a própria vida. Mas também não há nada para lamentar, pois se não encontramos nenhuma outra fonte de orgulho, o que podemos fazer? A questão do suicídio torna-se urgente em uma sociedade onde estar vivo tornou-se uma trivialidade.

Os situacionistas estão cientes dessa banalidade da vida quando, comentando a mesma abundância que levou Aurora a compreender sua ansiedade (a superação da alienação primitiva, natural), nos falam sobre uma “doença incurável”:

Os tecnocratas nos propõem hoje em dia terminarmos enfim com a alienação primitiva. Em um belo impulso humanitário, eles incitam ao desenvolvimento ainda maior dos meios técnicos que permitiram “por si próprios” combater eficazmente a morte, o sofrimento, o desconforto, o cansaço de viver. Mas o milagre seria menos a supressão da morte do que a supressão do suicídio e da vontade de morrer. Existem maneiras de abolir a pena de morte que podem fazer com que sintamos saudades dela. Até o presente, o emprego particular da técnica ou, mais amplamente, o contexto econômico-social onde se fixou a atividade humana, diminuiu quantitativamente os casos de sofrimento e de morte, ao mesmo tempo em que a morte se instalou como uma doença incurável na vida de cada um.

VANEIGEM, 2002, p. 79-80

O milagre da sociedade do espetáculo não é suprimir a morte, mas suprimir o suicídio, ou seja, a autonomia da morte. A morte continua viva, mas agora como uma “doença incurável” instalada em nossos corpos, uma doença reconhecida e classificada, tratada quimicamente e psicologicamente, enfim, uma positividade, um dado, um fato. Daí que a sociedade do espetáculo conseguiu diminuir “quantitativamente os casos de sofrimento e de morte”, mas qualitativamente esses casos se transformaram. Pois continuamos vivos, mas vivos enquanto mercadorias da indústria capitalista, portanto, nós estamos não-vivos. “O espetáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não-vivo” (DEBORD, 2003, p. 14). Ou seja, para a indústria capitalista, o problema não é continuarmos não-vivos, mas morrermos definitivamente.

Em Heroes: mass murder and suicide, ao buscar respostas para os casos contemporâneos de suicídio, Franco “Bifo” Berardi encontra uma delas ao refletir sobre o niilismo: muitas vezes mal interpretada, a crença de que não há nenhum sentido imanente, pré-estabelecido, é fundadora do humanismo, pois coloca o ser humano como criador dos sentidos que animam sua vida, destronando assim o papel antes ocupado por Deus. É a partir de seus princípios éticos, portanto, de suas relações com o outro, que o ser humano confere sentido à própria vida, e não respeitando a leis e mandamentos já estabelecidos. Para Bifo, essa ética humanista, ancorada em um “niilismo hermenêutico” (conceito inspirado em Heidegger), marcou o capitalismo industrial, quando se acreditava que a burguesia e o proletariado dividiam o mesmo barco, ainda que em assentos diferentes. Com a chegada do capitalismo financeiro neoliberal, esse “niilismo hermenêutico” se transformou em “niilismo aniquilador”: “O niilismo aniquilador é um fenômeno peculiar – o produto do capitalismo financeiro. Na esfera do capitalismo financeiro, destruir a riqueza concreta é o jeito mais fácil de acumular valor abstrato” (BERARDI, 2015, p. 50). Se antes o nada niilista era o meio para a criação de sentido, agora o nada é o fim, o resultado do individualismo e da competição. Bifo cita o caso emblemático do Credit Default Sawp (CDS), investimento bastante comum no mercado financeiro: “Um credit default swap é um contrato de swap que remunera o portador quando ocorre o default da instituição especificada no contrato. Ou seja, caso a instituição específica não pague suas obrigações, o emitidor do CDS terá que pagar o valor dessas obrigações ao portador” (Wikipedia). Em bom português: o investidor literalmente lucra a partir da desgraça alheia. Nas palavras de Bifo,

Se o jogo financeiro é baseado na premissa que o valor do dinheiro investido irá crescer caso as coisas sejam aniquiladas (se as fábricas são desmanteladas, os empregos são destruídos, as pessoas morrem, as cidades desmoronam, e assim por diante), este tipo de lucro financeiro é essencialmente construído em cima de uma aposta a favor da degradação do mundo.

De uma perspectiva humanista, o mundo financeiro se revela como uma forma ideal de crime, estabelecendo ativamente o suicídio como a base do jogo social.

BERARDI, 2015, p. 50

O paradoxo do “niilismo aniquilador” é reestabelecer uma potência acima dos interesses e das necessidades do ser humano, neste caso, o capitalismo financeiro neoliberal. Daí Bifo falar em capitalismo absolutista, pois esse sistema tornou-se o novo Deus cuja crença prospera à medida de nosso temor diante de seus atos de destruição – desemprego, regime de exceção, guerra, desastre ambiental, pandemia, enfim, o que Klein (2008) chamaria de doutrina de choque. Inclusive Bifo faz uma transcrição literal da história bíblica de Jó, que, transposta para o atual contexto, causa arrepio: o homem que tudo perde, mas que continua temente a Deus. Nas palavras de Bifo,

Longe de uma sociedade emancipada de qualquer regra, a desregulamentação neoliberal emancipou o capital da lei política e das necessidades sociais, enquanto sujeita a sociedade à aderência cega da lei de acumulação financeira. Isto marca o começo de uma era de capitalismo absolutista, onde a acumulação de capital, particularmente a acumulação financeira, é inteiramente independente (ab-solutus, não limitada) do interesse social. Neste sentido, a tradição humanista, baseada na ideia de que o destino humano não é sujeito a nenhuma lei ou necessidade teológica, é finalmente obliterada.

BERARDI, 2015, p. 52

De modo semelhante, ao definir o “sublime pós-moderno”, Jameson mostra como “nossas representações imperfeitas de uma imensa rede computadorizada de comunicações” (poderíamos acrescentar redes sociais, big data, internet das coisas, etc.) são, na verdade, “uma forma de representar nosso entendimento de uma rede de poder e de controle que é ainda mais difícil de ser compreendida por nossas mentes e por nossa imaginação, a saber, toda a nova rede global descentrada do terceiro estágio do capital” (JAMESON, 1996, p. 63-64). Enquanto o romantismo alemão representa o sublime a partir de paisagens arrebatadoras que atestam a insignificância do homem diante da natureza (as obras de Caspar David Friedrich, por exemplo) e enquanto Kafka representa o sublime a partir da burocracia estatal capaz de engolir vidas anônimas, a literatura de “paranoia high-tech” contemporânea representa o sublime a partir de um complexo tecnológico que controla todos os aspectos da vida humana (a série Black Mirror e o filme Controle Absoluto, por exemplo). Na verdade, temos nesses três exemplos a evolução do sublime ao longo das mutações do capital (mercantil, monopolista e financeiro). Isto serve como contraponto ao capitalismo absolutista de Bifo, pois mostra como a representação do sublime não se restringe à atual fase do capital. Contudo, a noção de “niilismo aniquilador” continua válida para pensar os contornos do sublime contemporâneo, pois o rastro de destruição deixado pelas forças financeiras atesta a impotência do homem num mundo sem sentido.

Falar em mundo sem sentido é falar em absurdo, como também em suicídio: não repetiremos aqui o argumento do famoso ensaio de Camus (2018), mas apenas a única pergunta realmente importante: vale a pena viver num mundo assim? Devemos encontrar essa pergunta em todos os atos de suicídio, mesmo os mais desesperados, se quisermos enxergar o suicida como um sujeito histórico. Parafraseando Marx, o suicida faz história, mas em condições desesperadas que não escolheu. Ou seja, as ondas de suicídio contemporâneas não são um efeito colateral do capitalismo financeiro, uma consequência determinada pelas causas destruidoras do individualismo e da competição. Elas nem mesmo são um fracasso diante das políticas públicas de prevenção (a forma contemporânea do tabu do suicídio). Portanto, diante das forças sublimes do capital financeiro, é preciso entender se esses casos de suicídio são o último sacrifício ou a última heresia, ou seja, é preciso encontrar sujeitos históricos. Fazer isto é recuperar a dignidade dessas pessoas, soterrada por um tabu ancestral, mas também contemporâneo.

É possível encontrar esses sujeitos históricos, lutando contra as forças absolutas do capital financeiro, em duas ondas de suicídio contemporâneas. A primeira delas diz respeito aos impactos da plataforma Uber entre os taxistas de Nova York. E a segunda ao crescimento de violência e vulnerabilidade no município de Altamira (Pará), decorrente da construção da Usina de Belo Monte.

A morte de Douglas Schifter foi a que começou a colocar em evidência as dificuldades emocionais e financeiras dos profissionais de táxi. Aconteceu em fevereiro de 2018. Ele tirou a própria vida nas portas da prefeitura. Em uma postagem nas redes sociais explicou que as ruas de Nova York estão cheias de motoristas “desesperados para dar de comer a suas famílias” e acusou o Uber de forçá-los a operar abaixo do custo. “Não serei um escravo que trabalha por uns trocados”.

POZZI, 2019

“Perdão por isso que eu vou fazer, tirar a própria vida, fazer tantos que me amam sofrerem, mas eu não aguento mais isso, a dor interna que eu sinto já é maior que eu, é impossível descrever. (…) Abri meus olhos sobre o quanto eu não sou capaz e o quanto esse mundo é podre, só tem maldade e hipocrisia. (…) Vou mostrar da pior forma o que é um sentimento de indignação, sentido por muitos, mas expressado por poucos. Nada nesse mundo me faz feliz do jeito que eu quero. (…) Quero deixar claro que não é minha intenção causar sofrimento a ninguém, mas foi uma escolha que eu fiz pra acabar com meu inferno interior, a dor já era muito grande. (…) Eu apenas não consegui aceitar certas coisas, e eu já estou morto por dentro” – trecho da carta de suicídio de um adolescente de Altamira.

apud BRUM, 2020

Ainda que relacionadas a fenômenos diferentes, essas ondas de suicídio carregam características semelhantes: ambas resultam de uma doutrina de choque – a aplicação de investimentos capitalistas, Uber e Belo Monte; ambas resultam de sentimentos de indignação – “não serei um escravo que trabalha por uns trocados” e “esse mundo é podre, só tem maldade e hipocrisia”; ambas resultam do desespero – “[motoristas] desesperados para dar de comer a suas famílias” e “a dor interna que eu sinto já é maior que eu”. Na verdade, as três características apontam para três variáveis: a dimensão objetiva (as transformações sociais e econômicas), a dimensão subjetiva (os afetos) e a dimensão pragmática (os atos de suicídio). Portanto, entender as ondas de suicídio como fenômenos conduzidos por sujeitos históricos é compreender o problema da determinação entre essas três variáveis.

Para pensar esse problema, vejamos a relação entre depressão subjetiva e depressão econômica (para quem não sabe, o termo “depressão” é um eufemismo do pensamento econômico burguês para se referir às crises cíclicas do capitalismo; por exemplo, a crise de 1929 também é conhecida como a Grande Depressão). É comum percebermos essa relação compreendendo a depressão subjetiva como efeito da depressão econômica: a própria Grande Depressão é muitas vezes retratada a partir do imenso sofrimento físico (fome) e psíquico (medo e insegurança), culminando nos casos sempre mencionados de suicídio – segundo estudo da American Public Health Association (LUO et al., 2011), a taxa aumentou 22,8%, o maior aumento registrado ao longo do século XX. Contudo, quais conclusões encontraríamos se invertêssemos essa relação de causalidade? Refletindo sobre a bolha da internet e a crise das empresas pontocom (dotcom crash), no começo dos anos 2000, Bifo arrisca essa inversão, como argumenta na introdução da edição castelhana de A indústria da infelicidade (obra dedicada a refletir justamente sobre a euforia neoliberal em torno das empresas do meio digital):

A depressão psíquica do trabalhador cognitivo individual não é uma consequência da crise econômica, mas sim sua causa. Seria simples considerar a depressão como uma consequência de um mal ciclo de negócios. Depois de trabalhar tantos anos felizes e rentáveis, o valor das ações despencou e o nosso brainworker apanhou uma depressão. Não é assim. A depressão se produziu porque seu sistema emocional, físico e intelectual não conseguiu suportar até o infinito a hiperatividade provocada pela competição e pelas drogas psicotrópicas.

BERARDI, 2003, p. 20

Ou seja, a euforia neoliberal produziu trabalhadores depressivos que, por sua vez, produziram a depressão econômica. Ou melhor, a descrença desses trabalhadores depressivos em relação ao sistema financeiro produziu a depressão econômica. Sobre a depressão causada pela euforia neoliberal, Bifo oferece uma explicação bastante simples: o excesso de estímulos provenientes do trabalho digital, aliado à competição individual (o empreendedorismo de si) e ao abuso de drogas antidepressivas (Geração Prozac), supera a capacidade de recepção do cérebro humano. Nas palavras do autor,

O universo dos receptores, ou seja, dos cérebros humanos, das pessoas de carne e osso, de órgãos frágeis e sensíveis, não está formatado segundo os mesmos padrões do sistema dos emissores digitais. (…) O formato do universo dos emissores tem evoluído multiplicando sua potência, enquanto o formato do universo dos receptores não tem conseguido evoluir no mesmo ritmo, pela simples razão de apoiar-se em um suporte orgânico – o cérebro do corpo humano – que possui tempos de evolução completamente diferentes dos das máquinas.

BERARDI, 2003, p. 21

Pensando exclusivamente o problema da tecnologia e buscando resolver uma questão ética, McLuhan (2005) também propõe hipótese semelhante ao refletir sobre as atrocidades cometidas por um piloto de bombardeio: por que esse homem aperta o botão mesmo sabendo que milhares morrerão? Suas respostas instintivas (neste caso, agressividade) continuam as mesmas, ainda que a potencialidade destrutiva de seus atos se ampliou absurdamente graças ao desenvolvimento da tecnologia bélica. O que nos interessa nesta reflexão de McLuhan não é tanto a reafirmação da hipótese acima (o descompasso entre os tempos de evolução do homem e da máquina), mas como ela nos ajuda a entender o “niilismo aniquilador” oriundo da desregulamentação neoliberal. Pois apertar o botão da bomba não é muito diferente do clique no mercado financeiro. Se a decisão ética ou mesmo a afinidade empática exige tempo de maturação, então este tempo não é o tempo da máquina.

Bifo também se questiona por que somente agora a depressão se tornou a causa de crises econômicas. O argumento a seguir é bastante interessante, ainda mais se considerarmos a inclusão recente da saúde mental no relatório anual de riscos elaborado pelo Fórum Econômico Mundial. Por que somente agora?

Além do mais, devemos considerar outro fato decisivo: enquanto o capital necessitou extrair energias físicas de seus explorados e escravos, a enfermidade mental podia ser relativamente marginalizada. Pouco importava ao capital o nosso sofrimento psíquico enquanto podíamos apertar porcas e manejar um torno. Ainda que estivéssemos tão tristes como uma mosca presa numa garrafa, nossa produtividade pouco se ressentia, porque nossos músculos podiam funcionar. Hoje o capital necessita de energias mentais, energias psíquicas. E são precisamente essas as que estão se destruindo. Por isso as enfermidades mentais estão explodindo no centro da cena social. A crise econômica depende em grande medida da difusão da tristeza, da depressão, do pânico e da desmotivação.

BERARDI, 2003, p. 24-25

Ainda que possamos questionar em que sentido o capital necessita de nossas energias mentais – com certeza não é para produzir valor, pois boa parte dos trabalhos no meio digital se reduz a trabalhos de merda, como diria Graeber (2018) –, não podemos desconsiderar que os efeitos, ou melhor, as causas, são reais. Vivemos em uma sociedade cada vez menos dependente do trabalho (graças à automação), mas ainda assim presa à socialização do trabalho – a principal ideologia do capitalismo (e também de alguns marxismos), como apontou Baudrillard (1976). É talvez aqui que o sujeito depressivo possa fazer história de outra forma que não simplesmente causar depressões econômicas. Pois o interessante da inversão de Bifo (a depressão como causa) é enxergar o depressivo como um sujeito histórico, ainda que suas conclusões continuem a reforçar uma relação de causalidade entre as duas depressões. Fazer história não é simplesmente ocupar o papel de causa ou de consequência, pois isto reduz o problema da determinação ao determinismo, desconsiderando a disputa hegemônica.

Com certeza criar as condições da crise não é um papel menor, e se a hipótese de Bifo é verdadeira, então já podemos nos orgulhar de alguns anos perdidos, prostrados na cama, e outros tantos a recuperar em sessões de terapia. Contudo, a experiência pode dizer mais, pois a depressão também é capaz de criar as condições da utopia, neste caso, do mundo sem trabalho. Enquanto a velha guarda do anarquismo aprendeu a odiar o trabalho com a boemia, minha geração vem aprendendo a odiar o trabalho com a depressão. Pois se a depressividade ensina que há outras formas de vivenciar o tempo (KEHL, 2009), formas entendidas como patológicas pela socialização do trabalho, então esse ensinamento somente pode apontar para uma sociedade onde os seres humanos não precisam vender o seu tempo.

Homem se atira de hotel em Nova Iorque após o crack de 1929. Presente em Redit.

Referências

BAUDRILLARD, Jean. O espelho da produção. Braga: Espaço, 1976.

BERARDI, Franco. Heroes: mass murder and suicide. London: Verso, 2015. E-book.

_____. La fábrica de la infelicidad: nuevas formas de trabajo e movimiento global. Madrid: Traficantes de Sueños, 2003.

BRUM, Eliane. A cidade que mata o futuro: em 2020, Altamira enfrenta um aumento avassalador de suicídios de adolescentes. El País, 2020. Disponível em: https://brasil.elpais.com/sociedade/2020-04-27/a-cidade-que-mata-o-futuro-em-2020-altamira-enfrenta-um-aumento-avassalador-de-suicidios-de-adolescentes.html Acesso em: 2 set. 2020.

CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2018.

CIORAN, E. M. Breviário de decomposição. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. 2003. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/debord/1967/11/sociedade.pdf Acesso em: 2 set. 2020.

GALERA, Daniel. Meia-noite e vinte. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

GRAEBER, David. Bullshit Jobs: a Theory. New York: Simon & Schuster, 2018.

JAMESON, Fredric. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Ática, 1996.

KEHL, Maria Rita. O tempo e o cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo, 2009.

KLEIN, Naomi. A doutrina do choque: a ascensão do capitalismo de desastre. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

LONDERO, Rodolfo Rorato. Em busca da negatividade perdida: considerações sobre o papel dos “especialistas do suicídio” e a tarefa da crítica literária. In: ANDRÉ, Willian; AMARAL, Lara Luiza Oliveira; PINEZI, Gabriel (orgs.). Literatura & Suicídio. Campo Mourão: FECILCAM, 2020. p. 127-141.

LUO, Feijun et al. Impact of business cycles on US suicide rates, 1928-2007. American Journal of Public Health, v. 101, n. 6, p. 1139-1146, 2011.

MCLUHAN, Marshall. McLuhan por McLuhan. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.

POZZI, Sandro. Dívidas, leilões e suicídios: o icônico táxi amarelo de Nova York é uma ruína. El País, 2019. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/10/03/economia/1570099916_335353.html Acesso em: 2 set. 2020. VANEIGEM, Raoul. Banalidades básicas. In: INTERNACIONAL SITUACIONISTA. Situacionista: teoria e prática da revolução

Notas

1 – Rodolfo Rorato Londero é Doutor em Estudos Literários pela Universidade Federal de Santa Maria. Professor do Departamento de Comunicação e Membro Permanente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Estadual de Londrina.

2 – Em contexto de pandemia, podemos argumentar que, ao invés de produzir vida, a indústria capitalista produz morte. Na verdade, independente desse contexto, que apenas evidencia a realidade do capitalismo, a indústria sempre produziu vidas, porém muitas delas vidas descartáveis, mercadorias com um curto ciclo de vida ou com prazo de validade vencido. Mesmo essas vidas descartáveis devem realizar o seu valor.

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