A científica ficção da abstração real

A científica ficção da abstração real

Por Felipe Silva Terto[1]

Recentemente li um texto de Willian Fusaro, “Wall-e, o Anjo da História”, no qual o autor usa um filme de ficção científica para o relacionar ao pensamento de Walter Benjamin, uma relação mais que possível que o leva a afirmações como “Wall-e é um legítimo benjaminiano”. Estamos de acordo, se a trilha do progresso técnico arrasta consigo a possibilidade de explorar algum planeta afora e o amontoado de lixo que nos escapa ao cálculo, não há como negar as relações do robô andando pela Terra com o alemão caminhando nas ruas de Paris. 

O que me instigou com essa leitura foi seu catastrofismo. Paulo Arantes (2014), em O Novo Tempo do Mundo, faz um diagnóstico sobre o que é essa “era de expectativas decrescentes”, no qual crise econômica, social, política e espiritual se relacionam com punitivismo, emergência, categorias farmacológicas e um “imperativo categórico para uma era […] sob o signo da catástrofe” (ARANTES, 2014, p. 84). É como se aquilo que a esquerda pensou de um futuro, aquele norte que, como Benjamin e Ernst Bloch pontuam, nos era a esperança dada pelos desesperançados, tivesse mudado a ponto de o “[…] anacrônico Bloch, encalhado no tempo em que o afeto na espera ampliava as pessoas, em vez de estreitá-las, […] não entenderia mais nada” (ARANTES, 2014, p. 194). 

Imagino que o texto de Fusaro compartilha comigo um certo ponto zero, uma desesperança que encurta o horizonte temporal dado o passar dos dias, semanas e meses que não encerram devido a pandemia. E ainda mais central que isto, os números de mortos que aumentam na proporção que menos catártico fica. É de fazer Judith Butler levantar a pergunta novamente sobre “quando uma vida é passível de luto?”, seguida de um possível palavrão ao final para expressar a inconformidade. Ou talvez até reconhecer alguma inutilidade na questão, pois quando se trata da elite brasileira, não se trata de uma vida, é como se os mais de 100.000 fossem perdas de trabalho humano, não mais tão necessário pela tendência decrescente da taxa de lucro do capitalismo contemporâneo. 

Dessa forma, se a ficção científica é uma forma de pensar o real, a religião entra no leque benjaminiano para compreender a estrutura religiosa do capital. Ele é como um culto, sem dogmas, mas que cultua a si mesmo num looping infinito de valorização e que carrega a si a culpa, “[…] esse culto é culpabilizador” (BENJAMIN, 2013, p. 22). Talvez esta última parte esteja obsoleta. Como explica Vladimir Safatle, em Cinismo e Falência da Crítica, a estrutura psíquica neurótica e, consequentemente, culpabilizadora do supereu freudiano, se modifica com os processos históricos para uma psique perversa, e aqui entra o pensamento de Lacan, no qual “Não mais repressão ao gozo, mas o gozo como imperativo” (SAFATLE, 2008, p. 128). Então se antes a culpa ainda norteava a religião capitalista, a ironia absoluta das condutas da sociedade neoliberal nem isso carrega em suas costas. O Outro que me afetava não existe mais na hipóstase do Eu. 

Nos resta apenas o culto que cultua a si mesmo, a eterna valorização do valor. A pandemia e os dados escatológicos mostram que a analogia do autor estava correta, se o capital é sagrado, nele não se toca. “Quem não fugir à percepção da decadência passará sem demora à justificação particular das razões pelas quais permanece e age neste caos e dele participa”, afirma Benjamin em meio ao ar de ilusões e miragens numa Alemanha dos anos 20, e que nos faz pensar. 

Nosso autor percebeu o excesso que confirma a regra do sistema do capital, o valor não é algo que se pega na mão, um objeto, mas uma relação social que se fundamenta na autovalorização por meio da expropriação do trabalho abstrato. E mais e mais. Seu ciclo infinito que persiste numa realidade finita é um dos fatos que levam Benjamin a se questionar sobre o progresso, e que se a modernidade se vangloria de sua dessacralização do mundo frente à Idade Média, sua forma ritualística de ser que coaduna progresso e lixo parece desafiar a simples possibilidade de existência. 

“Vai se perdendo a liberdade do diálogo” (BENJAMIN, 2020, p. 21), afirma o filósofo. Não por problemas de razão comunicativa, mas porque “Qualquer conversa cai fatalmente no tema das condições de vida e do dinheiro”. Este é o que ele chama de “centro absorvente de todos os interesses de existência”, mas que, por outro lado, faz fracassar os modos de interações e relações humanas. O equivalente universal das trocas se universaliza ao ponto de dominar nossa relação com o mundo. Segundo Marx, como aquilo que tudo compra, “A universalidade do seu atributo é a onipotência do seu ser; ele vale, por isso, como ser onipotente” (MARX, 2004, p, 157.). Se Lacan pensou a linguagem como uma “casa de tortura”, linguagem e dinheiro aqui tomam forma de um Banco Central. 

O contexto pandêmico nos joga ao catastrofismo de Benjamin. Frases como “[…] a expectativa de que as coisas não possam continuar assim terá um dia de convencer-se de que o sofrimento dos indivíduos e das comunidades só tem um limite para além do qual nada poderá continuar: o aniquilamento” (BENJAMIN, 2013, p.18) nos tateia, aqui há catarse. Ou até mesmo na desesperança de Slavoj Zizek, de que a luz no fim túnel é, na verdade, o trem em nossa direção. Os dias passam e o trem se aproxima, é preciso puxar o freio de incêndio, cortar o rastilha antes que essa dinamite exploda, fazer com que o sofrimento da amargura passe a “[…] enveredar pelo trilho ascendente da revolta” (BENJAMIN, 2013, p.20). 

Referências

ARANTES, Paulo. O novo tempo do mundo: e outros estudos a era da emergência. São Paulo: Boitempo, 2014. 

BENJAMIN, Walter. O capitalismo como religião. São Paulo: Boitempo, 2013. 

BENJAMIN, Walter. Rua da mão única: Infância Berlinense : 1900. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2020. 

MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004. 

SAFATLE, Vladimir. Cinismo e falência da crítica. São Paulo: Boitempo, 2008.

Notas

1 – Felipe Silva Terto é Graduando de Comunicação e Multimeios na Universidade Estadual de Maringá (UEM).

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