Wall-E, o Anjo da História

Wall-E, o Anjo da História

Por Willian Casagrande Fusaro[1]

O lançamento do foguete tripulado Falcon 9, a primeira experiência de vôo tripulado feita por uma parceria entre uma empresa privada e a NASA, ocorre em um momento de caos global. A maior pandemia já registrada não tem data para acabar, e a empresa de Elon Musk quer colonizar o espaço enquanto não saberemos se haverá um show ou um festival de teatro em 1 ano e meio ou 2, ou se haverá uma planta de fábrica funcionando normalmente, sem ter de seguir protocolos sanitários e de saúde. Nunca quisemos tanto sumir daqui. A ideia inicial de colocar bilionários em uma cruzeiro turístico espacial já é, por si só, um indicativo de que chegamos em um momento divisor: já temos tecnologia, só temos que ir. 

A ficção científica é uma das melhores maneiras – ou a mais divertida – de entender o que o espaço significa para nós. Nem é necessário recorrer aos clássicos. Em Wall-E, também há um tipo de “Elon Musk”, embora ao contrário. A ida ao espaço era uma necessidade: por não haver mais possibilidade de existência de vida na Terra, os humanos deveriam passar um tempo no espaço, enclausurados na nave Axioma, esperando indícios de vida na Terra que eram procurados por sondas robóticas. Enquanto isso, um grande contingente de robôs limpadores varreriam o mundo de toda a montanha de lixo criada pelo capitalismo – por nós. 

O simpático robô Wall-E processa toda a lixeira em que a Terra se tornou, enquanto os humanos, a uma distância colossal dali, mal podiam andar de tão gordos. O robô é parte da Operação Limpeza, implantada pela megacorporação BNL, através de seu CEO Global, que para todos os efeitos chamaremos de Elon Musk. O plano é levar toda a humanidade ao espaço enquanto a Terra fosse limpa por robôs. Diariamente, Wall-E acorda, sai de sua casa, uma nave encalhada em uma montanha, e sai para trabalhar: compactar lixo e mais lixo, ouvindo fitas com músicas pop dos anos 1950, 1960. Volta à noite depois da “jornada” com uma série de cacarecos: isqueiros, rádios, TVs. Wall-E é apaixonado pela Indústria Cultural: assiste a filmes, ouve música, assiste a programas dominicais. Decorou sua nave com pisca-pisca. É um humano robotizado. 

Wall-E está diante de montanhas e montanhas de progresso. Tem acesso a tudo o que a humanidade produziu, no fim da estrada, depois do caos global. Encanta com o que sequer viveu: bailes, danças, encontros, o amor humano. Se o pequeno robô pudesse ler, ficaria encantado com os escritos do filósofo Walter Benjamin sobre aquela montanha de lixo que se acumula lá fora, que é uma das expressões do progresso humano, do qual ele é parte. Wall-E é um legítimo benjaminiano. Encanta-se com a tecnologia, com o progresso, assim como Benjamin adorava o cinema e Bertold Brecht, o rádio. Enxergavam neles um futuro revolucionário. 

Para Benjamin, a história começou a ser compreendida enquanto uma montanha de acontecimentos trágicos quando eclodiu algo com o qual estamos bem familiarizados agora: o fascismo. Pouco antes de morrer, em um de suas Teses Sobre o Conceito de História, classifica a história enquanto uma sucessão de tragédias, que se acumulam perante a face de um anjo, o Anjo da História. Segundo Benjamin, o anjo, virado de costas, enxergaria uma 

montanha de acontecimentos trágicos onde um humano só enxergaria um encadeamento de fatos, o “desenvolvimento social”. 

O progresso, o desenvolvimento seriam, na verdade, uma série de bofetões que atingiram os ferrados do mundo, a grande maioria, por séculos. O anjo até gostaria de parar a tempestade de episódios trágicos – Guerra, Fascismo, Nazismo, crescimento econômico, cultura, estátuas, bustos, governos de direita e também de esquerda – e nos ajudar, levantar os mortos. Mas, não consegue. Essa tempestade que ele quer parar e não consegue é o que Benjamin denomina progresso. Durante o filme, o robô, sua amiga barata e a sonda robô EVA enfrentam tempestades de areia resultantes do progresso. 

No filme, a Operação Limpeza é dada como um fracasso. Ou seja, o progresso venceu. A Terra não pode ser limpa e a humanidade não pode voltar, a menos que encare o “motim” das máquinas – uma rebelião das máquinas à lá Stanley Kubrick, que não consegue conter o final feliz. A BNL de Elon Musk, que podemos chamar de Space X, quer mandar uma casta de humanos ao espaço para expandir as possibilidades de riqueza, nem que seja colhendo metais preciosos no espaço. Nossa Terra, que já está debaixo de uma montanha de progresso – pandemia, Domingo Legal, Instagram, Linkedin, Carteira de Trabalho -, não basta. Então, se a realidade não cabe nos planos, mudemos a realidade: vamos sair daqui, nem que seja durante a maior crise pela qual já passamos. Isso, aliás, pouco importa. Vamos produzir progresso. 

O sonho da colonização espacial vai se dar de uma forma muito conhecida por nós, trabalhadores: por meio de exploração. Recolher os destroços do presente, igual ao simpático robô filósofo, é olhar para trás enquanto a maré de tragédias se aglomera diante dos nossos olhos – para usar a palavra do momento. Resta a nós, os que não têm orçamento disponível para visitar o espaço nas excursões turísticas da nave Dragon Crew, puxar o freio de emergência benjaminiano e parar o nosso progresso, parar a ida ao espaço, parar o fascismo. É isso o que o filósofo chamaria de revolução.

Angelus Novus, Paul Klee, 1922.

Notas

1 – Willian Casagrande Fusaro é jornalista, músico e mestre em Comunicação pela UEL. 

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