O estupro e a condenação moral da vítima como forma social do patriarcado capitalista

O estupro e a condenação moral da vítima como forma social do patriarcado capitalista

Por Rafaela Martins*

Este é meu primeiro texto para a revista Ouro Canibal. No espaço da revista pretendo desenvolver ideias e reflexões sobre marxismo e feminismo. No momento que me sento à frente da tela do computador para compor estas palavras, o Brasil todo repercute a história da pequena, de apenas dez anos, que engravidou após sucessivos estupros. A cada dia, novos detalhes trágicos e indigestos vão sendo divulgados sobre o caso. Tentarei não me alongar no fato em si, mas nas discussões que ele deve gerar.

Os abusos perpetrados pelo tio começaram aos seis anos. A menina, residente no estado do Espírito Santo, precisou se deslocar junto com a avó até Pernambuco para poder realizar o aborto determinado por lei. Em casos de estupro, o aborto é permitido no Brasil desde 1940, a lei também prevê a permissão em casos de risco de morte para a mãe e anencefalia. Mesmo estando sob tutela, (pretenso) sigilo absoluto e (suposta) proteção do Estado, a criança teve seu direito negado pela equipe médica designada no Espírito Santo e seus dados vazados por grupos de fundamentalistas religiosos.

Uma criança, abusada sistematicamente há quatro anos, grávida, se desloca para outro estado para garantir seu direito à vida. Com esse mesmo slogan – direito à vida – fascistas fundamentalistas religiosos proclamam que a gestação deve seguir em frente, liderados pela Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves. A menina e a avó chegam escondidas no porta-malas de um carro até o Centro Integrado de Saúde Amauri de Medeiros (Cisam), no Recife[1]. Um grupo reacionário, agitado por Sara Winter nas redes sociais, começa um show de horrores com gritos acusando a equipe médica de ser assassina. Um cenário digno de caça às bruxas. Como todos já sabemos a esta altura, o aborto foi feito[2]. Celebridades se prontificaram a oferecer apoio educacional e psicológico à pequena até os 18 anos.

É a partir daqui que inicio a minha reflexão. O caso dessa criança, tão comovente e estarrecedor, traz à tona inúmeras emoções de revolta, de dor, de raiva. Mas é preciso dar um passo atrás. Olhar para essa situação dentro do quadro maior que envolve a nossa sociedade e os múltiplos elementos que permitem que homens façam o que esse tio fez. Que o Estado descumpra a sua função protetora e de preservação dos dados da vítima, como o que ocorreu. Que o fanatismo religioso dê as mãos ao fascismo encorajando sujeitos a uma ação de ódio, como a que foi feita. Que meninas (principalmente as negras e pobres) sejam objetificadas, sexualizadas e amadurecidas na mais tenra idade, como esta criança foi. Que a classe média liberal, muitas vezes identificada como “esquerdista”, mas profundamente desafinada com a compreensão crítica e dialética do mundo, aposte em respostas pontuais para a solução do problema. Respostas essas, que, em última instância, só servem para acalentar brevemente nossa sensação de culpa e de fracasso enquanto sociedade.

Homens estupram

É comum, dentro das discussões sobre a opressão feminina[3], a defesa de que as mulheres sempre foram subordinadas aos homens e que a violência de gênero é naturalizada por quase todas as sociedades. Sem dúvidas, esta subordinação é predominante nos sistemas econômicos e sociais precursores ou periféricos do capitalismo. No entanto, em cada um desses sistemas, a mulher desempenha um papel específico que determina o maior ou menor grau de sua autonomia. Também não devemos deixar de ter em vista o fato de que a história é tradicionalmente contada a partir do ponto de vista hegemônico daqueles que pretendem disseminar e manter suas estruturas de poder, por isso, sociedades matriarcais, ou experiências de emancipação feminina foram cuidadosamente “esquecidas”. Tais experiências foram e continuam a ser massacradas pelas forças ideológicas que dominam as estruturas. Por tudo isso, é imprescindível compreender quais são os elementos do patriarcado que servem ao capitalismo e que estruturam a nossa sociedade até hoje, fazendo com que sua superação se torne dependente da superação dessa forma econômico-social.

O estupro não é um traço de um homem irracional. Não é, tampouco, fruto de doenças mentais ou distúrbios. O estupro é uma categoria de dominação e subordinação pelo sexo. Silvia Federici (2017) aponta a privatização do corpo feminino, no período da acumulação primitiva do capital, como o processo que transforma as funções sociais do homem e da mulher e os signos que carregam a ideia do feminino e do masculino adequados ao capitalismo nascente. O trabalhador e a trabalhadora, dentro da estrutura capitalista de produção, são individualizados.

A mulher burguesa, que não precisa ir à fábrica para garantir seu sustento, é a gerente do domicílio, embora sempre subordinada financeiramente ao marido. O homem burguês, proprietário dos meios de produção, é também “proprietário” da esposa e dos filhos. A mulher, nesta fase do desenvolvimento capitalista, não possui autonomia legal, direito de acesso ao espaço público e político e direito sobre seu próprio corpo e biologia. Mesmo o homem trabalhador, expropriado dos meios de produção, se beneficia da propriedade de sua esposa e filhas. A sociedade de classes capitalista escamoteia sua opressão criando hierarquias, nas quais os sujeitos são individualizados e ilhados e não se reconhecem como irmãos de classe, mas como concorrentes, inimigos com mais ou menos poder de opressão.

É importante ressaltar que, também no período de acumulação primitiva do capital, houve a expansão colonizadora fundamentada na escravidão. Angela Davis (2016) aponta que a escravidão é sustentada pelo abuso sexual. Complemento: mulheres negras carregam uma dupla função de propriedade dos senhores brancos porque o escravo é uma mercadoria a ser utilizada e trocada. A própria função reprodutiva dessas mulheres é executada com a violação de seus corpos. Daí, aponta a filósofa e militante, funda-se grande parte do mito da mulher negra má, que seduz e “rouba” maridos, que é hiperssexualizada e, portanto, nunca vítima dos abusos que sofre.

É sobre essa base que se estruturou nossa sociedade. Por mais que as lutas feminista e antirracista, desde seus primórdios, discutam tais questões, elas sempre voltam à tona, seja em 1920, 1950, 1990 ou 2020. É exaustivo pensar que mais de 200 anos de plena operação do sistema capitalista se passaram e ainda assim nos deparamos com as mesmas atrocidades cometidas. Ao racionalizar este processo, não pretendo, de nenhum modo, naturalizá-lo ou menosprezar a dor da garotinha violada. Quero, pelo contrário, fazer um esforço para que vejamos com clareza que os progressos contingenciais que nossa sociedade propõe não dão conta de solucionar o problema.

Infelizmente o caso dessa criança não é uma profunda exceção. Segundo o 13º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, a cada hora, quatro meninas brasileiras de até 13 anos são estupradas. A maioria dos abusos são perpetrados por parentes ou pessoas próximas às vítimas. Em 2018 ocorreram 66.000 estupros no Brasil, o maior índice desde que a pesquisa começou a ser feita, em 2007. 53,8% destas vítimas eram meninas com menos de 13 anos[4]. Toda mulher passa por inúmeras situações de assédio e violência física e psicológica durante a vida e esses assédios começam, para a grande maioria, ainda na infância ou puberdade. Não são monstros desvirtuados que cruzam nossos caminhos, são, apenas, homens. Todo o padrão de sexualidade e virilidade masculino é construído pelas categorias da dominação. O homem que nunca cometeu nem cometerá um estupro na vida, certamente já assistiu vídeos pornográficos nos quais a mulher é sempre subjugada de forma violenta. O homem que nunca assediou uma mulher, certamente já foi cúmplice de amigos que o fizeram.

O Estado não existe para proteger os cidadãos

Quando falo em progressos contingenciais no ponto acima, refiro-me aos apelos às instituições de mediação e controle social como, por exemplo, o judiciário, as escolas, as igrejas e as clínicas médicas e psiquiátricas. Por que, mesmo com tantas instituições teoricamente capacitadas para educar, punir, ressocializar, medicar e neutralizar tais ações tão atrozes, continuamos diariamente a observar números estratosféricos de abusos contra mulheres, crianças, negros, e sujeitos da comunidade LGBTQI+? São, estes, casos de distúrbios sociais, ou farão, eles, parte dos fundamentos que sustentam nossa sociedade?

Eu, como marxista, defendo a linha de autores que compreendem que estas instituições sociais, forjadas dentro da superestrutura do sistema capitalista, não podem servir a outros propósitos que àqueles concernentes ao próprio capital. Explico: assim como em nossa sociedade a família nuclear heteronormativa desempenha uma função de reprodução específica, que oferece as condições para o trabalhador se levantar todos os dias e desenvolver sua atividade produtiva, as outras instituições sociais também desempenham papéis que beneficiam a autovalorização do valor e o eterno acúmulo de riquezas, a base do sistema capitalista. Não estou, aqui, sendo economicista e colocando esses aspectos materiais como unicamente determinantes do processo. Sigo estritamente as diretrizes marxistas do materialismo histórico. Engels, em carta para Joseph Bloch, afirma:

As condições econômicas são a infraestrutura, a base, mas vários outros vetores da superestrutura (formas políticas da luta de classes e seus resultados, a saber, constituições estabelecidas pela classe vitoriosa após a batalha, etc., formas jurídicas e mesmo os reflexos destas lutas nas cabeças dos participantes, como teorias políticas, jurídicas ou filosóficas, concepções religiosas e seus posteriores desenvolvimentos em sistemas de dogmas) também exercitam sua influência no curso das lutas históricas e, em muitos casos, preponderam na determinação de sua forma.

Engels, 21-22 de setembro de 1890, Londres

Tendo esse aspecto em vista, a função do direito dentro do Estado capitalista não é, de forma alguma, proteger a dignidade de meninas e mulheres violadas. Se conquistamos direitos positivados no decorrer da história, isto só se deu graças à luta feminista. Ainda assim, os juristas Leite, Borges e Cordeiro (2013) reiteram a importância de o movimento feminista não se contentar com apenas a previsão formal desses direitos, isto porque a simples constatação de direitos perante a lei (como a que prevê o aborto em casos de estupro) ainda esbarra em limitações (todo tipo de aborto deveria ser permitido garantindo a segurança e soberania feminina perante seu próprio corpo) e no arbítrio de agentes que não necessariamente terão uma postura ética de cumprimento da lei (muitas mulheres, ao tentarem o aborto pelas vias legais esbarram em julgamentos morais e na morosidade da justiça).

O direito e o Estado são instituições que se organizam na modernidade para mediar e proteger as relações de troca e a propriedade privada. O professor Alysson Mascaro (2013) explica que o Estado se constitui como um elemento terceiro, mediador, entre capital e trabalho. Ele afirma: “A existência de um nível político apartado dos agentes econômicos individuais [Estado][5] dá a possibilidade de influir na constituição de subjetividades e lhes atribuir garantias jurídicas e políticas que corroboram para a própria reprodução da circulação mercantil e produtiva” (Mascaro, 2013, p 14).

É claro que dentro da organização de nossa sociedade, o direito como mediador também precisa dar conta de crimes contra a dignidade humana, visto que, por mais despossuído que um indivíduo seja, ainda assim, ele possui sua força de trabalho, seu corpo, seus músculos, sua inteligência. Por essa perspectiva, faz sentido perceber o porquê de, mesmo vivendo em uma democracia, presenciarmos tratamentos tão distintos nas questões jurídicas entre pessoas pertencentes a diferentes estratos sociais e a diferentes “raças” e gêneros mesmo que direitos sejam formalmente positivados prevendo a igualdade de todos os sujeitos perante a lei. Também fica claro o porquê de discussões como a do “direito à vida” aparecerem como “meras” questões de pontos de vista, ou de crenças. É a vida da menina violada ou a vida do feto que vamos defender? Qual das duas é propriedade a ser defendida pelo Estado?

O fascismo e o fundamentalismo são facetas do capitalismo

Até este ponto fiz um esforço para demonstrar, limitada pelo espaço que um texto me permite, que a instituição da família, dominada pelo patriarcado que serve ao capitalismo, cria em seu próprio seio uma masculinidade que, prejudicando aos próprios homens, é predadora das mulheres ou dos seres que fogem a sua heteronormatividade branca. Apontei também, que o Estado e, com ele, a estrutura jurídica – ambos à serviço deste mesmo sistema político-econômico – também não dão conta da proteção da dignidade da vida.

Prossigo, agora, adicionando mais um elemento nesse caldo de sabores tão amargos: a ideologia fascista e o fundamentalismo de grupos reacionários. Roswitha Scholz atualiza a tese de Robert Kurtz na defesa de que o nacional-socialismo (fascismo) não é o oposto à democracia burguesa. Ele é, então, apenas uma manifestação reversa[6] da democracia que aflora a partir de suas próprias contradições. Enquanto a democracia é “a forma de organização social da sociedade produtora de mercadorias”, o fascismo é sua faceta mais profunda, é o Estado (em sua derivação lógico-formal) organizado de forma anterior. É, enfim, como que uma vitamina que é aplicada na veia para que seu efeito seja mais rápido de direito no organismo. Ele moderniza e aprofunda as relações capitalistas em períodos de crise. Kurtz afirma:

Embora tenha sido “uma grande conquista histórica emancipatória da democracia que todos os seres humanos tenham podido tornar-se um ‘eu’ sem barreiras corporativas, pouco a pouco descobriu-se que esse ‘tornar-se eu’ tinha um preço terrível. Em vez de submissão desde o nascimento a um ‘senhor’ pessoal, houve submissão ao domínio impessoal e muito mais total do dinheiro”.

Kurtz, apud, Scholz, 2019

A expansão capitalista, que visa sempre a autovalorização do valor, acarreta o desemprego estrutural em massa, a precarização dos trabalhos e o aumento do abismo econômico entre os mais ricos e os mais pobres, agora, com forte influência do globalismo. Ou seja: marcas e empresas nacionais de países periféricos, como o Brasil, aprofundam ainda mais suas obsolescências em relação às tecnologias e poder financeiro das internacionais, são profundamente fagocitadas e exterminadas.

A coerência social já não é mais garantida mediante tal crise. Os cidadãos perdem seus signos culturais, étnicos e subjetivos que já não servem mais a esta sociedade globalizada, precarizada e atropelada pela lógica da produção. Isso acarreta um “distúrbio de identidade” como o que ocorre na direita brasileira que proclama um “nacionalismo” de camiseta da CBF, mas que idolatra os símbolos dos EUA. Também que busca no fundamentalismo religioso a identificação com um grupo e – dentro da lógica desses sujeitos, o “nós” opera como os “cidadãos de bem” e o “eles” opera como “os esquerdistas, os comunistas, as feministas e todos os ‘desvirtuados’” – forjando, por fim, uma ideologia xenófoba, racista, homofóbica, machista e violenta.

No caso específico de países da periferia do desenvolvimento capitalista global, é emblemático perceber que os períodos de administração democrática do poder são minoritários. O Brasil experimentou a colonização, o Império, uma república de fachada, a ditadura Vargas, a Ditadura Militar e o Golpe de 2016, nestes entremeios, breves momentos de eleições livres e governos democráticos foram levados à cabo com poucos governantes conseguindo concluir seus mandatos.

Também é característico e específico do modelo de capitalismo dependente latino-americano as raízes de seus signos culturais, étnicos e subjetivos impregnadas do racismo estrutural, da elite parasitária escravocrata, da valorização da cultura norte-americana e europeia, do patriarcado, da heteronormatividade, etc. ou seja, os ideais fascistas não são uma excepcionalidade em nossa sociedade, pelo contrário, são a regra. Se eles experimentaram algum recuo durante o último período democrático foi simplesmente pela força e pressão dos movimentos sociais de trabalhadores, das mulheres, dos negros, dos indígenas, da comunidade LGBTQI+, por fim, das “minorias” como um todo.

É claro que tal semente fundamentalista e fascista (que, como já observamos, não nasce ao acaso, mas é forjado e operado por todo este emaranhado político-econômico-social)  se veste, como uma luva, nos indivíduos que são educados para a concorrência e o egoísmo em suas atividades profissionais, que se entretêm e se excitam com a violência e a pornografia nas telas da televisão e do computador, que estabelecem suas relações de amizade e amor baseados nos bens materiais que possuem, nos status de suas redes sociais, na exaltação da beleza padronizada e da juventude eterna. Indivíduos que são desde cedo oprimidos e “encaixotados” pela igreja, que são espectadores fanáticos de uma justiça encarceradora que opera como uma indústria de extermínio e exploração de corpos negros e periféricos. Que tipo de cidadão pode ser formado dentro de tal cenário?

Crianças negras e pobres – o grupo mais vulnerável de nossa sociedade

O tipo de cidadão que nasce dentro de tal cenário é o da madame que obriga sua empregada doméstica a ir trabalhar em meio a uma pandemia e que, responsável pelo filho da empregada (enquanto essa passeia com os cachorros), deixa a criança entrar sozinha em um elevador, fato que culmina na queda e morte do mesmo. Mas é também o cidadão que olha para esta menininha de dez anos e diz que ela “devia gostar dos abusos, já que sofria há quatro anos e nunca reclamou”. É um cidadão que vê crianças negras como frutos de uma parcela inferior da sociedade, como seres que não deviam ter nascido. Esse cidadão, quer dizer, “cidadão não, engenheiro”, é, comumente, aquele que acha que a solução para a pobreza no país é a esterilização em massa do pobre negro, mas que acusa uma criança de dez anos de assassina por ela precisar de um aborto.

Nós ficamos tristes, nós nos revoltamos. Certamente, a grande maioria da sociedade brasileira percebe o quanto é explorada, o quanto sua vida é massacrada pela lógica do capital. Percebe a crueldade do que foi feito com essa menina, com esse menino, com tantas meninas e meninos todos os dias. Mas, se nós não buscarmos a imbricada análise que dá uma noção dialética ao mundo que vivemos, nunca conseguiremos soluções mais assertivas. Vejo nas minhas redes sociais algumas mulheres brancas de classe média fazerem um esforço de empatia. Elas têm publicado fotos suas de quando tinham dez anos. Elas contam o que gostavam de fazer e como eram ingênuas e imaturas nesta fase da vida. Convidam os leitores ao exercício de se lembrarem dos seus dez anos de idade para desconstruir a ideia de responsabilização da vítima.

Embora muito nobre tal ação, e com alguma capacidade de comoção, ela logo vai de encontro com o imaginário construído em um país que foi colonizado e que teve sua base econômica fundamentada na escravidão de corpos negros por mais de trezentos anos. Menininhas brancas de classe média não estão na mesma categoria social que menininhas pobres negras. Davis (2016) explica:

Há o drama diário do racismo representado pelos incontáveis e anônimos enfrentamentos entre as mulheres negras e seus abusadores brancos – homens convencidos de que seus atos são naturais. Essas agressões têm sido ideologicamente sancionadas por políticos, intelectuais e jornalistas, bem como por literatos que com frequência retratam as mulheres negras como promíscuas e imorais.

Davis, 2016, p. 175

Este estigma aparece mesmo na mais tenra idade. A sociedade racista desumaniza as crianças negras e lhes retira o direito à infância com acusações de que os meninos já nascem maliciosos e tendentes à criminalidade e que as meninas já nascem dissimuladas e tendentes ao golpismo ou a enganação. É justamente nesta normalização da subjugação de um grupo étnico, lhe retirando sua dignidade, e na naturalização desta desigualdade por critérios absolutamente artificiais (como o fenótipo e a cor da pele) que se baseia o que o filósofo e professor Silvio Luiz de Almeida conceitualiza como racismo estrutural.

O feminismo liberal branco, ou o feminismo mainstream, ou mesmo esse que se apega apenas à representatividade faz um desserviço à causa e opera como um mecanismo que reitera essas diferenças simplesmente por não compreender, ou por propositalmente negligenciar, as questões de raça e classe que agravam a situação desta menina, protagonista dessa história de terror. Nenhum ser humano merece ter seu corpo explorado, abusado e violado, mas esse é o fundamento do capitalismo patriarcal racista.

Mais do que lutar pela dignidade da criança abusada porque meninas de dez anos são puras, ingênuas e imaturas (física e psicologicamente), o que, claro, é verdade, nós devemos lutar pela dignidade da criança abusada porque ela é um ser humano, um indivíduo que não merece ter seu corpo violado. Porque em uma sociedade patriarcal capitalista os componentes de raça e de classe a tornam ainda mais vulnerável, sendo violada repetidas vezes, não só pelo tio abusador, mas pelo fato de sua avó ter que sair para trabalhar para garantir seus sustentos e não ter com quem a deixar em segurança, pelo fato de sua mãe ter abandonado o lar, pelo fato de seu pai estar encarcerado, pelo fato de fundamentalistas religiosos terem vazados seus dados pessoais, pelo fato de a mídia ter explorado sua história, pelo fato de comentadores de internet terem a acusado de gostar dos abusos. 

É claro que mulheres brancas e ricas também são estupradas e sofrem violência. É claro que mulheres brancas pobres também são estupradas e, comumente, têm seus dados vazados sendo linchadas publicamente na internet. Mas é, definitivamente, bastante incomum que elas acumulem tantos níveis de agressão como os que essa menina acumulou, assim como é, definitivamente, bastante comum que o nível de exposição e agressão aumente conforme aumenta o grau de vulnerabilidade social a que essas meninas e meninos estão submetidos.

Você, caro(a) leitor(a), pode indagar: “Então você acha que nenhum esforço vale a pena? Se todos os problemas são frutos do capitalismo e ainda não conseguimos combatê-lo, como sobreviver a este mundo?” Respondo que não é minha pretensão ser determinista e fatalista em minha análise. É claro que devemos pressionar as instituições abrigadas no sistema capitalista, é nelas que nossa vida, de modo concreto, acontece. É claro que devemos lutar pela garantia do aborto seguro para a criança (como feito pelas feministas que foram à porta da maternidade em sua defesa), é claro que devemos usar nossas vozes para a luta feminista. Devemos fazer isto tudo, no entanto, sempre respaldadas (os) pela formação de um pensamento crítico. Sempre sabendo em quais territórios peleamos nossas batalhas e com quais estratégias vale a pena jogar o difícil jogo que é viver sob esta sociedade. Por fim, não devemos deixar de vislumbrar a superação deste sistema e a emancipação humana para que todas as garotinhas de dez anos possam apenas ser garotinhas de dez anos com suas girafinhas de pelúcia e com seus sonhos infantis.

Ilustração: Lari Arantes

Referências Bibliográficas

Almeida, S. L. (2019). Racismo Estrutural. São Paulo: Pólen Livros.

Davis, A. (2016). Mulher, Raça e Classe. Tradução: Heci Regina Candiani. – 1. ed. – São Paulo: Boitempo. ISBN 978-85-7559-508-4 (recurso eletrônico).

Engels, F. (1978). Carta para Joseph Bloch. Do original:  Letters on Historical Materialism. To Joseph Bloch. [1890]. pp. 760-765. in TUCKER, Robert C. (org.) The Marx-Engels reader. 2. ed. New York: W. W. Norton & Company, 1978. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1890/09/22.htm. Com acesso em 19/08/2020.

Federici, S. (2017). Calibã e a Bruxa: Mulheres Corpo e Acumulação Primitiva. Tradução: Coletivo Sycorax. São Paulo: Editora Elefante.

Leite, T.S.C; Borges, P.C.C; Cordeiro, E.X. (2013). Discriminação de gênero e direitos fundamentais: desdobramentos sóciohistóricos e avanços legislativos. Revista de Direitos e Garantias Fundamentais. Disponível em: http://sisbib.emnuvens.com.br/direitosegarantias/article/view/233. Com acesso em 20/08/2020.

Mascaro, A.L. (2013). Estado e forma política. São Paulo, SP : Boitempo. ISBN 978-85-7559-330-1 (recurso eletrônico).

Scholz, R. (2019). ‘A democracia continua a devorar os seus filhos’ – hoje ainda mais! Reflexões sobre um texto de 25 anos e alguns comentários críticos sobre o artigo de Daniel Späth ‘Frente transversal em toda a parte!’. Tradução de Boaventura Antunes. Disponível em: http://www.obeco-online.org/roswitha_scholz32.htm. Com acesso em 20/08/2020.

Notas

* – Doutoranda em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FL-UC – Portugal). Tem seu foco de estudo na área da crítica feminista da economia política da comunicação. É editora da Revista Ouro Canibal.

1https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/08/menina-de-dez-anos-entrou-em-hospital-na-mala-do-carro-enquanto-medico-distraia-religiosos.shtml

2https://www.brasildefato.com.br/2020/08/18/dois-dias-depois-medico-que-fez-o-aborto-diz-que-menina-voltou-a-sorrir

3 – Parto aqui da concepção feminista marxista para o conceito de opressão.

4 – Os dados aqui apresentados foram retirados da matéria “Menina de 10 anos violentada faz aborto legal, sob alarde de conservadores à porta do hospital” do jornal El País Brasil. Link: https://brasil.elpais.com/brasil/2020-08-16/menina-de-10-anos-violentada-fara-aborto-legal-sob-alarde-de-conservadores-a-porta-do-hospital.html e também do site da Agência Brasil (EBC) https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2019-09/estupro-bate-recorde-e-maioria-das-vitimas-sao-meninas-de-ate-13-anos.

5 – Adendo nosso.

6 – Aqui recorro ao sentindo da palavra presente no dicionário Aurélio que define o adjetivo “reverso” como algo “que voltou ao início, ao ponto de partida, ao aspecto original”.

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