Mudanças climáticas, emergência hídrica e a “Intrusão de Gaia”

mudanças climáticas, emergência hídrica e a “Intrusão de Gaia”

Por Jaqueline Vieira[1]

Eu nasci negra, e mulher. Esforço-me para ser a pessoa mais forte que eu conseguir – para viver a vida que me deram e para promover algum tipo de mudança que leve a um futuro decente para esta terra e para os meus filhos. 

Audre Lourde

Há poucos dias, aqui de onde concebo esta reflexão, Londrina, Paraná, Brasil, fomos atingidos por uma tempestade. Um acontecimento normal, em mais um dia normal se não estivéssemos, é claro, em condições anormais. É preciso lembrar que estamos vivendo em um Novo Regime Climático (LATOUR, 2020). A forte chuva torrencial, rápida e implacável, nos pegou em meio a seca mais severa já enfrentada no estado. Coberturas de galpões desabaram no centro da cidade. Postes caíram. Ruas e casas ficaram alagadas. O depósito de um comércio que fica em meu quintal também alagou. Este último será o acontecimento que conferirá à nós uma imagem daquilo que imagino descrever o que tem sido chamado pela filósofa Isabelle Stengers de “Intrusão de Gaia”. 

A Intrusão

O Paraná, estado da região sul do Brasil, vive uma emergência hídrica. O decreto[2] assinado pelo governador Ratinho Junior em 7 de maio de 2020, com validade de 180 dias, “atesta” que o volume das águas pluviais e fluviais estão em situação alarmantes. Há mais de um ano, o nível das chuvas têm ficado bem abaixo do esperado, cerca de 80% a menos. No imaginário social quando pensamos em uma emergência hídrica no país a primeira imagem que projetamos é a do Nordeste – fortemente influenciados pela noção de pobreza que acompanha a imagem, disseminada junto de estereótipos construídos sobre os corpos que habitam essa região do Brasil tão heterogênea. Mas será necessário outro frame. A seca que atinge o Paraná também se instalou em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, estados que até pouco tempo atrás quase nunca eram citados quando o assunto era grandes estiagens. Cômico, para não dizer trágico, é que nosso subsolo é cortado pelo Aquífero Guarani, segunda maior reserva de água doce do planeta que de forma transnacional atravessa o Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – e o maior aquífero da Terra também está no Brasil, Aquífero Alter do Chão, na Amazônia. Curitiba e a região metropolitana estão com os reservatórios em torno de 31% da capacidade total. Desde março de 2020, bairros da capital e região têm vivido com o rodízio de água nas torneiras. Inclusive, pede-se a “colaboração” da população para que o consumo de água seja reduzido em pelo menos 20%. Porém, não encontrei campanhas pedindo a mesma “colaboração” para o agronegócio, responsável pelo uso de 70% da água que abastece o Brasil. Por falar em agronegócio, na agricultura, “pragas” têm atingido as extensas áreas de monocultura de milho durante o período da seca (mas “eles” irão alegar que isso não tem relação com o deserto da monocultura, responsável por desequilíbrios ecossistêmicos; bobos somos nós, que não possuímos a visão do “progresso”). O Paraná é um dos maiores produtores de grãos do país. Em contraste com esse cenário, é o estado com a maior remanescente de Mata Atlântica do Brasil. Fala-se sobre os impactos da emergência hídrica em todos os setores e isso inclui o econômico. No setor de energia elétrica (hidrelétricas) os sinais de alerta já foram emitidos. Queimadas manejadas estão proibidas – o que não significa que queimadas não estejam acontecendo. Incêndios criminosos ou “acidentais” devem aumentar. No começo de agosto, um grave acidente foi registrado na BR-277 envolvendo 22 veículos e causando a trágica morte de 8 pessoas. A pista da rodovia estava encoberta pela fumaça de queimadas, impossibilitando que os motoristas tivessem visão total do percurso. Doenças respiratórias tendem a aumentar com a seca por conta do ar árido (não é preciso lembrar que enfrentamos uma pandemia respiratória de Sars-cov-2, né?). 

À primeira vista, essa sucessão de eventos parece ocorrer à parte da estiagem. Áreas urbanas e áreas rurais, todas deverão ser afetadas por uma causa comum: a Intrusão de Gaia. Lembramos aqui que o estado de São Paulo, nosso vizinho, passou por uma grave crise hídrica entre 2014-2016. E é claro que não somos ingênuos ao ponto de deixar despercebido que algumas pessoas (negros, índios e pobres, como canta o samba enredo da Mangueira), muito mais que outras, sentirão de maneira ainda mais grave os impactos da estiagem, que pode perdurar até meados de 2021 – os técnicos do Estado estão a um triz de implorar por novenas nas quais rezaremos pedindo clemência ao fenômeno La Niña, para que o mesmo não se forme em 2021. Caso o La Niña ocorra nas águas do oceano Pacífico, a estiagem pode perdurar muito mais tempo.

A antropóloga Anna Tsing costuma dizer que vivemos em uma paisagem de perturbação humana (TSING, 2019). E é tanta perturbação que já se tornou marca geológica com impactos ecológicos: o Antropoceno, que pode ser encontrado nas discussões das áreas das humanidades como Capitaloceno, Plantationoceno, Chthuluceno – como pontua Haraway (2016). Todos os últimos termos/conceitos, por sinal, tecem críticas muito pertinentes à adesão do Antropoceno como categoria de análise. E mesmo que neste breve ensaio nossa escolha seja pelo uso de Antropoceno, para nós, esse Anthropos é localizado – homem, branco, burguês e heterossexual. Estudiosos do clima têm alertado para o fato do desmatamento na Amazônia impactar diretamente o regime de chuvas na região do hemisfério onde fica localizado o Paraná e às demais regiões do globo terrestre. A Floresta Amazônica, a Pan-Amazônia (Brasil, Colômbia, Peru, Venezuela, Equador, Bolívia, Guianas e Suriname), se tornou alvo de disputas em todo o mundo por abrigar vastos, mas não inesgotáveis, “recursos naturais”. Isso traz ao nosso território, à América Latina, imposições neocolonialistas nos formatos do capitalismo contemporâneo. Vale lembrar que 2019 foi o ano em que o desmatamento na Amazônia brasileira bateu recordes, segundo os dados oficiais do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais)[3]. Seguindo a trilha desse drástico recorde, em 2018, apenas um ano antes, tivemos a eleição de Jair Bolsonaro que trouxe consigo o atual Ministro do Meio ambiente, Ricardo Salles, prometendo deixar “passar a boiada”. Promessa de destruição feita é promessa de destruição cumprida na atual gestão presidencial. Tanto da floresta, quanto da tentativa de dizimação de seus povos, que resistem há exatos 520 anos. O desmatamento e a mineração não entraram de quarentena durante a pandemia de coronavírus, pelo contrário, se disseminaram feito o vírus e levando o vírus – a ‘epidemia de Xawara’ para os Yanomamis.

Aprendendo a compor

A imagem do alagamento do depósito citado no começo do texto retorna agora. Com tantos agenciamentos em decorrência da estiagem presente nessa breve narrativa sobre as consequências imbricadas pelo estado afora, no momento em que a água da forte tempestade se acumulou na porta do depósito, não pediu licença e apenas entrou, invadiu, causou Intrusão. A seca também não pediu licença e está nos atravessando. Mesmo a chuva sendo necessária em meio à forte estiagem, quando ganhou a força de uma tempestade chegou alagando pontos da cidade e, ainda assim, não foi suficiente para elevar o volume d’água fluvial. “Mas isso, as enchentes, é falta de planejamento governamental”, alguns poderão dizer. Sim, falta de pensar-com o Tempo das Catástrofes – um plano, um projeto todo e exclusivo “deles”; e não podemos ser cooptados por esse projeto. Gaia, a Intrusão de Gaia, não pede licença. Pela janela e como espectadora, literalmente, observei a água invadindo o depósito. Stengers salienta que “já não estamos lidando mais com uma natureza selvagem e ameaçadora, nem com uma natureza frágil, que deve ser protegida, nem com uma natureza que pode ser explorada à vontade” (STENGERS, 2015, p. 39-40).

O que resta aos Modernos é aprender a compor-com (HARAWAY, 2016) Gaia – Pachamama, Mãe-Terra, Floresta, Natureza – em seus regimes políticos. Ela, Gaia, exige a cosmopolítica (STENGERS, 2018). Sabemos que estamos longe da cosmopolítica no governo Bolsonaro, Trump, Jeanine Áñez, a golpista da Bolívia, ou no fascismo de forma geral. Esses governos, que compartilham traços comuns de autoritarismo, avançam rumo à destruição ambiental. Na verdade, avançam rumo a qualquer destruição. E ao mesmo tempo que avançam, temos o dever de contra-avançar. Por isso, é importante não cairmos no mesmo negacionismo que eles e dizer que “tanto faz” para Gaia. “Tanto faz” para Gaia significa morte entre nós, pois “trata-se de uma transcendência desprovida das altas qualidades que permitiriam invocá-las como árbitro, garantia ou recurso; um suscetível agenciamento de forças indiferentes aos nossos pensamentos e aos nossos projetos” (STENGERS, p. 41). 

Agora que estamos atravessados pela Intrusão, precisamos incluir a “questão ecológica” em nossas reivindicações de libertação da classe trabalhadora, urgentemente. Aliás, se nossas reivindicações de libertação não exigir que as demais espécies também sejam libertas, muitas confinadas pelo agronegócio, outras ameaçadas pela sexta grande extinção, nosso excepcionalismo humano (HARAWAY, 2016; TSING, 2018) jamais será capaz de libertar nossa classe. A crise ecológica amplia de forma substancial o fascismo, o genocídio, o etnocídio, o ecocídio, a opressão de classe, o autoritarismo, o racismo, o controle reprodutivo das mulheres, as desigualdades de gênero e raça, os diversos problemas de infraestrutura urbana, as mortes no campo e o colonialismo. Amplia as violências potencializando o capitalismo. Concede espaço, por exemplo, para Elon Musk – que recentemente assumiu, por meio de uma publicação no Twitter, a participação no golpe da Bolívia em 2019 – e o projeto de “colonização de Marte”. Qualquer projeto que comece com o conceito moderno de colonização (orquestrado por bilionários) resultará em graves problemas que já conhecemos bem. A diferença é que, dessa vez, os problemas orbitarão o espaço. Precisamos aterrar. Não precisamos desses sonhos dos Modernos, que agora insistem que devemos abandonar a Terra porque já não a enxergam como fonte de recursos inesgotáveis. Mas aqui, na Terra, existem modos de vida que são mundos possíveis. Os feminismos populares do Sul Global possuem um importante papel na elaboração desses mundos; destaque aos feminismos comunitários da América Latina e duas grandes referências, Julieta Paredes e Lorena Cabnal, presentes na luta ecoterritorial (SVAMPA, 2019). Global e local, uma glocalidade (ESCOBAR, 2000) possível. Esses mundos não trazem junto deles o “capitalismo sustentável”, ou o “capitalismo verde”, ou o “capitalismo soft”, mas sim a descolonização e a despatriarcalização. O ecofeminismo da sobrevivência (MIES e SHIVA, 1993).

O alagamento do depósito me levou a arrumar a calha para que uma nova tempestade implacável não voltasse a invadir o espaço. Essa experiência produziu uma elaboração, um trabalhar-em-conjunto, um pensar-com Gaia. Que os riscos que estamos expostos junto às mudanças climáticas e mudanças ecológicas provoquem o pensar-com em nossas práticas políticas. E isto não se trata de uma proposta individual, mas sim da luta pelo comum, muito bem descrita por Silvia Federici (2017). Se trata de organização. À nível do Estado nesse momento da emergência hídrica, cobrar que as políticas ambientais sejam efetivadas e que as políticas públicas sejam ampliadas para o período. Cobrar, também, que as companhias de abastecimento de água e de energia não efetuem o rodízio baseado em classe e raça (apesar de que alegarão não fazer isso). Tudo o que foi descrito até aqui se entrelaça com Ambiente, Educação, Saúde, Cultura. Se entrelaça com nossos regimes de existências. Se entrelaça com a luta contra-o-capitalismo, contra-o-racismo, contra-o-patriarcado e contra-o-colonialismo. O fim do capitalismo e o fim da necropolítica. A luta pela Vida. 

Ailton Krenak ensina que precisamos de Ideias para Adiar o Fim do Mundo (2019). Precisamos que a luta pelo comum seja feminista, negra, indígena, trans e da classe trabalhadora como um todo. Junto aos que resistem há séculos, viver com as ruínas das catástrofes. 

Este texto é uma breve contribuição para pensarmos em conjunto. “A tarefa da antropologia é, creio eu, restaurar o equilíbrio, moderar o conhecimento transmitido pela ciência com a sabedoria da experiência e da imaginação” (INGOLD, 2019, p.11). 

P.S; Está chovendo há dois dias por aqui. Pelo menos a terra já está molhada e o ar ficou úmido novamente. 

Recomendo a leitura do belíssimo livro O Buen Vivir, de Alberto Acosta, sobre a experiência da constituinte plurinacional equatoriana.  

Referências 

ESCOBAR, Arturo. El lugar de la naturaleza y la naturaleza del lugar: ¿globalización o postdesarrollo? In: La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales. Perspectivas latinoamericanas. CLACSO, Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, Buenos Aires, 2000. 

FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. Tradução de Coletivo Sycorax. Editora Elefante, 2017. 

INGOLD, Tim. Antropologia, para que serve? Tradução de Beatriz Silveira Castro. Editora Vozes, Petrópolis, Rio de Janeiro, 2019. 

HARAWAY, Donna. Antropoceno, Capitaloceno, Plantationoceno, Chthuluceno: fazendo parentes. In: ClimaCom Cultura Científica. N. 5, ano 3, abr. 2016.

HARAWAY, Donna. Staying with the trouble: Making Kin in the Chthulucene. Duke University Press, 2016. 

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

LATOUR, Bruno. Diante de Gaia: Oito conferências sobre a natureza no Antropoceno. Tradução de Maryalua Meyer. Ubu Editora: Rio de Janeiro, 2020.

MIES, Maria. e SHIVA, Vandana. Ecofeminismo. Tradução de Fernando Dias Antunes. Lisboa: Instituto Piaget, 1993. (Coleção Epistemologia e Sociedade).

SVAMPA, Maristella. As fronteiras do neoextrativismo na América Latina. Tradução de Lígia Azevedo. Editora Elefante, 2019. 

STENGERS, Isabelle. A proposição cosmopolítica. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, n 69, p. 442-464. abr. 2018. 

STENGERS, Isabelle. No Tempo das Catástrofes – resistir à barbárie que se aproxima. Tradução de Eloisa Araújo Ribeiro. Cosac Naify, 2015. 

TSING, Anna. L. Margens indomáveis. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 12, página 02 – 11, 2018.

TSING, Anna. L. Viver nas ruínas: paisagens multiespécies no Antropoceno. Tradução de Thiago Mota Cardoso. Editora Mil Folhas, 2019. 

Notas

1 – Graduada em Ciências Sociais, com concentração em Antropologia, pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). É editora da Revista Ouro Canibal. 

2 – Governo decreta situação de emergência hídrica por causa da estiagem. Disponível em: http://www.iap.pr.gov.br/2020/05/1681/Governo-decreta-situacao-de-emergencia-hidrica-por-causa-da-estiagem.html (acesso em 16 de agosto de 2020).

3 – Desmatamento subiu 50% em 2019, indicam alertas do INPE. Disponível em: http://www.observatoriodoclima.eco.br/desmatamento-subiu-50-em-2019-indicam-alertas-inpe/ (acesso em 16 de agosto de 2020).

2 Comments

  1. Boa noite! Uma parte do texto que eu li sobre a crise hídrica, fala da utilização da água em maior parte pela agricultura. Venho dizer que, na maioria das regiões rurais do Brasil, as águas não são encanadas, portanto as áreas de secas que abastecem a região urbana não vem da utilização da água na agricultura (em parte, né, porque se for pensar em um sistema todo é muito mais complexo). As águas de reservas que abastecem as regiões urbanas, geralmente também são utilizadas pelas indústrias. Aí já não sei se tem alguma norma para eles diminuírem a utilização, mas creio que não, porque são os empresários que comandam a nossa política…..

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